quinta-feira, 11 de abril de 2013

Libertar-se

(Experiência compartilhada com você que anda querendo libertar-se daquilo que lhe faz mal.)


Há quem diga que existe certa permissão do oprimido, em relação ao opressor. Isto é horrível de se ouvir, quando nos diz respeito. Há uns dias isto vem dizendo respeito a mim. E resolvi me libertar.

Libertar-se não é tão fácil. Exige discernimento, responsabilidade e, sobretudo, coragem. Verdadeiramente, às vezes estar-se preso é mais cômodo.

É que eu tenho esta característica, que muitos dos meus amigos chamam de defeito: vivo a preocupação de não ser incoerente. Temo pelos exemplos que dou. Controlo a todo o momento se o que faço testemunha o que digo. Não, ainda não é na metade da vida que se aprende isto. Talvez mais à frente eu já saiba perceber isto melhor, e aí, ou me torno ação da minha palavra ou desisto de provar as coisas que prego por aí. Com meus setenta, oitenta anos, realmente, não estarei tão preocupada assim.

Deste pensamento é que surgem as dúvidas. Alimentamos-nos bem para morrermos sãos? Vivemos para aprender a viver à beira da morte?

Quem me conhece sabe o quanto amo viver, o quanto me orgulho da profissão que tenho, com quanto amor e responsabilidade realizo meu ofício de educadora. Mas quando a gente percebe que a vida pessoal está interferindo na profissional, ou vice-versa, é hora de libertar-se. Nada que se adie. A hora é agora!

Hoje um sentimento de alegria invadiu meu coração. Hoje senti orgulho de mim mesma. Hoje optei por viver, e o que é melhor, ser feliz! As coisas hoje em dia nos levam à depressão muito rapidamente. As vitrines piscam produtos que nunca conseguiremos ter – e nem sei se precisamos deles! – e então nos endividamos, inconsequentes, para adquirirmos algo para um prazer tão instantâneo e célere! Juros altos no final do mês nos cobram, no boleto do cartão de crédito, por um produto que já está fora de moda até que a fatura chegue.

Há certa permissão do oprimido, sim, diante do opressor.

O mundo nos diz que não somos capazes de ter, de ser, de fazer. O mundo nos gerencia. O poder nos gerencia, e as pessoas que eventualmente ocupam as cadeiras hierarquicamente superiores tentam se apoderar das nossas ações. Quando nos damos conta, estamos subjugados a pessoas incompetentes, inconvenientes, imaturas, intolerantes e sequer questionamos isto. Obedecemos. Ponto.

Não quero crescer assim, embora saiba que já passei do tempo de crescer. Evoluir é todo dia. Eu quebrei umas correntes hoje. Eu disse não. Eu escolhi ser um pouco mais feliz.

Hoje quero ser rápida por aqui. Vim só dar o meu testemunho, porque sei que há muita gente querendo tomar decisões na vida – tanto pessoal, quanto profissional – com o objetivo único de se libertar. Então, vim aqui dizer que o gosto é ótimo! E quando andava pelas ruas pela manhã, o vento bateu-me à cara como em 1995...

Em 1995 atrasei-me cinco minutos para chegar à escola onde trabalhava. Eu tinha que chegar às 7h25min e cheguei às 7h32min. Entrei na sala dos professores e a diretora – dona da escola – estava nervosa, e começou a dizer que já estava preparando uma aula para os meninos, que eu deveria ter avisado do atraso, e blá, blá, blá...

Acontece que eu andava insatisfeita naquela escola, e todas as manhãs eram um suplício pra mim, já havia um tempo. Eu acordava às 5h para poder chegar às 7h25min, nunca havia me atrasado antes. Todos os dias ensaiava o pedido de demissão. Acabava deixando pra depois, por conta de gostar demais dos meus alunos. E naquele momento, aquela mulher mexendo a boca (eu já nem ouvia mais o que ela dizia) só me convidava à liberdade. Uma professora entrou, e eu pedi a ela que retirasse minha bolsa da sala da quarta série. Nem entrei. Deixei a escola, mesmo depois de ver a diretora chorando, arrependida. Ela até poderia estar. Eu, nunca. Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida. Vento na cara, como o de hoje, embarquei no ônibus de volta a casa e dormi, de tão leve!

Umas e outras falas fizeram-me quebrar as correntes, também, ao longo desses meus vinte e nove anos de trabalho. E dou, sempre, graças a Deus por cada oportunidade!

Então, esse mesmo Deus me trouxe até aqui para dizer a você que a hora é agora. E que as chances aparecem, é preciso que estejamos atentos.

Deus abre janelas para todas as portas que se fecham. E ninguém é obrigado a viver triste, ou trabalhar insatisfeito, porque o companheiro ou patrão resolveu ser o opressor da vez.

Para que a liberdade aconteça, é necessário percebermo-nos escravos. E desejarmos sair desta condição. Depois deste reconhecimento, é entregar a vida nas mãos de Deus e seguir adiante, vento na cara, sentindo aquele alívio indescritível, perene, maravilhoso!

Hoje meu nome é liberdade. Obrigada, Senhor!

terça-feira, 9 de abril de 2013

48 horas

(O que você faria se soubesse, hoje, que tem quarenta e oito horas de vida?)


Imagino-me saindo do consultório médico. Acabei de ouvir do especialista em doenças do coração que tenho quarenta e oito horas de vida. É o que meu coração suportará bater. Depois, cessará.

Não sei se saio alegre ou triste. São quarenta e oito horas, então. Quarenta e oito horas. Ninguém sabe se vai viver quarenta e oito horas. Meu médico me disse que eu vou. Alegro-me. Segundos depois, entristeço-me. Quarenta e oito horas?

De vez em quando pensamentos assim me dominam. Não tenho culpa, Mercedes (Mercedes já me disse para parar de escrever sobre isto!). Quando os pensamentos me dominam, logo os esqueço, se escrevo. Então, lá vou eu.

Eu decidi listar as coisas que faria, se saísse do consultório com o veredicto nas mãos...

1 – Compraria um relógio imenso, para vigiar cada minuto. Relógios pequenos enganam hipermétropes astigmatas como eu. Ainda mais, sonhadores como eu.

2 – Não iria trabalhar. Desativaria o despertador. Fecharia bem as janelas do quarto, taparia a parte que está quebrada com algo que não permitisse a passagem da claridade. Dormiria o que corpo pedisse. Respeitaria este desejo físico, ainda que pela penúltima vez.

3 – Quando acordasse, sairia de casa com Antônio. Não, eu não o levaria à escola. Levaria meu filho a uma praia bem bonita. Talvez em Arraial do Cabo, porque sei que ele adora ir lá. Talvez sem roupas de banho. Só para caminharmos na areia. E quando nos cansássemos bastante, proporia a ele um banho gostoso de mar, com as roupas do corpo. Posso imaginar-lhe a expressão de espanto-alegria. Neste dia Deus nos presentearia com os golfinhos que às vezes aparecem por lá. Chegaríamos bem perto de uns deles e nos divertiríamos bastante.

4 – Compraria todos os sorvetes, os milhos cozidos e as empadinhas. Arrendaria as boias e brinquedos infláveis que dão colorido à orla e enchem de alegria as crianças ao mesmo tempo em que desesperam seus pais. Antônio me ajudaria a distribui-los aos meninos na praia, sem qualquer problema. Ele adora fazer isto, presentear as pessoas.

5 – Nas estrada, de volta a casa, compraria um frango assado, desses de padaria, bem suculento, gordo e gostoso. Uma coca-cola bem gelada e uma fanta uva para Antônio, porque é o único refrigerante que ele toma, assim mesmo, uma vez ou outra.

6 – Depois do almoço-quase-janta-pela-hora, e de um banho de mangueira no quintal, exaustos do dia, eu deitaria com Antônio ao meu lado e dormiria profundamente, sem medo de não acordar, posto que confiante no prazo do médico, de quarenta e oito horas. Abraçada ao corpinho magricelo do meu filho sonharia ter a vida toda para fazer-lhe companhia.

7 – Acordaria minhas últimas vinte e quatro horas para reeditar meus últimos capítulos. Antônio iria para a escola, desta vez eu precisaria resolver coisas comigo.

8 – Iria a São Gonçalo dizer aos meus pais do meu amor, da minha gratidão por viver, e por ter sido fruto deles, justamente deles. Contar-lhes-ia da vontade de abraçá-los – a vontade de sempre, sempre! – e o faria sem mais nenhuma vergonha ou temor. Pediria perdão, com o coração aberto, sangrando, porque perdoando, também.

9 – Voltaria para casa fotografando as paisagens que sempre deixo pra depois. O homem vai acabando com tudo, elas vão sumindo do mapa e as fotos não são tiradas.

10 – Pararia mais o carro. Respiraria mais. Abriria os braços para receber o Sol e, se chovesse, dançaria na chuva, sem medo de molhar o banco do carro. Aumentaria o volume do rádio para ouvir Capital Inicial celebrando a vida, comeria um pão com linguiça caprichado na lanchonete do posto de gasolina. Talvez até pensasse numa forma de driblar o pedágio!

11 – Correria para casa e gravaria um vídeo de adeus. Todo mundo saberia do meu amor verdadeiro, citaria os nomes dos amigos especiais, citaria o nome dos espectros, revelaria, finalmente, quem é o verdadeiro dono do meu coração, não o de mãe, mas o de mulher...

12 – Desceria a rua para buscar Antônio. Nada de deveres de casa para fazermos: tomaríamos sorvete. Um, dois, três, quantos ele pedisse, enquanto eu iria decidindo se lhe contaria do adeus ou não.

13 – Anoiteceria, e a Lua seria nosso alvo de fotografias (Antônio é apaixonado pela Lua): diversos ângulos, pés na areia, roupas largadas, ventinho fresco. Talvez eu escolhesse ser ali o lugar para me despedir do meu amor, do meu presente de Deus, do meu filho. E adormecesse meu sono eterno deitada sobre o colo dele, como fazemos aqui em casa, de vez em quando...

Talvez se saíssemos todos com um protocolo válido por quarenta e oito horas viveríamos de maneira bem diferente. Escolhendo as coisas que nos fariam mais felizes, abrindo mão daquilo que não nos faz. Esta é a verdadeira escolha da vida.

Eu listei treze coisas, que fui pensando meio que desordenadamente. Não sei se escolheria as mesmas treze se tivesse que reescrever o texto por uma pane no computador. Os desejos mudam. Mas do que eu me livraria, sei bem.

Você já fez sua lista? Não, certamente. Porque você acredita ter muitas, muitas quarenta e oito horas pela frente. Amém!

Hoje acordei pensando no raio do relógio grande, e na minha hipermetropia acompanhada de um astigmatismo sonhador que não me deixa ver os ponteiros direito. Olho-os de um jeito e, logo depois, se olho novamente, já deram voltas e voltas. Enquanto isto Antônio vai crescendo. Enquanto isto o abraço lá em São Gonçalo não sai de jeito nenhum. Enquanto isto monitoro a quantidade de guloseimas. Enquanto isto Antônio não fica descalço, tampouco pega chuva ou entra com roupas no mar.

Deus me dê mais algumas infinitas horas. Acabo de perceber que fiz muito pouco do que me dá prazer, e que se um dia esta história de consultório for de verdade, quarenta e oito horas será muito pouco, muito pouco para mim.

sábado, 6 de abril de 2013

Sou professor

(Em homenagem a quem tem muitas histórias, e muito orgulho pela profissão de PROFESSOR!)


Tenho cinquenta anos, e sou professor. Escolha difícil, diante de uma família que esperava um filho médico ou advogado.

Não sou médico, nem advogado. Mas muitos dos meus alunos têm este registro em seus diplomas. Formei médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, filósofos, meteorologistas e, graças a Deus, muitos, muitos outros professores!

Bordando minha história, os meninos e meninas que passaram pelas escolas por onde também passei. Sou professor de Matemática, foi difícil – sempre difícil! – convencê-los de que era possível compreender a Matemática, apaixonar-se por ela. Eu consegui, em muitas das vezes.

Com vinte e oito anos de magistério, bato às portas da aposentadoria. Cansado fisicamente da lida, meu corpo já não responde aos estímulos mais severos. Ainda vou trabalhar de bicicleta, ainda jogo uma “peladinha” com a turma na hora do recreio, mas isto tem me deixado de molho nos fins de semana. É que evito ir ao médico, temendo ter que ausentar-me das aulas, então, concentro as dores para os sábados e domingos. Às vezes os sábados são letivos, e a dor aumenta. Mas ainda está dando para aguentar.

O cansaço é, também, emocional. Conviver com professores que já desistiram da profissão, mas não a abandonam, me causa certa tensão. Preocupa-me o futuro dos meninos e meninas, que nenhuma culpa têm daquela desistência, e sofrem-lhe as mazelas. Os professores deste tipo que conheço saem de sala ao primeiro sinal de desordem, ou então gritam desesperadamente em busca de um silêncio que não acontece. Eles não buscam novas formas de ensinar, apenas repetem exaustivamente aquela única coisa que sabem. Então, os meninos e as meninas que não entendem aquela forma de comunicação vão se distanciando, porque tem sempre um colega ao lado – ao atrás, ou à frente – com algo bem mais interessante dentro da mochila. Aí tudo se dispersa como rio sem margem. Não há aprendizagem onde não há ensinamento.

Volto para casa emocionalmente cansado, também, quando sou procurado por algum de meus alunos para uma conversa particular. Graças a Deus, ainda sou referência para eles. A Orientadora Educacional da escola não está lá todos os dias. E acontece algumas vezes de, mesmo que ela esteja, eles preferirem desabafar comigo. Até mesmo as meninas me procuram, buscando uma solução para os seus problemas ou uma palavra amiga. Nessas horas eles me chamam de “tio”. Não tenho nada contra a expressão “tio”. Eles não sabem se é ou não pejorativo. Usam-na com carinho, e eu gosto. Ontem foi um dia desses. Dois alunos me procuraram após ter batido o sinal da saída. Tinham cometido um furto num supermercado, e agora estavam temerosos porque souberam que a câmera interna havia registrado e a polícia já havia sido notificada do caso. Estavam à procura dos meninos. Nunca haviam feito isto antes. Caíram “na pilha” de outros amigos e furtaram uns pacotes de biscoitos e uns sabonetes...

Diante do meu primeiro conselho para que revelassem o ocorrido a seus pais, a história de desgraça prolongada: um, não tem pai nem mãe. É criado pelo avô, que o agride constantemente. O avô não se locomove direito, passa o dia inteiro revezando entre cama e cadeira de rodas. O outro mora com a mãe, que trabalha como diarista, não sabe quem é seu pai. E, diante da forma como é criado (“para ser alguém na vida”) teme decepcionar a mãe ao revelar o erro cometido. Os dois meninos, nervosos, apavorados, choram o desespero que me toma de assalto, também. Ontem cheguei a casa tarde da noite, embora tivesse lecionado só pela manhã, tentando resolver a vida daqueles garotos. Acho que consegui. Acho que o susto que levaram não os fará repetir a bobagem.

Minha vida é assim. Sou professor. Eles sabem a Matemática, uns um pouco mais que outros, mas sabem o suficiente para viverem. Para mim, bastaria que fosse assim. Mas assim como todo mundo gosta quando encontra um médico que vai além das consultas e prescrições, ou um arquiteto que entenda, para além das obras de reforma, seus desejos pessoais, sou um professor que enxerga o aluno em sua essência, não só no que escreve nos dias de prova.

Nunca considero notas de provas para avaliar meus alunos. Um menino sob o estresse de ser reconhecido por uma câmera numa ação infeliz de furto não poderia jamais sair-se bem num teste de Matemática. Como não se sairia bem, também, a menina que suspeita estar grávida, ou o menino que experimentou crack na noite anterior, ou mesmo o menino que não conseguiu estudar porque virou concreto ajudando seu pai na construção do patrão.

Eu sou professor, graças a Deus. Não vi o melhor sorriso no rosto dos meus pais quando lhes informei da minha opção no Vestibular. Mas vejo-lhes o brilho nos olhos quando viajo pra casa e conto histórias do meu cotidiano. Como vejo o brilho nos olhos dos meus meninos e meninas quando lhes conto a minha própria história de aluno de escola pública que estudou muito, acreditou nos sonhos e chegou onde queria.

Meu salário não me dignifica. Luto pela valorização da classe, enquanto trabalho nos três turnos para pagar a prestação do carro e quitar a casa. Quero deixar algo seguro para meu neto, que acabou de nascer e que leva meu nome. Quero que ele cresça e viva um tempo de reconhecimento do trabalho que um professor que honra seu diploma tem. A ponto de também valorizar seus professores em sala de aula. A ponto de ver seus olhinhos brilharem quando eu lhe contar minhas histórias. A ponto de – quem sabe? – querer, também, ser professor.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Espectro

(Quem se faz de ensaio da vida não é digno dela.)


Meu maior desejo nos últimos tempos: passar para os meus amigos leitores que vêm até aqui a sensação de que a vida é breve e maravilhosa! De que a vida é uma bênção concedida por Deus aos Seus escolhidos...

Hoje, no entanto, como a dor de uma faca cravada no peito, senti no coração a tristeza de algo sobre o qual já havia falado, escrito, mas que embora seja desabafo meu, não passa. Hoje vou escrever sobre um espectro de gente. Sobre um pobre coitado – eu não gosto deste termo, mas falta-me outro – que desperdiça o dom da vida existindo, pura e simplesmente.

Tem gente que é assim, infelizmente: quando se dá por si, percebe que existe. E não sabe o que fazer com isto. Então, respira o dia, até que ele anoiteça. Depois, respira a noite, aguardando o amanhecer.

Imagino como Deus deve entristecer-se por constatar essas existências. Mas ainda há casos piores. Tem gente que, dando-se conta de que existe, quer aniquilar o outro, aquele que ama a vida, aquele que dá valor ao presente que recebeu de Deus, quando foi a vida fecundada.

Tenho olhado muito para trás, ultimamente. Refeito meu caminho, repensando um monte de coisas. Não, eu não cheguei a conclusão alguma. Temo chegar à morte sem concluir nada. Mas também não sei se viver é concluir. E aí, fico com medo de que, tendo concluído, reste-me deitar ao caixão.

Os sinônimos da palavra espectro empilhados constroem aquele ser, que de humano talvez nada tenha. Fui ao Google Images buscar a imagem para o texto, e mais me pareceu álbum de fotos do “Senhor Espectro”. Eu tive medo, mas, sobretudo, tive pena.

Sinto pena de quem acha que o mundo não dá voltas. De quem se aproveita das situações efêmeras da vida para internalizar que são eternas e, diante disto, humilhar e perseguir os outros.

Homens não deveriam – jamais! – sentir inveja de mulheres. Este é, em minha opinião, o sentimento mais repugnante. Um homem, a quem Deus destinou a força, a coragem, a sobrevivência da espécie, desmerece o gênero quando inveja uma mulher, seja por sua beleza, por sua inteligência, por seu profissionalismo, por sua competência. Isto é vergonhoso. Mas espectros não são homens. São apenas ensaios de sombras de homens. E hoje ando às voltas com um espectro que honra o nome e todos os sinônimos possíveis de se encontrar em todos os dicionários!

Mulheres não vieram ao mundo para serem invejadas por homens, ou sombras de homens, ou ensaios de sombras de homens. Mulheres vieram ao mundo para serem contempladas, admiradas, veneradas, desejadas, cuidadas, amadas e, para além de tudo isto, respeitadas.

Não saí de casa para trabalhar pelo simples querer de ir trabalhar. Saí de casa pela necessidade de sobreviver com dignidade, e ajudar aos meus pais a viverem uma vida digna, também. Mas saí, e quando decidi que seria professora honrei a classe, exercendo meu ofício da melhor maneira que pude. Errando e acertando, fui aparando minhas próprias arestas. Hoje vejo o quanto fui querida, meus ex-alunos estão próximos de mim, são meus amigos, apontam minhas falhas à época, mas reconhecem o meu amor – de sempre! – pelo ato de educar. Depois que deixei a sala de aula, depois dos dezesseis anos em que estive nela, mudei de função e hoje, Inspetor Escolar – com muito orgulho – tento fazer o melhor que posso.

Foi uma das coisas que aprendi com meus pais: meu pai foi o melhor mecânico enquanto foi mecânico, e minha mãe, a melhor balconista da Farmácia Vera Cruz. Eu não tenho nenhuma dúvida disto. E sei que eles acreditam que saí de casa para morar tão longe para ser a melhor Inspetora Escolar que puder ser.

Então era isto o que eu queria dizer. Que quando Deus criou homens e mulheres com suas diferenças, não foi à toa. Nós não somos iguais. Quando Deus se entristeceu diante do pecado confessado, destinou Adão a sobreviver do seu próprio suor, e Eva a parir com dor. Hoje muito do que compõe nossa geladeira em casa é fruto do trabalho da mulher, enquanto o homem não sabe, nem vai saber, o que é a dor do parto. Então tivemos que ir à luta para ver uma geladeira mais colorida em casa e, “sem querer”, apresentamos nossa força e inteligência aos homens que já estavam lá fora, e eles, agora, nos invejam. E invejando, perseguem.

Eu pensei em resistir, mas meus quarenta e quatro anos não me sugerem isto. Lendo os últimos textos que postei aqui, seria ter uma vida diferente daquela que prego e, decididamente, não vim ao mundo para isto. Pago todos os preços – altíssimos! – por ser quem eu sou, mas sou. E diante da mesquinharia, da covardia, das atitudes atrozes que venho percebendo, recuo. Que passe a cavalaria, que ladrem os cães. Que se levante a poeira. Daqui a um tempo, a poeira assenta, e nem rastro fica das ferraduras, porque dias substituem dias, há chuva, há sol, há vento... Vai tudo embora. Os cães latem por outras coisas (aliás, por qualquer coisa), o tempo passa e tudo está esquecido.

Meu rastro cheira a rosas, já disse “o outro”, lá, certa vez. E perfume de rosas, este sim, demora a sair. Fica nas rosas, fica nas mãos de quem as oferece, fica até nas páginas dos livros em que são guardadas.

Tenho rosto. Reconheço-me no espelho. Olho profundamente nos olhos das pessoas quando converso com elas. Às vezes até tenho necessidade de retirar os óculos do rosto. Não confio absolutamente em quem desvia o olhar de mim. Não permito a Antônio sequer brincar de fazê-lo. Digo sempre a ele que um homem deve olhar o outro nos olhos. Não se é assim, e não se é digno de confiança.

Eu não estou na diagonal da vida. Não procuro pontos de fuga para descansar o olhar. Não marco dia nem hora para visita. Não me escondo. Não sou sombra, não nasci para ser espectro. Portanto não sei conviver com quem o é.

Minha direção é só uma: para frente! “Para o alto e avante”, como diria minha querida Gisela. Vento na cara, cabelo desgrenhado, muitos tropeços, quedas incontáveis, choros absurdos, mas uma alegria sem tamanho por ser quem sou, por assumir meus atos, por olhar nos olhos, por dizer a verdade, andar com ela de mãos dadas, sempre, inexorável.

Não persigo ninguém, não admito ser perseguida. Não traio. Dispenso, portanto, a traição. E não preciso conviver com aquilo que me aborrece. Esta não é a Vida Nova que prometi para mim, na Páscoa. Estaria dando um testemunho contrário ao que prego. Isto eu deixo a cargo do Sr. Espectro. Este sim, prega uma coisa e faz outra, ensinando com seu exemplo torpe de vida aos seus descendentes.

Não quero carregar comigo a culpa por ser dentro de minha casa um exemplo desonesto de vida para Antônio.

A vida é breve e maravilhosa. Eis que opto por uma Vida Nova. E as tentações deste mundo que não é do meu Deus não vão me persuadir sob a forma de um fantasma de gente que acha que é alguma coisa. Alma vendida, eu repreendo suas atitudes nojentas. Engula-as. Estou fora.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Vida nova

(Em tempos de Páscoa, o título do texto vem bem a calhar... Eu quero uma vida nova. E resolvi escrever sobre isto.) 


Eu quero uma vida nova.

Quero poder dizer adeus. Algumas pessoas se foram da minha vida, sem que eu tivesse me despedido. Quero dizer adeus a Wilson, amigo engraçado que se foi de repente, e me deixou sem sorrir durante um longo tempo... Wilson fez isto. Morreu. E mandou alguém me avisar por telefone. Dias antes estava comigo, brincando, me divertindo. Como pôde ter sido assim?

Quero dizer adeus à Madalena. Quero atender o telefone naquele dia que ela me ligou, às vésperas de deixar o mundo, e eu não atendi. Quero saber o que ela me falaria. Quero pedir sua bênção, para continuar vivendo, mesmo com a saudade que não me deixa ter paz.

Eu quero uma vida nova. Aproveitaria ainda mais o tempo ao lado de Wilson e Madalena. Gargalharia com as histórias de um aventureiro, que veio ao mundo para vivê-lo, e aprenderia com as histórias de Madá, que veio ao mundo para que eu pudesse ser mais feliz.

Na minha vida nova, eu teria um sítio para acolher os animais que vagam abandonados nas ruas. Lá seria o céu – daria este nome ao sítio – já que dizem que no céu não há animais... Faria campanhas de preservação da natureza em tempo de ver bons resultados. Ensinaria às crianças que o que se planta hoje, se colhe amanhã. Ensinaria aos adultos que vale a pena investir na semeadura, ainda que não estejamos vivos para testemunhar a colheita.

Preciso de uma vida nova. Quero dizer do meu amor para as pessoas que amo. Essa vida corrida que levo não tem me deixado fazer isto. Quero abraçar – muito! – para matar saudade, quero beijar, fazer carinho. Preciso escrever cartas, quero perfumá-las, para que seus destinatários fiquem com o aroma da lembrança do que é uma amizade verdadeira.

Uma nova vida para ajudar as pessoas que moram tão longe de mim e sofrem por carências materiais. O mínimo, eu não quero muito, mas uma vida nova me impulsionaria a largar tudo isto que vivo aqui, e sair mundo afora ajudando ao meu próximo.

Eu quero uma vida nova. Preciso pedir perdão a algumas pessoas por coisas que fiz, que disse, que pensei. Preciso perdoar algumas dores que sinto, que me deixam doente de vez em quando. Preciso falar mais verdades, mas preciso ser mais cuidadosa, e observar que nem todo mundo está preparado para ouvi-las. Preciso omitir certas opiniões, evitar brigas, desgastes, porque isto não leva a nada.

Quando se chega a querer uma vida nova, é porque já se sabe alguma coisa. Fico aqui, na frente, tentando alertar a Antônio do que é triste, do que é chato, do que faz mal. Mas ele cai do mesmo jeito, machuca o joelho, chora, sofre. Graças a Deus eu dou colo. Aqui em casa, quando ele chora, já vem “subindo” em mim. Depois do consolo, desce. Sempre me beija antes, e agradece, como se não fosse minha a total obrigação de amenizar o sofrimento dele...

Quero amenizar sofrimentos, na vida nova. Ter palavras certas para dizer, para que as lágrimas nos rostos de todas as pessoas cessem. É difícil chorar sozinho. Ninguém nunca se esquece do dia que chorou sozinho... Quero estar lá, no momento preciso, em que a primeira lágrima for derramada. Quero ser porto, ajuda, companhia, servidão.

Eu quero uma vida nova, mais próxima de Deus.

Quando se chega à metade da vida, se quer viver. Jovens não sabem de nada, crianças sabem menos ainda e, no entanto, são as crianças e os jovens que sabem viver: amam a vida, respiram cada minuto dela como se fosse o último. Riem-se de si mesmos, são alegria para quem está por perto. Quer vida melhor?

Se eu pudesse ter uma vida nova, afastaria os jovens das drogas. Dessa morte que convida a partir o nosso filho, nosso amigo, nosso vizinho. Que leva consigo as famílias, que desagrega, que torna dependente do inferno toda uma sociedade. E eu apresentaria a VIDA aos meninos e meninas que não experimentaram alegria diferente, e só conhecem o prazer dos cinco minutos de êxtase. Mostraria a eles que existe o circo, o parque, a arte, o livro, o sol, o mar, a natureza. Mostraria que existe o outro, o irmão, a palavra, o carinho. Mostraria que afeto existe, que é possível amar e ser amado. O amor cura, liberta, e nos livra dos vícios desde muito tempo atrás!...

A metade da vida é o sinal que se acende amarelo: ATENÇÃO!

Tudo o que fiz até aqui, está feito. Orgulho-me dos acertos, envergonho-me pelos erros. Mas com acertos e erros aprendo e, tendo aprendido, ensino. Hoje olho pra trás e tento lembrar-me dos sonhos que tinha ajoelhada aos pés da cama aos dezesseis anos. Sonhava em ser feliz. Tenho quarenta e quatro, sonho em ser feliz. Antônio já me é quase certeza de que sou, de que serei. Mas resta-me pouco tempo ao seu lado.

Todos os dias, quando saio de casa para trabalhar e pego a estrada, peço a Deus que me leve e me traga de volta. Mas não há um só dia em que, trocando uma estação do rádio do carro ou um CD, eu não pense em morrer num acidente. Sempre penso, não domino isto. E já não sei se é um alerta ou uma intuição.

E se um dia eu não voltar pra casa?

Deveríamos viver a vida inteira pensando nesta possibilidade, ainda que prefiramos não pensar nisto.

Um dia a gente não volta do trabalho, do passeio, da internação, do banho, do sono. E, no entanto, mesmo cientes disto, a gente perde tanto tempo com coisas que valem tão pouco, e adia pra muito depois o que realmente interessa.

Quero uma vida nova. Começar tudo de novo. Amar, acolher, saber retribuir na mesma medida o amor que recebo...

Minha vida nova começa agora. Já vivi quarenta e quatro anos. Se eu mudar minha vida e conseguir planejar meus outros quarenta e quatro, já valerá a pena.

Para quem sabe (re)viver, vida nova é todo dia!

sábado, 23 de março de 2013

Quanto custa viver?

(Tendo chegado à metade da vida, ando refletindo sobre o que realmente importa...)



Antônio está na praia, neste momento. Seu pai o levou. Trouxe para buscá-lo, um amiguinho. O menino escondeu-se no carro. E até agora está na minha memória o sorriso do meu filho ao ver o amigo surgir na janela.

Eu fiquei no portão até perder o carro de vista. Os dois no banco de trás, brincando, felizes, felizes!

Tenho estado pouco com Antônio. Trabalhando demais. E, por estar certa de que não sou a única, quis escrever uma pergunta que ando fazendo a mim mesma. Eu me faço perguntas demais, não consigo responder a todas. Quanto custa viver?

Estou na metade da vida. E confesso que é verdadeira aquela história de que quando se chega aos quarenta anos quer-se ter os dezoito de volta. Mas não os dezoito do viço. Os dezoito do futuro mais distante, da morte quase impossível.

Ontem soube da morte de Talita, uma pessoa que quando conheci só pude concluir uma coisa a respeito: amava viver. E aí fiquei pensando em como Talita deve ter ido embora insatisfeita! Mas ela já vivia seus oitenta anos, daí o desejo de prender-se à vida que se despedia dela.

Hoje deve ser o dia mais feliz da vida de Antônio. Crianças têm isto de bom, todos os dias são seus melhores dias. Crianças não planejam muito o amanhã, tampouco choram pelo ontem como os adultos. Crianças amam o dia de hoje. Antônio abriu as janelas do seu quarto e me disse que o dia estava lindo lá fora, enquanto eu abria as da sala e supunha que iria chover. Meu filho – Deus menino – é o meu otimismo, quando a vida me obriga a entristecer. Isto foi há algumas horas atrás. Olhando para o céu agora, vejo que o dia de Antônio venceu a batalha contra o meu, graças a Deus!

Eles estão por aqui por perto, mesmo. Na lagoa. Disseram que vão comer um churrasco num quiosque. Antônio saiu coberto de filtro solar, com um boné na cabeça e uma bola embaixo do braço. Eis o preço do dia mais feliz da sua vida...

Enquanto meu menino se diverte às custas de uns picolés e de um churrasquinho de beira de lagoa, eu aproveito o silêncio de casa para fazer as contas das despesas. Preciso saber se o dinheiro que tenho durará até o fim do mês. Preciso saber se conseguirei pagar as contas de luz e água antes do corte. Preciso renegociar a dívida do cartão de crédito, cuja fatura já venceu e eu não tive condições de pagar. Preciso ver se a quantidade de ração que há no pacote alimentará as cadelinhas até a semana que vem. Preciso de informações junto ao RH sobre a data do pagamento, para saber se vai dar para comprar o ovo de Páscoa “dos Thundercats”, que Antônio tanto quer! Pretendo passar o feriado em São Gonçalo, vou precisar ter dinheiro para o combustível e para os pedágios...

Às vezes – em muitas das vezes! – desisto de continuar. Papéis sobre a mesa da sala, calculadora, anotações, boletos bancários, carnê do carro, caneta, tudo aquilo misturado me dá sono. As contas não se encaixam, não cabem no total que acusa o saldo da conta corrente, e eu nunca sei como fazer. Junto tudo, guardo na gavetinha da cozinha e deito para dormir.

Lá fora me exigem comprar a bolsa e o sapato de marca. Exigem que eu não tenha cabelos brancos, muito menos crespos. Exigem que meu manequim seja trinta e oito. Lá fora eu não posso ter barriga protuberante, nem estrias, nem celulites. Não posso ter cravos nem espinhas, e tenho que me lembrar, quando vou à manicure, de que um dos dedos tem que ter a unha pintada numa cor diferente das demais. Quando me esqueço de alertar para este detalhe fico me punindo e, na rua, sempre acho que estão olhando para o meu anelar de forma discriminadora.

Quanto custa viver, verdadeiramente? Quanto me custaria estar lá, com Antônio, na lagoa? Quanto me custa caminhar com ele pela orla, levá-lo ao parquinho da praça?

Na metade da vida, o desejo de abandonar as ordens de lá de fora e viver e ser feliz. Viver como criança, como Antônio, que sente a mesma alegria se lhe presenteio com um boneco do Ben 10, ou com uma régua geométrica, ou com um bilhetinho dizendo “Te amo!”, ou com um abraço numa hora inesperada...

Para viver para “lá fora”, eu trabalho o dobro do que deveria. Mal vejo meu filho. E de nada adiantará preparar um futuro “mais confortável” ao lado dele, porque nada me certifica de que estaremos juntos nesse futuro. E, mesmo que estejamos, já não estarei ao lado do meu menino, porque infelizmente sua infância está passando na mesma velocidade com que acelero o carro rumo ao trabalho.

Há cinco anos completei quarenta anos, e desde então estendi minhas mãos para o tempo. “Eis-me aqui!”, suplico todos os dias, implorando por um pouco mais de vida – de tempo de vida – porque Antônio não tem culpa se eu decidi ser mãe aos trinta e sete. Olho a vida agora e invejo a época em que tinha dezoito. Quero voltar, não há mais como. Queria estar com dezoito anos agora, para correr atrás de Antônio, para ser perseguida por ele, para ter juventude e energia o suficiente para acompanhá-lo. Vou querer ter os mesmos dezoito anos quando ele tiver também essa idade, para entender as suas dores da adolescência e ter, naquele vocabulário esquisito que se tem aos dezoito anos, a palavra certa para lhe fazer sorrir quando a tristeza vier lhe importunar.

Viver custa caro demais, demais! E a gente vai se entregando às exigências cada vez mais fúteis da vida sem se dar conta de que abrimos mão daquilo que nos é mais importante: o amor verdadeiro. A família, os amigos, nossos animais de estimação, o bem ao próximo.

Feliz de quem aprendeu a negar os apelos imundos do mundo ainda em tempo de viver bem. Feliz de quem se despede de todos os dias da sua vida, com a mesma alegria com que os recebe. Não estamos nós, todos os dias, morrendo um pouquinho?

Imaginando um Antônio que chegará ao meu portão com bochechas avermelhadas que emolduram e embelezam – e eternizam! – ainda mais o seu sorriso, desejo que a mensagem deste texto de hoje penetre no coração do seu leitor como semente. Semente de uma vida melhor. De uma vida que caiba no bolso de todos aqueles que veem prioridade e relevância naquilo que lhes é mais sagrado – cada um tem a sua – daquilo que, justamente por isto, o mundo só quer afastar.

Quanto mais a gente paga para viver, mais se afasta do que é a vida. Está na hora de vivermos o gratuito: o sentimento, a acolhida, o fim de tarde, o nascer do sol, o plantio, a colheita, o sorriso, o afago, a palavra, a ajuda, o perdão, o afeto. Por isto não se paga nada. E só por isto se vem ao mundo. Só por isto se custa viver.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A dor de Márcia

( A morte é certa e, no entanto, é sempre uma surpresa. Que a dor de Márcia nos ensine a amar e a demonstrar o amor que sentimos enquanto há vida.)


Todo mundo está sofrendo junto com ela. Sofreu com ela no período em que ele esteve bem doente, sofreu com ela quando Deus resolveu vir buscá-lo de volta e, agora, sofre com ela a dor da saudade.

Ninguém tem a palavra certa para lhe dizer. Gasto o vocabulário, só o que Márcia faz depois de ler as mensagens que lhe chegam – virtuais ou não – é chorar e doer. Ninguém ainda lhe disse a palavra mágica. Assim, ela vai expurgando a ferida com seus desabafos, enquanto a gente vai tentando consultar o Google para descobrir o que faça Márcia entender o que aconteceu, e conformar-se. E, se não for pedir demais, sorrir de novo – ela tem um sorriso lindo! – e ser feliz.

Cada um dos seus amigos tem uma religião diferente, acredita num Deus diferente. Isto para mim não interfere em nada, porque foi um “Deus de todo mundo” que curou Herminia (eu já contei há uns textos atrás), então, os amigos de Márcia recorrem às certezas de Deus e escrevem linhas e mais linhas para consolá-la. Deus é bom, Deus é fiel, Deus conforta, Deus abençoa...

E cada vez que ela experimenta a presença de Deus ao seu lado, tudo o que sente é uma saudade enorme, que hoje se chama Juninho.

Márcia e Juninho tiveram uma filha, a Carol, que hoje tem cinco anos de idade. Eu, de fora, fico observando a família pelas fotos que ela compartilha, e olhando para Antônio, que agora está com sete. Eu não vivo com o pai dele, daí fiquei pensando nisto tudo e resolvi escrever.

A certeza é a morte, não a vida. Depois que nascemos, só nos resta saber que um dia partiremos deste mundo, onde Deus nos colocou para sermos felizes, fazermos o bem e garantirmos presença no céu, quando Ele vier nos buscar.

Daí, para que a felicidade seja maior ainda – a gente sempre quer mais e mais! – vamos, ao longo da vida, conquistando amigos, vamos nos apaixonando, vamos construindo família.

Num desses encontros de destino/coração, Márcia conheceu Juninho.  Eles se apaixonaram e se casaram. Tempos depois nasceu Carol e a vida não podia estar melhor naquela família.

Parece um pouco comum, não? Um pouco lógico, ou evidente demais? Pois foi justamente aí que me peguei pensando: no nosso prazo de validade...

Há três anos uma amiga me revelou que seus médicos haviam lhe dado seis meses de vida. E ela mesma espantou-se quando eu lhe disse: “Que bom! Pelo menos você sabe que terá seis meses para viver. Eu não sei se os terei. Quem sabe que os tem?” Depois de pensar no que ouvira, ela sorriu e concordou comigo. Hoje ela está curada e... VIVA!

Eu me atropelei nas palavras cada vez que quis dizer alguma coisa que acalentasse o coração de Márcia. Nunca consegui. Depois de escrever e ler o que escrevi, ficava até mais triste do que ela.

Nada há que se diga. Nem que o tempo curará suas feridas, abrandará sua dor. Porque tem gente que chora longos anos a saudade de um filho, de um marido, de um pai...

Então, minha tentativa de hoje é de escrever sobre o valor que se dá à vida e aos que estão vivos ao nosso redor. Carol ficou, e agora depende de Márcia para entender o que aconteceu, depende de Márcia para crescer bem, depende de Márcia para viver, para ser feliz agora, apesar de tudo, porque é só uma criança, e tem todos os direitos de ser feliz.

Como está a sua vida hoje, leitor? Tem dado valor ao simples fato de abrir os olhos pela manhã? Já pensou alguma vez na vida no fato de que nem todos podem abrir os olhos pela manhã? De que nem todos que abrem os olhos pela manhã enxergam o dia lá fora? Pare pra pensar no valor que Juninho dava a cada manhã que lhe era concedida a graça de abrir os olhos...

Casais que brigaram ontem à noite e acordaram zangados, mal se cumprimentaram e saíram para seus destinos, nem se deram conta da futilidade do motivo da desavença. Qualquer coisa é fútil demais quando se pensa que, no final do dia um ou outro pode não chegar a casa...

Eu poderia escrever aqui sobre as discussões cotidianas entre irmãos, as discordâncias entre pais e filhos, os rompantes entre os melhores amigos da escola, mas Márcia chora a perda do seu amor. Ele se chamava Juninho e era o seu marido.

Muitos são meus pensamentos, e só terminarei meu texto se Deus quiser. Você só lerá se estiver vivo para isto. Logo quando comecei a escrever este texto soube da morte de um rapaz aqui da cidade. Um Juninho. Um pai de família. O amor de alguém.

Talvez fôssemos pessoas melhores se pensássemos todos os dias, todas as horas de nossas vidas, que a pessoa a quem amamos – a quem entregamos o nosso coração – pode ir-se embora, ter com Deus. Mas preferimos não pensar nisto e, então, levados pela rotina do mundo (este inimigo da vida!), deixamos para fazer as pazes “logo mais”, ou “amanhã”, ou – pior! – quando formos procurados para isto.

Ah, orgulho! Este sentimento que chegou até o nosso coração há tanto tempo! Somos orgulhosos desde que o fruto proibido foi provado. E nos distanciamos das pessoas, nos traímos, envergonhamos a Deus.

Márcia, minha querida, talvez a certeza de que tenha feito sua parte enquanto Juninho esteve com você traga leveza ao seu coração. Talvez pensar que casamentos podem ser salvos daqui em diante, por conta de sua viuvez lhe traga bons sentimentos. Falo por mim, que se hoje estivesse ao lado de alguém pensaria duas, três, milhões de vezes antes de criar situações de conflito. Pelo menos você sabe que seu marido foi em paz. Sabe que deixou aqui na Terra uma família linda, com “duas meninas” lindas, que se sustentarão uma a outra, e se fortalecerão na dor.

Jesus não foi o único a morrer para que aprendêssemos com a morte. Cada vez que um filho de Deus se vai surge a chance de tentarmos ser melhores. Eduardo faleceu esta madrugada. Infarto fulminante. Um menino! Temos o dia pela frente. A chuva – tão desejada nestes dias de calor! – leva maridos e esposas em Petrópolis. Sonhos de possíveis casamentos se encerraram naquela noite em Santa Maria. E a vida continua.

Precisamos amar mais. E demonstrar nosso amor, sem ter medo ou vergonha. Precisamos ter mais tempo para dedicar a quem amamos. Só o amor cura as dores. Só saber que amou e foi amada acalma o coração de Márcia. Só saber que é amada por Márcia acalmará o coração de Carol. Eis o maior dos Mandamentos! Urge que o coloquemos em prática, verdadeiramente.

A dor de Márcia é minha também. E por não ter por quem chorar, era isto o que eu queria escrever.