(Hoje resolvi escrever sobre um colégio público onde estudei de 1978 a 1982. Na verdade, escrevi sobre alegria de ter estado lá, e no muito que trago dele comigo ... Quem dera que nossos alunos de nossas escolas públicas fossem felizes como eu.)
Entrei lá em 1978. Vinha de uma Escola Municipal Paroquial, de poucos alunos, próxima (o nome já indica) da Matriz de São Gonçalo, onde havia estudado toda minha vida, desde o Jardim de Infância, sob os olhares assustadores e extremamente carinhosos do Pe. Eugênio... Mas a Paroquial oferecia somente o primeiro segmento. Sendo assim, tendo terminado a quarta série, minha mãe precisou transferir-me de escola. O Castello Branco ficava no quarteirão seguinte à minha rua. Era só atravessá-la, para chegar à escola. Da minha casa eu ouvia o sinal bater. Uma sirene longa, forte para dar conta de mais de mil alunos por turno.
Ainda hoje me lembro da primeira vez em que ouvi o sinal tocar, de dentro da escola. Era o meu primeiro dia de aula. Um pátio enorme, uma quadra de onde não avistava as quatro paredes demarcatórias. Minha mãe levou-me até o portão e lá me deixou. Foi tratar da vida dela, trabalhar. Minha mãe fazia transporte escolar e, por isso, estava sempre longe de mim nessas horas de entrada e saída de escola.
Alguns minutos se passaram entre eu ouvir o sinal e entender que ele indicava a hora de formar na quadra. Ainda atordoada pelo tamanho do espaço e pela movimentação de mil crianças, fui perceber isto tarde demais: quando a inspetora de alunos conduziu-me à fila, fui a última. E não houve outro jeito, porque já estava começando o toque do Hino Nacional, e eu não podia ficar de fora.
Quando acabei de cantar o hino chegou a hora de subir, em fila, para a sala de aula. Como fui a última cheguei, portanto, por último também. E, tendo sido a última a chegar, restou-me a última carteira da sala. Canto esquerdo, fundo da sala. Carteira de braço, que eu nunca tinha visto igual na vida. E, pela primeira vez, senti saudades da Paroquial: lá as carteiras eram de madeira escura, acopladas às mesas, e sentávamos de dois em dois.
Todas as cabeças na minha frente na hora de copiar do quadro. Eu tinha nove anos naquela época. Meus companheiros de sala muitos, muitos anos!!! Principalmente os que ficavam lá atrás, perto de mim: garotos e garotas com mais de quinze anos (eu me lembro da dupla Robson e Alexandre), repetentes, terríveis nos seus comportamentos. Meu Deus, naquele primeiro dia eu tive vontade de sair correndo de lá!
Passado o trauma do primeiro dia – melhor dizendo, não o trauma, mas o dia – os outros vieram em sua sucessão necessária, e fui vivendo cada um deles, do jeito que podia. Apaixonei-me pelo representante de turma, o Ranieri. Que menino lindo ele era!... Fiz algumas amizades com garotas do mesmo tamanho que eu (da mesma idade não havia, definitivamente), comecei a me divertir na hora do recreio, a descobrir durante os “piques” os cantos e encantos do Castello Branco...
Eu era uma menina horrorosa: alta, magrela, pescoçuda, de testa grande. Usava os uniformes costurados, velhos, passados da minha irmã. Lembro de uma saia que tinha defeito nas pregas, ficava meio torta... A calça de tergal azul, cheia de pences – minha irmã sempre foi mais gorda do que eu – vivia “pescando siri” (ela era mais baixa, também). Os sapatos, kichutes barbudos, que eu só recebia quando ficavam apertados para minha irmã. E, não bastasse tudo isto, minha mãe tosou-me os cabelos por conta de umas lêndeas que apareceram na minha cabeça.
Acho que não preciso contar da reação da turma quando cheguei à escola com aqueles cabelos. Todo mundo que já frequentou uma escola algum dia pode imaginar. Mas o inimaginável foi o que aconteceu comigo naquele dia na aula de Ciências...
O Professor, Sr. Mário Avelino. Ele dava as últimas aulas da tarde e, por isso, na hora da saída, fazia questão de formar os alunos para descer quando batia o sinal. Duas formas no corredor: meninos e meninas. Ordem de tamanho, o que me tirava do final da fila de vez em quando. Pois bem, com a turma formada, aproximou-se de mim e disse: “Você não é um menino? Com esse cabelo, parece o Joãozinho... Melhor ir para a fila dos meninos.”
Feito. Ele me fez descer as escadas do Castello Branco na fila dos meninos. Uma brincadeira ridícula que jamais esqueci. (Hoje chamaríamos aquilo de bullying, não?)
Estas formas de convivência foram me ensinando a “me virar”, no Castello. E fui aprendendo a ser feliz. No meu aniversário, a Professora de História pediu que o representante da turma me desse um abraço. Meu Deus, meu coração quase saltou pela boca! Aos poucos fui conquistando meu espaço, por ser excelente aluna, apesar de jovem demais. De nada adiantara eu ter feito dez anos, porque eles foram fazendo quinze, dezesseis... Meu espaço fui conquistando sozinha, e foi bem interessante ver, ao final do ano, que eu já estava enturmada. Comecei até a usar óculos – para completar minha já tão caricaturizada aparência – sem envergonhar-me por isto.
Com o tempo, fui melhorando minhas performances: já conseguia agarrar a bola nos jogos de queimada e até queimar alguém. É, eu aprendi a dar uma boladas e, assim, conquistei mais alguns amigos, de turmas diferentes, porque na hora do recreio todo mundo fica junto e não tem idade. Dá bolada forte, entra no time. Não dá, fica assistindo, até aprender...
No Castello Branco eu estudei até 1982. E tenho muitas histórias pra contar. Passado o susto inicial, vivi aquele colégio sugando-lhe tudo o que pude. Em 1979 conheci minha melhor amiga, a Cláudia Márcia, que seguiria comigo até sairmos de lá. Ela me ensinou como era gostar de alguém. Não, eu não tinha me apaixonado por Ranieri, não. Só pensava que estava. Amar é pensar todos os minutos, sem parar... E eu ficava fechando os olhos e tentando pensar em alguém durante todos os minutos, forçando os olhos, e quando me esquecia, “já era”, tinha que começar a pensar de novo. De tanto insistir nisto, Claudinha fez com que eu me apaixonasse pelo mesmo menino que ela. Ora, ela ensinou-me a gostar de Anderson, então, gostei de Anderson, também. Isto nos levou a uma experiência sofrida demais e evolutiva demais: as brigas. Ficamos “de mal” algumas milhões de vezes, trocamos bilhetinhos “ameaçadores” outras milhões (nesta época eu já tinha a mania de corrigir a escrita das pessoas. E me divertia com os erros dela) e seguimos crescendo, sem perceber. Seguimos amarrando uma amizade que dura até hoje. Aprendi a amar a Cláudia enquanto amava Anderson...
Minha passagem por lá não registra suspensões, notas baixas, agressividade, desobediências. Meus pais não me permitiriam ousadias como essas. Sempre fui alertada de que em caso de alguma queixa da escola levaria uma surra na frente dos meus amigos. Meus pais nunca podiam ir às reuniões de pais (eu não sei por que as escolas ainda hoje fazem reuniões de pais nos horários em que eles estão trabalhando!), mas sempre me lembravam do alerta. Cabia-me fazer minha parte.
Todas as vezes que vou a São Gonçalo vou ao Castello Branco. Já não há mais conhecidos por lá. Parei de perguntar por ex-professores, porque cada vez que perguntava por um, recebia a noticia de que havia falecido. O último que soube, Mário Avelino. Chega.
Mas passando pela Rua Carlos Gianelli é impossível não sentir o sorriso acolhedor daquele prédio. Ele ri pra mim, verdadeiramente. Sente saudades de mim, tanto quanto eu dele. Ali escrevi minhas histórias, e o ajudei a compor a dele, também. Deixei lá anos felizes da minha vida, que só não posso dizer que foram os melhores porque os melhores vivo agora.
Vivo meus melhores anos agora, não há dúvida. Porque cada ano que se vive é o melhor, pelo simples fato de estarmos vivos. E viver é uma bênção!
No Colégio Municipal Presidente Castello Branco aprendi coisas demais. Inclusive, os conteúdos das disciplinas! Meu Português – onde tento não deslizar, como diz minha amiga Tania – devo aos Professores Jorge Vicente e Valdir. Meu amor pela Matemática, que ajudou-me a exterminar os medos dos meus alunos, nasceu quando tive aulas com o Professor Alberto. E por ali segui aprendendo, sobretudo, a viver.
Transferi meu título de eleitor para Iguaba Grande, por razões eticamente políticas. Isto fará com que eu deixe de visitar o Castello por uns tempos. Mas ele sempre estará lá, imponente, a lembrar-me de que não é preciso muito para ser feliz. Bastam uns amigos, umas queimadas, uns amores, umas vergonhas... Tudo isto misturado à evolução dos hormônios numa idade em que tudo o que se quer é viver.
Tudo o que eu sempre quis foi viver. E parte da minha vida, da alegria da minha vida, ficou lá, no Castello Branco. Como parte dele veio comigo desde o dia em que de lá saí. Levei a alegria de ter estado no Castello para as escolas onde trabalhei, para ser inesquecível, na mesma intensidade, no coração dos meus alunos. Hoje, apresento esta alegria a todos os que trabalham a minha volta. E o brilho do Colégio Municipal Presidente Castello Branco está nos meus olhos cada vez que luto por uma educação de qualidade. Porque foi lá naquele colégio – público! – que aprendi a ser feliz!