quinta-feira, 7 de março de 2013

Às avessas

(O título do texto fala por si, para quem me conhece. Vou dispensar apresentações.)


Então vai ver que pensei tudo errado, desde sempre. Nada do que aprendi com meus pais foi o certo, nada do que estudei na escola valeu. A vida é isto o que está aí, o mundo é o mundo e ponto, a vida é viver agora, porque ninguém sabe o que acontece depois que a gente morre...

Vai ver que ando contra a via, nado contra a corrente, sou o que não deveria ser, vivo às avessas.

Vai ver a importância do relógio é maior que a da minha vida. Importa que meu trabalho se encaixe dentro dos tic-tacs do ponteiro do relógio. Nem um tic a menos, nem um tac a mais. E jamais haverá julgamento sobre a qualidade do que se faz enquanto o ponteiro canta as voltas. Tendo feito, bem ou mal, o serviço, basta.

O valor está nas coisas, e não nas pessoas. E vai ver que é certo colocar o despertador para trabalhar cada vez mais cedo, sair de casa cada vez mais cedo – para voltar cada vez mais tarde – e respirar o mundo lá fora, porque já não é mais necessário viver o interior do lar. Televisões, celulares, computadores, videogames são ligados nas tomadas da sala, enquanto as famílias se conhecem apenas de perfil, como já previa o sábio, maravilhoso, encantador Quintana! Importa que os aparelhos sejam “top de linha”, um melhor e mais caro do que o outro. Aparelhos têm valor de mercado, pessoas não.

É o fim do mundo. Eu não consigo pensar noutra coisa. Acamada por conta de uns sintomas do que espero seja somente uma gripe, vejo meu corpo padecer pelo cansaço de tudo. Estou muito decepcionada.

Meus pais me ensinaram valores ao longo da minha vida. Estão vivos, graças a Deus e, por isso, ainda hoje aprendo com eles. Vejo no que erraram – sim, pais erram! – e no que acertaram. E muito vejo agora, aos quarenta e quase cinco anos de idade. Isto me traz certo conforto: imaginar que Antônio só se dará conta dos meus erros daqui a mais de três décadas! Mas foi através dos meus pais que aprendi a não mentir, a não tirar as coisas dos outros, a defender minhas verdades, a não ser injusta com ninguém, a dar o exemplo.

Meus pais me ensinaram a pensar no dia de amanhã. E me falavam de céu e inferno, como coisas distintas, como consequências dos nossos atos.

Existe céu e existe inferno. Jamais duvidei disto, porque ouvi isto dos meus pais.
Mas eu acho que tem gente que duvida.

O céu que internalizei no coração desde pequena é azul, tem jardins, anjos e animais (ainda tem). Lá ficam as pessoas boas que passaram pela Terra, que fizeram o bem e, por isto, foram absolvidas por Deus de qualquer condenação. Lá as pessoas são espíritos e não se reconhecem como pai, mãe, irmão, primo, enfim. São anjos de Deus e velam pelos que ainda não chegaram lá.

O inferno é quente, vermelho, e arde em brasa. É triste, escuro, barulhento, e nele estão todas as pessoas que, pelo tanto de mal que fizeram não puderam ser abraçadas por Deus, porque ele é fiel, e nos promete salvação. Mas para os que não querem ser salvos, não há o abraço de Deus. E eu imagino quão triste fica o Nosso Senhor ao ver seus filhos caminhando para o fogo por opção própria. Triste destino!

Cada um escolhe, durante a vida, o destino que tomará na sua morte. E enquanto as coisas do mundo vão sendo adoradas, desejadas a qualquer preço, vou pedindo a Deus que me livre das tentações.

Trabalhei vinte e nove anos da minha vida. Vivi quarenta e quatro. É isto, eu comecei aos quinze. E, diante desta tela, agora, um cansaço físico e emocional me deixa em dúvida se valeu a pena...

Nas horas de café da manhã, almoço, café da tarde e jantar sentamos, sempre, todos da casa à mesa. Não há individualidade na casa dos meus pais. Esperávamos papai chegar da oficina, às vezes a comida esfriava por um atraso qualquer dele, mamãe esquentava novamente, não se importava. Tínhamos que esperá-lo chegar, para fazermos a refeição. Não se conversava muito, mas estávamos juntos. Ali já estava o exemplo. Sem palavras. Só ações. E até hoje é assim: sempre que vou a casa deles, sentamos todos à mesa para as refeições, e as crianças vão aprendendo o comportamento já aos quatro, cinco, seis anos de idade. Hoje Antônio e eu almoçamos juntos, lanchamos juntos, jantamos juntos. Herdamos o exemplo, graças a Deus!

Mas o mundo que fica no portal da minha casa não me quer perto de Antônio. Não quer mães perto dos filhos. Então, o mundo envia as pessoas que perseguem, que maltratam, que tomam o poder para satisfazerem-se prejudicando o outro. Ninguém mais exige que você seja bom no que faz. É preciso que você faça, faça, faça até que não se lembre mais do rosto que tem seu filho, ou seu marido, ou sua esposa, ou seus pais, ou o cãozinho que você pegou para criar... Nada disto tem valor diante do que o mundo quer sugar de você.

Hoje meu corpo me pediu para parar. Ontem era só um desejo de choro, uma tristeza apertada, hoje é dor. É físico. Tudo o que somatizamos ao longo da vida é dor, é doença. E hoje acordei doente de tudo o que tenho vivido em tão pouco tempo.

Por isto, justamente por isto, dobrarei meus joelhos no chão e agradecerei a Deus. O mundo pode acenar lá fora com seus lobos disfarçados de ovelhas (ou fazendo questão de revelarem-se lobos, mesmo) à vontade, porque da porta para dentro da minha casa há um Deus nos guardando, a mim e a Antônio. O Deus que inspirou meus pais na minha criação, o Deus que conduziu-me ao trabalho aos quinze anos...

Da vida não se leva perseguição, covardia, imposição, intolerância, soberba, autoritarismo, maledicências. Da vida se leva o que se faz de bom.

Vou me deitar agora e adormecer o cansaço disto que está tomando o meu corpo. Hoje ao acordar, Antônio me contou de um sonho: ele estava num navio que naufragava, e foi parar numa ilha de dinossauros. Ficou amigo deles e eles os levaram de volta para casa. Eu estava tomando banho enquanto ele me contava o sonho. Eu chorei sob a água gelada do chuveiro. Pedi a Deus que abençoe meu menino para sempre!

Meu navio anda naufragado e não avisto ilha para me salvar. Muito menos pescoços compridos de dinossauros. Mas eu já estou com quarenta e quatro anos de idade. Antônio, na plenitude do céu, aos sete anos, é a minha certeza da presença de Deus aqui em casa.

Ainda sonho com o céu. Mesmo vivendo às avessas.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ir ou ficar

("Vossos filhos não são vossos. São filhos da ânsia da vida por ela mesma". Esta frase não é minha. Mas serviu a este texto que conta a história de uma mãe que vive um dia de cada vez. Amiga querida, é para você!)


Hoje ela mesma preparou o almoço. Escolheu pessoalmente as verduras no mercado, avaliando-as carinhosamente. Depois, seguiu para o açougue: carne fresca, saborosa. Temperos escolhidos, avental amarrado à cintura, respirou fundo e começou a cozinhar.

Seu filho, deitado no sofá da sala que fica próximo à janela, conversa com ela. Da para ver a cozinha de onde está, porque há meia parede separando os cômodos. A conversa é boa, ele nem se dá conta do programa da TV, que ligou mecanicamente...

Falam sobre muitas coisas. Ela, animada com o ânimo dele, agradece a Deus, entre uma pausa e outra da conversa, pela vida que seu filho vive hoje. Só por hoje. Dá graças.

Ele sempre foi um menino maravilhoso, desses que a gente vê na rua, na escola, nas fotografias e pensa: “quero ter um filho assim”. Inteligente, perspicaz, astuto, questionador. O menino cresceu rápido, ainda que diante dos olhos dela, e um dia pediu-lhe para ir embora.

Naquele dia, ela sentiu abrir-se o chão em que pisava. Filhos se vão? Como é isto? Eis uma experiência que se tem que ter, para se saber. Ainda que suas amigas com filhos de mesma idade a houvessem alertado, ela jamais imaginara que chegaria o seu dia de decidir se o deixaria ir, ou se o pediria para ficar.

Mas ele estava diante dela: mochila nas costas, roteiro de viagem amassado nas mãos – de tanto planejar! – e duas passagens compradas... Duas? Sim, ele não ia só. Apaixonara-se por aquela que agora, só agora, ela julgava louca. Pela primeira vez sentiu ciúmes...

O mundo rodou na sua memória rapidamente, e não deu uma volta só, não. Diante dela, de pé no tapete da sala – quase na porta! – esteve, por alguns segundos, o bebê amamentado, a criança dos primeiros passos oscilantes, o garotinho com o seu primeiro uniforme, o menino de janelinhas vestido para a festinha do primeiro livro, o rapazinho que mudou de escola quando terminou o Ensino Fundamental, o adolescente que confessava estar apaixonado... Todos esses numa só pessoa, seu filho, homem feito, que de pé, à sua frente, esperava apenas por um abraço de “boa viagem”.

Seu coração gritou um “fique!” tão alto que ela até se assustou! E até hoje acha que seu filho ouviu, também, porque olhou para ela de um jeito tão diferente que ela nunca mais se esqueceu. Sua boca se abriu, e tudo o que os dois ouviram no silêncio mais profundo da sala de casa foi um “vá, vá com Deus!”

O abraço eternizado no sentimento que ficou com ela e foi com ele durou muito tempo. A porta da sala escancarou-se para passar por ela o homem com mochilas enormes. E ele desceu as escadas para ir.

Um dia um amigo meu me disse uma frase, da qual nunca mais me esquecerei. A frase é de Khalil Gibran, e diz assim: “Vossos filhos não são vossos. São filhos da ânsia da vida por ela mesma.” A vida os espera, não há como proibirmos que vivam.

Ele foi feliz durante muito tempo. Ela o acompanhou pelos meios virtuais de comunicação. Cada foto postada, um lugar diferente. Ele via aventuras, prazer, satisfação, conquista. Ela, só via os perigos: muito alto, muito longe, muito frio, muito quente, muito vazio, muito escuro!...

Quando se comunicavam por telefone ou vídeo, ela percebia as mudanças físicas do sempre-filho-sempre-menino: mais magro, um tanto cabeludo demais, voz diferente. Chorava absurdamente, dormia com o travesseiro molhado de saudade! E, ainda que seu desejo fosse o de reclamar, nas suas orações sempre agradecia a Deus pela vida de seu filho.

De aventura em aventura, descoberta em descoberta, cada dia mais distante, cada lugar menos previsível, um dia sua campainha tocou insistente. E quando virou as chaves ansiosa por saber quem era o inoportuno da meia-noite, percebeu estar diante do seu bebê, ávido pelo seio materno. E era ele, com seus braços estendidos num sorriso triste.

Ele voltou para casa. Está doente.

Enquanto cozinha o almoço e conversa sobre assuntos do cotidiano ela o observa, deitado no sofá. Está fraco. Seu olhar perdido procura a janela da sala – é o lugar onde ele mais gosta de ficar. Dali vê pássaros nos fios e nos postes da rua. Acompanha o ninho, tenta reconhecer, depois, os filhotes que quebraram os ovos. É amante da natureza, hoje a refeição saudável trouxe alegria para dentro de casa.

A mímica dos apresentadores dos telejornais delata a ligação entre mãe e filho. Nada mais há que interesse para aqueles dois, senão jogar conversa fora. Ela prepara o suco, arruma a mesa, põe flores e guardanapos combinando. Ajeita as almofadas para que ele se sinta mais confortável. O conforto lhe diminui as dores. Fazem silêncio, dizem “amém” simultaneamente. A oração, o desejo de cura. Eles se olham, ele elogia a comida. Ela ri.

Eles têm feito isto todos os dias. Vivem o dia, aquele que Deus concede quando lhes apresenta o Sol. Se acordados, vivem. Sem maiores planos para o amanhã.

Às vezes, terminada a refeição, ele adormece. É a hora do plantão dela. Confere-lhe a temperatura, a hora dos remédios, o dia da próxima consulta... E sempre, sempre, ajoelha-se no chão – com seus joelhos abençoados – e pede a Deus que olhe por seu filho. E agradece por cada dia em que ele desperta depois daquele sono que para ela é desespero de um não acordar mais.

Nossos filhos não são nossos. Firme, rocha, mãe, ela cuida dele sem saber por quanto tempo. Espera por sua cura, porque crê. E vive o dia. De nada se arrepende. Sua consciência atrelada ao seu coração lhe guia os passos. Está com seu menino que, apesar de já tão grande, depende de sua vigília, como depois do parto.

Ir ou ficar é uma decisão que independe da gente. Quando se é mãe, já se foi filho. Já quisemos ir, enquanto queriam que ficássemos. Mas se a vida acena com um convite irrecusável, há que se ser MÃE, para permitir que os sonhos se realizem, ainda que isto pressuponha vôos mais altos do que se imagina.

Que Deus olhe por vocês dois, minha amiga. Agora, a decisão de ir ou ficar está nas mãos do Nosso Senhor!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Amor de mãe


(Uma tentativa de descrever meu sentimento por Antônio, como se fosse possível!)


Ele está dormindo, agora. Corpo espalhado na cama, cansaço compensado, vigiado pelos anjinhos que sempre, antes de pegar no sono, pede a Deus que envie para protegê-lo.

Eu o amo.

Indescritível, esse amor de mãe. Ainda que eu registre todas as palavras que o teclado do notebook me permite, jamais conseguiria definir o que é isto que a gente sente por um filho!

Quando abri o resultado do exame, me apaixonei por ele. Aliás, acho que já o amava quando estiquei o braço para a agulhada! Depois, quando a ultrassonografia definiu as treze semanas, sofri por não ter aproveitado melhor o início da gravidez. E pedi perdão a ele pela falta de carinho, por deitar de bruços na praia...

Amo Antônio! Desde que descobri que ele estava em mim. Já sabia ser um menino, já conseguia vê-lo, tal como nasceu: branquinho, de olhos e cabelos escuros. Já previa-lhe o nome, que significa “inestimável”!

Hoje tenho em casa um menino de sete anos. Tenho um amigo, um parceiro. Dessa nossa convivência – nada fácil para uma mulher que vivia sozinha e que foi mãe aos trinta e sete anos! – surgiu um compromisso: somos a nossa família. Ele, extremamente responsável por mim, arriscaria dizer até que mais do que eu por ele...

Sua dor é minha. Graças a Deus, quase nunca adoece. Mas, se o percebo prostrado, quieto, sinto o coração atravessado por uma espada. Meu menino não é de tristezas, a não ser que o “homem das águas não consiga eliminar as forças do mal que atacam os dinossauros aquáticos”, ou qualquer outra coisa parecida. E, se o rosto manifesta seriedade, fico inquieta, angustiada por saber o que tem. Uma “barriguinha” doendo, um corte no joelho, umas bolotinhas espalhadas pelo corpo depois da picada de um inseto e, pronto, eis uma Karla acabada: não sou nada sem Antônio!

Como descrever um sentimento como este? Há sete anos minha vida transcorria daquela forma que eu julgava normal. Tudo em ordem em casa. Rotina decorada, inalterável.  E, repentinamente, Deus me envia um garotinho que põe por terra tudo o que eu julgava dominar.

Filhos desordenam a vida da gente. Nada na minha casa (na minha vida!) ficou no lugar, desde que ele nasceu. Pouquíssimas regras puderam ser mantidas. E percebi que teria que conviver com mais alguém em casa. E tudo o que, a princípio me causou estranheza, dúvida, medo, passou a ser razão de alegria e orgulho. Durante esses sete anos fomos/estamos aprendendo a lidar um com o outro, e é impressionante como o amor só aumenta. Agora mesmo, olhando para ele dormindo na cama, sinto que meu amor é maior do que o de ontem, quando lhe desejei “boa noite”.

Hoje é domingo, temos o dia pela frente. Respeito-lhe o sono. Daqui a pouco ele acordará. Às vezes vem devagar, silenciosamente, e me surpreende com um abraço. Cai na gargalhada quando eu me assusto. Aí a gente se abraça e eu sempre sou a última a me desprender...

Graças a Deus tive Antônio aos trinta e sete anos! Até que ele cresça e resolva trocar os meus braços por outros, já estarei bem mais velha. Sim, bem mais velha, porque mãe eterniza o tempo, não acreditaria se alguém me dissesse agora que “passa rápido demais!” Eu já contei do meu desejo de apertar a tecla pause do tempo, não contei?

Meu coração sabe-lhe as dores, as preocupações, os temores, as alegrias, as tristezas, as emoções. Como ele mesmo diz, eu sei de todas as coisas. Não sei como isto acontece, mas sei. E venho percebendo que ele também sabe das minhas. Pergunta-me se estou bem, exatamente naqueles dias em que não estou. Há uns meses me viu chorar. Eu estava debruçada na janela do banheiro, imaginei-me escondida... Que nada! Lá estava Antônio, com as mãos estendidas secando minhas lágrimas e me perguntando o que estava acontecendo. Até hoje ele se lembra disto. Seu coraçãozinho não se esqueceu. Acho que descobriu que mães sofrem, também.

Eu sou força, para ele. Quase a Mulher Maravilha! Faço o serviço de casa, o levo para a escola, vou buscá-lo, trabalho fora, pago as contas, apago as luzes, controlo o tempo no chuveiro, preparo-lhe o almoço preferido, o suco mais gostoso, o lanche predileto. No final, quando o dia termina, é nos meus braços que ele adormece. Eu lhe digo “durma com Deus” e ele me responde “dorme com Deus você também”. Nada mais é necessário. Muitas vezes choro quietinha, depois que ele me diz isso. Sinto Deus me abençoando, é muita emoção.

Em 1º de fevereiro de 2006 conheci o amor de verdade. Neste dia entendi meus pais. Quando Antônio reage às minhas posturas de “mãe brava”, vejo que estou no caminho certo. Porque mãe sempre duvida, sempre se culpa e, mesmo que erre, eu creio, erra tentando acertar. Então, quando o vejo fazer bico, cara de zangado quando lhe nego algum pedido, lembro-me imediatamente dos meus pais. Agora sei. Agora entendo tudo. E perdoo, na mesma medida em que peço perdão.

Tem um menino dormindo na minha cama, ainda. Espalhado, braços e pernas abertos, toma todo o espaço. E ainda nem cresceu o tanto que seu corpo promete! Meu menino anda às voltas de um dentinho mole, que indica uma nova janelinha. E voltamos àquela conferência diária, para ver quando isto se dará. Fica apreensivo, porque eu estou apreensiva. Coisas de mãe! Estamos esperando a visita da Fada dos Dentes...

De janelinha em janelinha vai vivendo, crescendo, tecendo a vida que é dele. Já toma algumas decisões sozinho. Já está mais independente. Eu, de minha parte, sigo ao lado (à frente, atrás, em cima, embaixo...) aparando arestas, apontando-lhe os perigos que o esperam lá na frente, acreditando que posso evitar que sofra. Na verdade, revelando um segredo agora, eu quero mesmo é que esses tais perigos já não existam mais quando Antônio crescer.

De janelinha em janelinha vou eu vivendo, envelhecendo, dando-lhe passagem para a vida. Conheço os “lá na frente” todos, e tento sinalizar-lhe os cuidados. Minha vida vai passando, vou me despedindo, e nem ligo, porque meu amor de mãe me preenche de tal forma que de nada mais preciso.

Eu queria ter descrito aqui, nestas linhas, o que é, ou como é o amor de mãe. Olhando para os parágrafos acima, vejo que não consegui. Mas o texto está pronto, e é o registro de tudo o que somos um para o outro. Cada um ama de um jeito, cada um retribui o amor que recebe de um jeito. Vivo minha vida assim, com Antônio. E sou infinitamente grata a Deus pelo presente que recebi quando aquela folha de papel do laboratório se abriu em minhas mãos e me assustou com o salto da palavra POSITIVO. Minha vida estava só começando, ali, e eu nem sabia! Obrigada, Senhor!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Referências

(Dos meus 29 anos de Magistério, só tenho motivo de orgulho: 16 deles dediquei à tarefa de lecionar e os outros 13 dignifico na função "ápice" de Inspetor Escolar. O orgulho vem das minhas referências...)

Quando amanhecer o dia de amanhã, sairei de casa para trabalhar, depois de algum tempo – a gente sempre acha que é pouco – de descanso. Na pasta, um caderno novo, e dois papeizinhos velhos...

São os da foto, aí em cima. Não os deixo, não me livro deles. São a minha referência desde 2000, quando iniciei  minha vida profissional de Inspetor Escolar.

O que está embaixo é um controle de correção de um Diário de Classe. A rubrica, no canto inferior da folha, revela uma das minhas “professoras do ofício”, Cláudia Lacerda. Quem trabalha, ou já trabalhou com ela, reconhecerá a minha verdade.

No papel de cima, a condução reta de outra professora inesquecível: Nilza Alberto. Trata-se de um rascunho (ela chamará de rascunho o que chamo de instrumento eterno de trabalho!) onde ela anotou, enquanto me explicava cuidadosa e pacientemente, o que fazer na escola. Note que o registro inicia com os dados de 1999...

Quem me conhece sabe que eu chamo carinhosamente a Inspeção Escolar de “Ápice”. Uma brincadeira gostosa, que acabou pegando entre o grupo de amigos que tenho. Mas, sinceramente, vim aqui para confessar que não digo isto brincando. Eu tenho história pra contar!

Vim de São Gonçalo, e na maioria da Rede Municipal da Região Metropolitana esta função não existe. Vim de lá, portanto, sem saber o que fazer. E tudo o que encontrei foram flores, muitas flores!

Grande parte da história de minha chegada às Secretarias de Educação eu já contei, em textos que estão soltos por aqui pelo blog. Na verdade, sendo este meu espaço um diário onde confesso a vida que levo, é comum encontrar meus registros de agradecimento a toda gente que me compõe.

Mas hoje meu objetivo é encher corações-ápices de alegria e tentar animá-los para o ano letivo que se iniciará quando amanhecer o dia de amanhã.

De posse da minha pasta e dos meus papeizinhos velhos sairei de casa. Não vou só. Vou com Nilza, com Cláudia, com Herminia, com Madalena. Vou com todas as pessoas que encontrei à porta das escolas quando cheguei para me apresentar. Vou com as Diretoras, as Secretárias. Vou com Marinez, com Albertina, com Christian, com Aninha, com Claudinéia. Vou com Clarice, com Rosinha, com Bruno. Todo mundo faz parte de mim quando digo o meu “bom dia!”. Fui evoluindo, aprendendo e, até, ensinando. Caminhando, me compus de Cleide, de Guiomar, de Marli, de Ziza, de Malu, de Vera... Conheci outros sistemas e muitas Tanias, Márcias, Ivanildes, Mercedes, Nicias, Elanes, Renatas, Shirleys, Flávias, Aldas me emendaram todas as vezes em que me rasguei.

Ouvindo experiências me tornei Marlenes, Elianes... Estendendo a mão, recebi as mãos erguidas quando mais precisei. E preenchi-me de Fernandas... Olhei em volta, acolhi, e cerquei-me de Assianys, Giseles, Annas, Tiagos, Lillians, Lucianes, Luanas...

É tudo flor, por aqui. E por tudo isto, por este jardim, agradeço a Deus.

O ano de 2013 bate à porta, abre as janelas. Os dias ensolarados nos revelam que Deus nos abençoa. As secretarias das escolas aguardam ansiosas pelo Inspetor Escolar que atuará nelas. E, construída de minhas referências, ocuparei meu espaço, ajeitando a cadeira, organizando a mesa para trabalhar. E serei a escola, numa atitude abrangente, que transcende a função de “mero vistador de papéis”, como já ouvi de uns pobres por aí...

Eu sou mais, sou muito mais do que isto. Sou Inspetor Escolar. Na amplitude do exercício, respondo pela verdade e assumo a responsabilidade pela fluidez do aluno na escola pública, com o mesmo compromisso com que garanto a segurança do menino que, por opção dos pais, estuda na escola particular. Eu sou o Sistema Municipal de Educação, e estou lá para defender o meu colega, meu parceiro Professor. E, para além disto, para ser feliz no espaço onde passo a maior parte do meu dia.

Meu trabalho me dignifica. Depois que o dia termina, volto para casa cansada – muitas vezes mais mentalmente do que fisicamente – e descanso no abraço de Antônio. Meu filho não tem de mim o tempo que a escola pública hoje tem. E é preciso que eu pense nisto diariamente, para poder fazer valer o tempo que passo ao lado do meu menino, que agora já me apresenta sete anos vividos.

Mas se a gente passa mais tempo dentro da escola do que de nossa própria casa, é obrigação fazer o que tem que ser feito da melhor maneira possível. Portanto, o abraço em Antônio tem que ser o mais gostoso, tanto quanto a minha estada na escola tem que ser cada dia mais proveitosa, mais respeitada, mais convincente.

Graças a Deus, tive minhas referências. Graças a Deus, tornei-me, sei, referência para alguns recém-chegados, também. E graças a Deus tenho humildade em aprender com aquele que recebo, tenha ele experiência na função, ou não. Porque sei que ensinei, também, quando cheguei. Isto, verdadeiramente, é ser o ápice. Que bom que sou Inspetor!

domingo, 27 de janeiro de 2013

A velha amendoeira

(A minha última visita aos meus pais, na casa onde morei na juventude, ficou incompleta: a velha amendoeira não existe mais. Como não sei ver nada sem meus olhos de poeta, restou-me escrever a saudade.)


Ela já estava lá, quando fomos para a casa nova. Não sei, portanto, quantos anos tinha. Mas, pela grossura do tronco, imagino que muitos!

Sua altura era maior que a da casa, que tem dois pavimentos. E isto não a afligia. Soberana, sua presença garantia sombra fresquinha no quintal da minha irmã, que mora na parte de cima, e em toda a extensão do quintal da minha mãe, na casa de baixo.

Ainda lembro que, das últimas vezes em que estive por lá, encontrei as crianças na piscina, felizes, felizes. O calor imenso que fazia nem lhes chegava perto, tão próximas que ficavam dos galhos de folhas verdes que, de tão grandes, chegavam a lhes tocar. Minha imaginação de poeta via a velha amendoeira brincando com os meninos. Na verdade, para mim, ela tomava conta deles nas horas em que nos distanciávamos. Mas disto só eu sei. Eu e as minhas caraminholas...

Para quem é poeta – refiro-me a quem vê a vida com poesia – a morte de uma amendoeira não é só o fim de uma árvore. É muito, muito mais do que isto. São incontáveis os sonhos que se vão, quando se derruba galhos daquele ser vivo que se tomba ao chão. Shakespeare já gritara sua poesia em “Sonhos de uma noite de verão”. Mas alguém ficou sem ouvir e, então, não passou o recado adiante e, então, alguém não percebe que há vida numa velha amendoeira.

Ela cresceu demais, mas não foi sua culpa. Foi plantada ali, certamente não fora aquele o lugar de seu nascimento... Mas cresceu, feliz que era! Assim que nos mudamos pra lá, era a solução para muitos dos problemas da vizinhança toda: sombra para estacionar os carros de quem não tinha garagem ou árvores em sua calçada, lugar de reunião das crianças para uma brincadeira protegida do sol, ponto de encontro dos namorados à noitinha, local para a sesta dos caminhoneiros após o almoço da marmita, ou de uma paradinha para o descanso daqueles que vinham do supermercado com sacolas pesadas...

Mas o tempo foi passando e, enquanto ela crescia – talvez com a pretensão de poder ajudar a mais gente – as consequências de sua “felicidade” começaram a incomodar: seus galhos atingiram fios de alta tensão, suas raízes invadiram e quebraram as calçadas chegando mesmo a penetrar nas cisternas que ficavam próximas.

Então, a decisão tomada pelos homens de coração frio foi a de retirá-la de lá.

Durou pouco tempo a operação. Num dia, eu estive lá e a vi sem seus galhos mais altos. No outro, deparei-me, já, com a cena da foto.

Ninguém reparou que os amanheceres e entardeceres ficaram diferentes depois que ela se foi. Só eu. Porque eu penso que árvores ajudam a compor amanheceres e entardeceres, e se não há delas por perto, tudo fica muito diferente.

Eu sofri pelos passarinhos que anunciavam o dia. Certamente, uma amendoeira daquele tamanho abrigava mais que uma família de pássaros, com seus ninhos abarrotados de ovinhos, garantindo a espécie, garantindo o futuro, garantindo um nascer do sol mais bonito. Sofri porque sei que lá havia também muitos morcegos, e agora não há mais aquele bailar de fim de tarde, anunciando que o dia chegara ao fim. Aquele arrepio de medo que sentíamos quando ficávamos no quintal à tardinha, temendo que um deles chegasse perto de nós, nunca mais. Nunca mais, também, mostrar às crianças a posição engraçada como os morcegos dormem...

A família de calangos que se mudou para a velha amendoeira quando meu pai resolveu construir a oficina mecânica justamente onde moravam os bichinhos, também desapareceu, quando a árvore veio ao chão. Não viram para onde foram. Perguntei, mas ninguém soube me responder. E eu, louca, sofrida, rezo a Deus para que os tenha mantido juntos, pai, mãe e filhotes calanguinhos.

Existe um mundo que não conhecemos e, no entanto, decidimos dominar, que é o mundo dos outros seres tão vivos como nós. Tudo tem que perecer, para que nós, humanos, vivamos. Ninguém se dá ao trabalho de pensar nas consequências dos seus atos, porque só se pensa no “agora”, no imediato. Plantaram a amendoeira lá, porque precisavam dela naquele momento. E ninguém hesitou em arrancá-la de lá – sua vida e as tantas outras vidas que abrigava! – diante do primeiro sinal de necessidade.

Qualquer um que olhe a foto vê o que sobrou da velha árvore: um toco, um lixo. Eu vejo dor. É possível, aprimorando o olhar, que eu veja lágrimas. Não estava chovendo no dia que fotografei. Como explicar o líquido?

Talvez algum leitor conhecedor da química, da física, das ciências tenha uma explicação lógica para a foto da velha amendoeira. Eu respeito tudo o que me disserem: pra mim, é lágrima.

Voltei para casa com saudades dela. As crianças passaram dias na piscina debaixo de um sol quente que lhes custou camadas e mais camadas de filtro solar. Não tivemos mais a certeza do sol do dia seguinte, porque não havia mais cigarras cantando a previsão do tempo. Farelos de ninho espalhados pelo chão são cena que do meu pensamento e do meu coração ainda não saíram. Penso nos filhotinhos... Não presenciei mais sesta alguma, tampouco juras de amor. Os carros esquentavam nas garagens descobertas. E daqui a alguns dias, alguém fará um buraco em frente a sua casa, e plantará uma amendoeira que, sem saber-se descartável, abrigará nova fauna e protegerá novas crianças.

É a vida. O único ser vivo a quem Deus deu inteligência foi o homem. Resta-me chorar de saudades. E guardar a foto da morte, triste por não ter tido a ideia de fotografar a velha amendoeira enquanto ainda esteve viva.