domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um rastro de sonhos


Amanhã será o seu primeiro dia de aula. Ora, por que será que quando ouvimos a expressão “primeiro dia de aula” nos remetemos somente aos alunos? Absolutamente! Se você entende que a aprendizagem acontece em todas as vias de comunicação, amanhã será, sim, o seu primeiro dia de aula.

Antes de ir dormir, escolha sua melhor roupa. Verifique se seus sapatos estão limpos. Acerte o despertador, de modo que ele lhe acorde num horário adequado, não se esqueça de que você tem coisas importantes a fazer: precisa barbear-se, precisa passar a camisa, precisa tomar um bom banho frio – se possível demorado! – para “acordar” seu corpo. Precisa sair cedo de casa, abastecer o carro, verificar os pneus, água e óleo, precisa chegar à escola cedo, conhecer seus novos colegas de trabalho, abraçar os antigos. Você precisa estar lá, porque seu aluno vai chegar!

Na sua sala de aula, depois do sinal vibrante tocar, estarão trinta e cinco alunos. Trinta e cinco ansiedades que, somadas à sua, darão conta de trinta e seis corações batendo descompassados... Quer uma sugestão? Antes de adentrar aquele espaço sagrado – sim, ainda estou falando da sala de aula – faça uma breve e íntima oração. Peça ao Deus que é seu, que lhe atende nos momentos mais particulares, para entrar com você, para ficar ao seu lado, para segurar-lhe a mão.

O primeiro dia de aula não é só seu: aquele professor da sala ao lado, aquele mesmo, o que está prestes a aposentar-se, estará, assim como você, estreando, também.

Será o primeiro dia de aula, também, para aquele menino que, no ano passado, foi suspenso tantas vezes! Aquele que pulou os muros da escola tentando fugir, aquele que agrediu a cozinheira, que arranhou seu carro, embora você nem tenha sido seu professor, à época.

Amanhã será o primeiro dia de aula para todos, na escola.

Bem, o domingo está lindo – prometendo! – e no meu coração, uma preocupação, uma ansiedade (pode contar o descompasso do meu coração, também), um desejo de dizer a você, professor, de um caminho que se faz, quando se ensina. Meu caminho, já o faço há trinta anos. E, no entanto, quase sempre penso que estou diante do primeiro dia de aula...

Um conselho? A cada passo que der, olhe para trás. Porque o que fica dessa nossa profissão abençoada, é um rastro de sonhos, que vão nos dizendo se valeu a pena ou não. De posse da avaliação que fazemos do rastro que deixamos, podemos – devemos! – mudar os passos, tomar novos rumos. Porque, se olharmos atentos para o rastro que deixamos, é-nos possível saber se será seguro continuar a caminhada de onde paramos.

Os sonhos ficam, luzindo, marcando os passos que demos... Sonhos nossos, sonhos dos nossos colegas de profissão, sonhos dos nossos meninos e meninas. Sua responsabilidade, professor, é acender mais e mais, a cada passo, os sonhos do seu rastro.

Seus alunos chegarão à escola sem saber lhe dizer por que lá estão. Mas, se você não perguntar, jamais descobrirá. Pergunte. Você verá que uns estão na escola porque seus pais lhe obrigam. Muitos pais obrigam seus filhos a estarem na escola não pelo valor que dão ao diploma, mas pelas infinitas “bolsas” que recebem por manter a frequência deles por lá. Verá que alguns estão na escola porque não querem estar em casa: fogem do serviço doméstico, ou de um trabalho mais pesado. Verá que uns poucos estão na escola por opção própria, por acreditar que somente através da escola poderão “ser alguém na vida”. E verá também, professor, quantos deles se refugiam na escola do inferno de suas vidas.

Amanhã será o primeiro dia de aula: seu primeiro passo na estrada. Quando o dia acabar, quando o sinal vibrar lhe avisando que já pode retornar a casa, seus passos de volta ao lar deixarão no chão da vida seus primeiros rastros. Posso dizer a você, professor, que essa marca é a mais importante de todas, porque tudo se define nos primeiros passos. Portanto, esteja atento, não aos conteúdos, aos pré-requisitos, ao conhecimento que seu aluno trouxe consigo da série anterior. Esteja atento aos olhares...

Nos olhos de seus alunos estará a “chave” para um bom ano letivo: saiba ver, olhe com intencionalidade. Saiba tocar-lhes o coração, afeto é tudo! Permita-se ser tocado pela magia da emoção, também. Ali não estará o problema, estará a solução. Apresente-se limpo, disposto, com aquela camisa bonita e bem passada, com a barba feita, com os cabelos cortados. Mostre a eles que você se preparou, que se perfumou para eles, que valoriza o momento em que passa ao lado deles. Seja firme nas atitudes, não permita o que você não suportará mais tarde, fale em voz baixa, imponha limites, estabeleça “combinados” com a turma, use um vocabulário correto, evite gírias, preste atenção no uso correto da nossa língua portuguesa, os meninos não sabem falar, não aprenderam a falar, a mídia não ensina, os “funks” e demais músicas ouvidas por eles não colaboram, também. Mas você é a escola, e é lá que se ensina.

Valorize-se. Encante. Não há quem resista ao encanto de um professor!

E impregnado da magia de ser professor (um professor abençoado) faça o seu melhor, ciente a todo tempo de que para além de alunos, diante de você há seres humanos, há gente, há histórias, há vidas! Ciente de que seu rastro você não marca sozinho: todos os meninos e meninas que conviverem com você marcarão sua passagem pela sua estrada. Ciente de que trinta e cinco corações descompassados esperam tudo de você, e eles nem sabem ainda, posto que são tão jovens!

Nós somos os adultos. Sabemos o que há lá na frente. Você sabe exatamente o que, lá na frente, espera um menino que vive “causando problemas” na escola. Sabe o que espera aquela menina com aquele determinado comportamento à frente de sua geração. E sabe que não é nada bom...

Amanhã, professor, sua presença na sala de aula poderá mudar destinos. Pode ser até que o dia de amanhã seja suficiente para que suas palavras mudem destinos. Só depende de você.

Eu não sei qual a oração que você fará no portal da sala. Não sei qual é o seu Deus, tampouco se você acredita em um. Não sei qual é a sua crença, mas desde já tomo a liberdade de pedir, em oração, por você.

Abençoados sejam todos os professores pela escolha da profissão. Que sejam iluminados e conduzidos pelo bem, e que possam deixar, ao longo deste ano letivo de 2014, um rastro de sonhos realizados pelo caminho.


Que Deus abençoe o seu primeiro dia de aula, todos os dias, professor. Amém.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Ser aluno é obrigação. Ser Professor, opção.


Ao aluno está proibido não sê-lo: estar na escola é obrigatório.

Aos professores está permitido não sê-lo: podem deixar o cargo, se isto lhes traz desconforto.

Não, não quero ser inconveniente. Estou apenas tentando salvar almas – as menores, as mais novas, as inocentes – e, com isto, ajudar àquele que não está feliz em sua profissão a repensar a sua vida...

Quem terá sido a primeira pessoa a levantar a defesa de que “as famílias estão muito diferentes, e os pais não educam mais seus filhos”? Quem terá sido o inventor da frase tão exaustivamente circulada nas redes sociais que afirma que “escola ensina, pais educam”?

E daí?

Qual é o argumento do Professor, diante do mau resultado de sua turma? A resposta, eu mesma dou, sem pestanejar. E ela aparece em mais de uma opção:

1) A família não ajuda.
2) É uma turma indisciplinada.
3) A turma não quis nada o ano inteiro.
4) Os alunos não têm educação.
5) Os alunos já chegaram sem saber os conteúdos.

É tudo tão previsível, infelizmente. Aos vinte e nove anos de magistério, nada há que me surpreenda. As frases são repetidas incansavelmente por um e por outro Professor, enquanto os demais balançam a cabeça, afirmativamente.

Nos corpos, o cansaço aparente: Professores chegam às reuniões de Conselho de Classe exaustos, vencidos. Expressão de alegria no rosto só é possível ver-se quando o assunto é férias. Trazem seus cadernos, seus Diários de Classe, suas bolsas, pastas cheias das provas e testes dos alunos. Há os que se submetem a corrigir aquele material durante a própria reunião. Atrasam-se, “cantam” nomes equivocados, trocam sobrenomes, perdem-se. Conversam entre si, ou afastam-se, procurando uma maneira de isolarem-se para fechar as notas finais. Balançam as pernas, batem com as canetas nas mesas, riem-se sozinhos, transpiram. O corpo fala que não quer mais aquilo. Os Professores desobedecem, em nome de um mês que vem pela frente para descansar: janeiro.

Muitas vezes o corpo do menino fala, também. Quer sair dali, parar de ouvir aquilo tudo, sumir. Quer sair da escola, daquela escola chata, daquele sermão, daqueles castigos que não acabam, daquelas cópias de textos de livros na sala da coordenação. Mas ao menino é dada a ordem, e ela é constitucional: “Você TEM que estar na escola”!

Muitas vezes o corpo do Professor fala. Quer sair dali, parar de ouvir aquilo tudo, aquelas vozes, aquele arrastar de cadeiras e mesas, aqueles toques de celular, aqueles funks. Quer sumir. Quer sair da escola, daquela escola chata, daquele sermão da supervisora, ou da diretora. No entanto, não há Constituição que lhe obrigue a ficar. Não há papel que lhe diga: “Você TEM que estar na escola”! Por que estão?

Andam se arrastando pelos corredores da escola. Blasfemam, contam os dias para a aposentadoria, apresentam atestados médicos regularmente. Quando chegam ao extremo agridem seus alunos verbalmente e fisicamente.  Dão aulas monótonas e descontextualizadas. Repetem as aulas quando trabalham com um mesmo ano de escolaridade. Desprezam diferenças individuais. Escrevem mal, falam mal, cometem verdadeiros abusos no uso da Língua Portuguesa. Não sabem se comunicar, perdem-se entre linguagem culta e coloquial. Não convencem, definitivamente, e acho que nem a si mesmos.

Enganam-se. E eu fico aqui pensando na infelicidade de se viver uma vida assim: contando horas para que um sinal toque, para que se recomece a contagem, para que se saia de uma sala de aula para outra, de uma escola para outra, de um turno para outro, de um dia para outro, de uma semana para outra, da vida para a morte, como se não se percebesse que, enquanto o horror acontece, nossos dias se vão, e eles não voltam!

Desculpem-me pelo desabafo, mas o recado vai para quem precisa recebê-lo.

As crianças não andam recebendo a educação que seu tataravô deu ao seu trisavô, e isto é uma verdade. Porque não atravessamos o mesmo rio duas vezes. As crianças estão violentas na escola, estão xingando seus colegas e Professores. As crianças estão crescendo e se tornando adolescentes intoleráveis.  E tudo isso virou modelo pronto de argumento para defesa do Professor, junto aos Conselhos de Classe.

As crianças e os jovens (até seus 17 anos) são alunos por obrigação. Você é Professor por opção.

Sonhar com salários melhores só é possível se se faz um trabalho que o justifique ao final do mês. Não consegui ainda, infelizmente, perceber eficácia no trabalho de certo tipo de Professores depois de aumentos salariais concedidos.

A opção pelo magistério é pessoal. Como todas as outras profissões, deve ser por se perceber um dom, e este dom é o de ensinar. É o dom de fazer o seu melhor trabalho, sobretudo em prol daquele aluno mais difícil, mais carente.

Se não foram envidados todos os esforços para que a aprendizagem acontecesse nas suas aulas, você não é um bom Professor. Se diante do primeiro confronto com seu aluno você o excluiu do grupo, você não é um bom Professor. Se você segue adiante com seus conteúdos, sem se preocupar em avaliar se houve compreensão por parte da turma, você não é um bom Professor. Se você não olha nos olhos de seu aluno quando fala com ele, você não é um bom Professor. Se você não se alegra com as conquistas dos alunos que têm maior dificuldade, se você não se entristece com notas baixas na turma, você não é um bom Professor. Se você acha que o aluno está reprovado porque “a família...”, você não é um bom Professor. Se você não ama o que faz, se você é triste, se conta as horas para a sua própria aula chegar ao fim, você não é um bom Professor. Se você procura motivos para retirar de si a responsabilidade por médias baixíssimas e reprovações de alunos, você não é um bom Professor. Se você não tem cuidados ao escrever, não corrige erros, não tenta minimizá-los, não estuda, não se aperfeiçoa, você não é um bom Professor.

E, se é assim, você está na profissão errada.

Era isto, o que eu queria escrever. Queria lembrar que Professores que são infelizes fazendo o que fazem, têm liberdade para tentar outro emprego. Já os nossos meninos e meninas estão condenados a ficarem na escola por mais de dez anos, por obrigação, sendo – cada vez mais – vítimas daquele que escolheu no dia errado e na hora errada, a profissão errada, também.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A vida que a gente leva


São vinte e quatro as horas que ganhamos para viver o dia. O que fazemos com elas é de nossa total responsabilidade. A cada amanhecer, novas vinte e quatro horas nos esperam. Depois ganhamos outras e outras, e são tantas, sucessivas, que às vezes acreditamos que não tem fim a vida que a gente leva.

Mas tem.

Viver é tomar sustos, sigo eu filosofando, após algumas conclusões...

Meu pai está com setenta e nove anos. Aquele mecânico, que chegara aos setenta e um anos de idade consertando tudo o que havia no meu bilhetinho preso ao ímã da geladeira daqui de casa já recebeu, depois disso, muitas vinte e quatro horas. Hoje já não faz mais tudo o que preciso, então, respeitando seus limites, tento diminuir a lista, propondo-lhe coisas mais fáceis, para que ele se sinta orgulhoso por continuar a resolver os meus problemas.

Hoje o guarda-chuva de Antônio quebrou – foi o primeiro dia que ele usou o guarda-chuva – e, prontamente, meu filho me pediu que guardasse o objeto para que o vovô consertasse. Antônio, certamente, tem lá a lista dele, também, de problemas para o vovô resolver.

Há uns dois anos meu pai reclama de dor nas pernas. Uma sensação de cansaço, que julgávamos ser falta de circulação sanguínea. Fomos a médicos, fizemos exames, mas nada ficou diagnosticado. Fugiu de fisioterapia, negou hidroginástica, recusou-se a caminhar.

Na minha adolescência, meu pai me mandava caminhar pela casa com livros na cabeça. Ele queria corrigir minha postura. Naquele tempo ele era mais alto que eu. Um magrinho de belo porte, com seus ombros esticados. Hoje Sr. Walter é bem mais baixo, e anda muito, muito encolhidinho...

Minha presença por aqui hoje tem um objetivo: chorar a vida que se leva. Porque vivo lá, dentro das escolas, rodeada do que será o futuro, mas bastante temerosa do que teremos lá na frente. Não sei se a vida que se leva hoje nos prepara para a hora em que o corpo resolve se curvar.

Não, não há mais lista alguma na geladeira. Ontem eu retirei a pequena lista de lá, depois que falei com minha irmã ao telefone.

Por aqui pelo blog estou sempre escrevendo sobre papai. Na primeira história, “Meu pai que a escola excluiu” (http://kentrenostodos.blogspot.com.br/2011/12/meu-pai-que-escola-excluiu-texto-de.html) eu revelei o paradoxo entre a sua inteligência e a imperceptibilidade da escola. Na segunda, contada no texto “Lágrimas de diamantes” (http://kentrenostodos.blogspot.com.br/2012/12/lagrimas-de-diamantes.html), eu compartilhei com vocês a emoção que senti ao ver meu pai chorar.

Meu pai andou chorando nesses últimos dias, e não foi pouco. Uma tristeza profunda que, meu coração me diz, advém do fato de ver-se limitado nas condições físicas de realizar “aquilo tudo” de que sempre foi capaz.

Procuramos um médico neurologista que o avaliasse, e ontem minha irmã me falou ao telefone que, pela entrevista e pelo que o médico pôde observar e concluir, muito provavelmente ele já tenha sido vítima de um acidente vascular cerebral.

Nenhum bilhete na geladeira. O mundo deu algumas voltas ao meu redor. O chão me faltou por alguns segundos. Mas estou de volta. E preciso escrever sobre a vida que se leva, porque é esta a minha intenção.

Se aconteceu o AVC, não percebemos. Nenhuma dormência, nenhum desmaio, nenhuma queda de pressão, nenhum esquecimento, nenhuma dificuldade para falar, nada aparente, nada sofrido. Se aconteceu o AVC, foi durante a vida que se leva.

Estou dentro das escolas, teimosa que sou, acreditando poder fazer alguma coisa pelos meninos e meninas que estão na escola pública. Estou falando, escrevendo, gritando, chorando (ainda, graças a Deus!). Estou vivendo a vida. Sou a Karla Pontes nas escolas, nas reuniões de equipe de trabalho. Ultimamente, tenho sido a Karla Pontes administradora da página “K entre nós”. Em casa, sou mãe (porque mãe não tem nome, não é? O nome de mãe é mãe). Mãe do Antônio. Mãe, mãe, mãe, sem lembrar-me muito de mim. Lá em São Gonçalo, sou Karla filha. Eis a vida que levo.

Um AVC mais contundente – seria a melhor palavra? – e já não teria por aqui o velho Walter. E quando, isto? Quando fosse à padaria, comprar pães? Quando fosse ao Banco, receber sua cruel aposentadoria? No banho, sob o chuveiro? Assistindo à TV, nas horas daqueles jogos de campeonatos de décadas passadas? Dormindo? Sentado à mesa para mais uma refeição? Varrendo o quintal? Alimentando os cães e gatos de estimação? Lavando o carro? Eis a vida que meu pai leva.

Meu pai leva essa vida quando os seus olhos enrugados acordam para as vinte e quatro horas que lhe são concedidas. Assim como nós: como eu, como cada um de vocês. Pretendemos as vinte e quatro horas, mas não sabemos se um AVC – ou um assaltante, ou um aborrecimento com o patrão, ou uma queda, ou uma bala perdida – vai interromper essa contagem.

Eu agradeço a Deus, ainda que não saiba o que de fato aconteceu. Agradeço, porque hoje ele esteve do outro lado da linha telefônica me dizendo “alô” quando eu liguei pra casa. E, diante do futuro incerto que a escola oferece aos seus alunos, apesar de estarmos no século XXI, choro. Porque pode ser que daqui a alguns anos Antônio resolva escrever sobre a minha história, e pode ser que não haja boas notícias no final dela. Pode ser que ele chore minha ausência por causa de um AVC ocorrido durante um Conselho de Classe.

Nada muda. E esta é uma triste realidade.

Diante da estaticidade da escola, as doenças avançam, superam-se e levam nossos pais.  Sr. Walter está lá, em São Gonçalo, graças a Deus, mas não mais inteiro. Porque, uma vez limitado, sem condições de trocar o pneu do carro, julga-se metade de homem. Seu velho corpo já não mais lhe obedece. Pensa em caminhar na direção da direita, o cérebro inverte os comandos, caminha para a esquerda. Pedi a minha irmã para deixá-lo vir para Iguaba, para que eu pudesse acompanhá-lo, mas é impossível permitir que venha sozinho. E foi o que sempre fez.

Em algumas lojas, já não se vende “à prestação” para pessoas da idade dele. Meu pai nunca atrasou uma conta, sequer. Sempre prezou pelo “nome limpo na praça”. E essa vida que a gente leva, insiste em levar dentro das escolas, deturpando valores, reprovando por preconceito, priorizando detalhes irrelevantes, deixa do lado de fora muitas outras vidas, também.

Vontade, uma só: ir-me embora daqui. Voltar para junto deles, prolongar o convívio de Antônio com aquela sabedoria toda que está a cento e vinte quilômetros de distância. Mas a vida que eu levo não me permite fazê-lo. Faltou-me pensar nisto anos atrás.


Por isso, por tudo isso, deixo aqui mais uma história de família. Talvez alguém que esteja lendo este meu desabafo vá pensar mais adiante, vá modificar sua vida, vá aproveitar melhor as vinte e quatro horas. Vá olhar pra trás, vá olhar pra frente, vá desfazer, vá refazer. Importa que seja logo. Porque não sabemos, verdadeiramente, quantas vinte e quatro horas teremos para viver ao lado de quem a gente ama.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dolores


Fechou os olhos.

Descansou.

A pilha fraca, relutante, cedeu à vontade do tempo, do Livro de Deus: hoje dissemos adeus à Dolores.

Ficou Giovanna. Semente em crescimento, jóia em formação.

Giovanna ficou. Quietinha, meio sem entender o que acontecia, mas segura: no ventre da mãe, aguarda a hora para conhecer o mundo. Ainda falta um pouco, Giovanna só chegará em fevereiro. Mas, assim como sua avó, cede à vontade do Pai. E enquanto brinca conhecendo seu universo – que agora é aquele misto de si mesma e de sua mãe – ensaia o que será na vida de Anna Paula...

Foi só o abraço. Só pelo abraço estive com Anna Paula, hoje. Nada a dizer. Não há o que se diga nessa hora. Perguntei-lhe apenas se estava cuidando de Giovanna. Anna Paula me respondeu: “Ela está cuidando de mim”.

Pronto! Deus realizou Sua obra. Tão simples para Ele – o dono da Vida! – tão difícil para entendermos!...

Desde que a notícia me chegou via internet, um único pensamento: agradecer e louvar a Deus pelo ciclo planejado e desenhado. Para quem conhece Anna Paula, sabe que Dolores hoje descansa em paz, embora leve consigo uma vontadezinha de ter nos braços a Giovanna. Dolores virou estrela, verá do céu a doce menina nascer e crescer, surpreendendo a todos com a rapidez como as crianças hoje em dia se desenvolvem.

Anna Paula está pronta, embora hoje talvez se julgue ser nada. Nunca mais a mesma, decerto, mas pronta para ser a Dolores para a Anna Paulinha que vem aí.

Tudo muito confuso? Sim, muito confuso! E nesta confusão abençoada de não saber-se mãe ou filha viverão as gerações de sobrenome Franco da Silva.

Senhor, eu agradeço por todos os dias em que Dolores esteve presente na vida de sua filha. Agradeço pelos sustos, pelo medo, pelo cansaço, pela dor. Agradeço e louvo, porque tudo isso construiu a pessoa que Anna Paula é, e construirá Giovanna.

Em dezembro de 2011 trocávamos, em palavras digitadas, a angústia de perdermos Dolores. Lá eu dizia à minha amiga Anna Paula que sempre penso que todos nós nascemos com a tal “bomba-relógio”, sem saber quando é chegada a hora de estarmos nos braços de Deus. E o que parecia estar perto de acontecer há quase dois anos, aconteceu durante esta madrugada. Mas Deus tinha o Seu propósito, e nós nem sabíamos!

A mão de Deus firmou os caminhos de Anna Paula, neste tempo. Apresentou-lhe a possibilidade de ter sua própria família, de acenar uma independência que tranquilizasse sua mãe.

Afrouxado o laço para que dentro dele coubessem mais pessoas, Deus sussurrou nos ouvidos de Dolores: “Está na hora de eu te levar de volta!...”

Hoje, ao despedir-me daquela senhorinha, ousei ver um sorriso em sua face. Dolores está bem. Cumpriu sua missão na Terra. Sabe que a saudade jamais irá passar, mas sabe também que Giovanna preencherá todos os espaços do coração de Anna Paula.

E eu, que acabara de voltar para casa depois de um fim de semana em que comemorei o aniversário de setenta e quatro anos de minha mãe; depois de passar dois dias ao lado dos meus pais; depois de testemunhar, no caminho de volta, na estrada, um acidente horrível envolvendo famílias com bebês, peço a Deus que este texto Lhe chegue como oração: que minhas palavras sejam fonte de conforto à minha amiga querida. E que aprendamos com as perdas, a dar valor à vida, e aos tantos ganhos que temos com ela!


Descanse em paz, Dolores! Hoje o céu ganhou mais uma estrelinha...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

É greve


Escola vazia é espaço sem alegria.

Fiquei pensando nessa frase, tentando inventar um poema. Não consegui. Corri para cá, para o meu diário virtual, para a minha Remmington-22-revestida-de-notebook. Impressionante como é automática essa vontade que me dá de chorar quando abro o note para escrever. Ouço aquele estalo da tampa da minha Remmington. Rapidamente, escuto o murmúrio das letras enfileiradas: “O que será que ela tem para hoje?”

As letras do teclado me sorriem, como me sorriam as da Remmington. Como me sorria o alfabeto inteiro quando o diário era de papel. Letras e teclas gostam de sua funcionalidade. Não estão ali para serem desprezadas. Querem dançar, querem gritar, querem sorrir e chorar junto com a gente, expressar emoções. Ficam aflitas, às vezes, e é por isso que às vezes, também, as palavras nos faltam na hora de escrever... Letras e palavras são emoção pura, em nada diferem de nós.

Nada vale um sofá no canto da sala, sem uso. Como tem pouco valor a roupa que não se usa, a jóia guardada na gaveta, a lingerie que aguarda o momento que nunca chega. Funcionalidade é tudo!

Escola vazia é espaço sem alegria.

Hoje, ter visto o pátio da escola vazio entristeceu meu coração. Eu senti saudade. A escola onde trabalho é enorme, bem parecida com a escola onde estudei, em São Gonçalo. Hoje a escola estava ainda maior, porque vazia. E por uns instantes eu me permiti ter dez anos e estar na escola outra vez...

Daí, lembrei-me de uma porção de coisas!...

Lembrei-me da camisa do uniforme, com sua manga dobrada. Sim, apenas uma das mangas, com duas dobrinhas para cima. Era a “simpatia” infalível para que o professor faltasse.

Lembrei-me das brincadeiras na hora séria (séria?) no hino nacional. Das ousadias em piscar o olho para o amigo ao lado, ou olhar para o amigo de trás, ou fazer careta para a inspetora de alunos, assim que ela me virasse as costas.

Lembrei-me dos dias de prova e da hora da cola. Eu recebia em minha carteira muitas provas de colegas, depois que terminava de fazer a minha. Fazia quatro, cinco provas, temerosa de ser pega em flagrante.

Lembrei-me do único dia em que a professora de Língua Portuguesa me colocou para fora de sala, porque eu estava conversando com uma amiga da carteira ao lado enquanto ela explicava o dever. Aquele foi um dia inesquecível para mim, porque passeei pelo pátio da escola toda praticamente sozinha. Nossa, que escola grande e bonita!

Lembrei-me dos amores que senti pelos meninos, das brincadeiras da hora do recreio, da queimada... Cheguei mesmo a ouvir o sinal tocar! Lembrei-me da quadra – enorme! – onde fazíamos Educação Física. Lembrei-me do quanto eu odiava Educação Física!

Lembrei-me das festinhas de fim de ano, dos longplays, das vitrolinhas, da dança e da tão esperada “música lenta”, oportunidade única de colar o rosto no amado e sentir o coração bater mais forte.

E basta que eu organize o pensamento para alinhá-lo aqui no texto e meu coração já quer apertar novamente: é que naquela sessão nostálgica de olhar o vazio, tudo o que se transformou em saudade no meu peito compôs o currículo oculto da escola por onde passei.

Hoje é dia de greve. Ontem foi dia de conselho de classe. Amanhã será dia de aula e, depois de amanhã, será o dia de se aprovar ou reprovar os alunos. Tudo tem passado tão depressa!

Adultos convivem com crianças neste cotidiano escolar, mas se esquecem de que já foram elas. Tudo o que lembrei em minutos diante de um pátio vazio foi do bom que vivi, e nada me levou a lembranças de sala de aula. Sabe por quê? Porque eu me lembrei da VIDA que vivi dentro daqueles muros, nas quatro horas e meia que passava lá dentro.

Hoje as crianças entram nas salas e encontram seus professores a manusear o celular a cada segundo, para ver se alguns minutos se passaram.

Existe uma VIDA dentro de cada corpo que ocupa uma carteira, um lugar na fila para o hino nacional. Uma VIDA que não está – e faz parte da sua época não estar – lá muito interessada em aprender os conteúdos insignificantes que a escola MORTA insiste em ensinar.

E, no entanto, a escola segue, MORTA, nada funcional, desprezando corpos jovens que gritam: “eu quero VIVER!”

Seguimos MORTOS toda vez que subestimamos nossos alunos, toda vez que os rotulamos, toda vez que declaramos conhecer-lhes os limites. Seguimos MORTOS, arrastados, sempre que desistimos de um aluno, sempre que excluímos, sempre que, com nossas aulas MORTAS, convidamos os alunos a deixarem a sala de aula.

Assim segue a escola, MORTA, paradoxo com os hormônios VIVOS da infância, da juventude e da adolescência.

Meu coração está em greve, esperando a outra greve acabar. Não há música na hora do recreio, não há garfos batendo nos pratos na hora da refeição. Não há o uniforme, o cabelo cheio de creme, as sombras multicoloridas aplicadas nos olhos, os óculos sem armação adornando o rosto e revelando: “eu curto a moda, eu sou jovem, eu sou feliz!”

Tudo o que há é um silêncio horroroso e, no meu caso, no meu coração, uma saudade – que só aumenta! – de tudo o que vivi na escola.

Não existe a escola de ontem e a escola de hoje. Somos todos uma coisa só, porque somos seres humanos, porque estamos vivos, e porque fomos crianças, também. Tivemos aulas boas e ruins, sabíamos a quem respeitar e a quem nos era permitido desrespeitar.

Tudo o que entra VIVO na escola e sai MORTO de lá, carrega consigo a nossa marca. E meu pedido, meu desejo, minha súplica, minha oração, minha utopia é de que um dia sejamos agentes do contrário: de trazer à vida a alma destinada à morte, porque creio ser fundamentalmente esta a função da escola.

Abaixo a greve dos corações!

domingo, 8 de setembro de 2013

Quando o Brasil virou DOI-Codi.


Na terça-feira passada, dia 27 de agosto, eu vi uma cena na televisão. Era a presidente Dilma falando sobre a fuga do senador boliviano Roger Pinto para o Brasil, rejeitando a comparação feita por Eduardo Saboia entre a situação do senador e a de vítimas do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar.

As palavras dela foram exatamente essas: “Não há nenhuma similaridade. E eu estive no DOI-Codi. Eu sei o que é o DOI-Codi. E asseguro a vocês: é tão distante da embaixada brasileira lá em La Paz, como é distante o céu do inferno. Literalmente, isso.”

Daí, depois de ouvir aquilo, e ficar “matutando” por dias, cheguei até aqui. É que por alguns momentos meus “pensamentos visuais” enxergaram Dilma em sessões de tortura e afins, no período da ditadura militar no Brasil. E venho há uns dias tentando entender o que passa na cabeça de uma pessoa que sofre atrocidades por um Brasil melhor, chega à presidência da República e transforma o país num DOI-Codi.

Ela não concordou com a comparação do Eduardo Saboia, e eu não concordo com a dela. Vou escrever, então, o que julgo poder se comparar a céu e inferno:


Céu é mesa farta e família se alimentando.
Inferno é fome. É solidão.
Céu é escola pública de qualidade. É perspectiva de futuro, garantida a escolarização.
Inferno é o estado em que se encontram as escolas públicas. É a infrequência dos alunos, a evasão.
Céu é o cidadão empregado. É trabalho com salário digno.
Inferno é o desemprego. É a escravidão.
Céu é sorrir com todos os dentes na boca.
Inferno é ter a boca desdentada.
Céu é saber ler e escrever.
Inferno é ser analfabeto.
Céu é manifestar- se politicamente.
Inferno é apanhar de policiais.
Céu é ter representantes honestos eleitos.
Inferno é ver descobertos os roubos e desmandos daqueles em quem votamos.
Céu é justiça.
Inferno é impunidade.
Céu é alegria.
Inferno é tristeza.
Céu é viver.
Inferno é sobreviver.


Eu poderia ficar aqui por longo tempo escrevendo as comparações que ando fazendo desde o dia em que, aparentando uma tristeza, uma revolta, uma certa irritação, nossa presidente Dilma abriu a boca para dizer aquelas palavras.

É superficial – e cômodo! – para uma pessoa que viveu o terror da ditadura dizer que tudo o que não é DOI-Codi é o céu.

Hoje eu vejo jovens nas ruas por um país menos corrupto, e tudo o que faço é rezar para que não se transformem em Dilmas e tantos outros que, à década de sessenta, deram o sangue para chegarem hoje onde estão e virarem as costas para o povo brasileiro, o que vive – aí, sim – num inferno verdadeiro.

Todas as vezes em que saímos de casa com o dinheiro contado para a volta, todas as vezes em que saímos à procura de emprego sob sol quente ou chuva pesada, todas as vezes em que ao recebermos nosso salário concluímos ser pouco para o mês inteiro, todas as vezes em que assistimos pela TV as propostas de aumento do salário mínimo e as comparamos com os aprovados aumentos nos salários de senadores, ministros e presidentes, todas as vezes em que a prática politiqueira nos avilta com atitudes irresponsáveis e criminosas, sentimos aquela dor, aquela mesma dor que se sentia ao “pau-de-arara’.

E isto, para mim, é fato.

Barriga vazia dói, verdadeiramente. Todas as doenças causadas por falta de saneamento básico às portas das casas doem, e levam pais e filhos, e morrer dói. Todos os tiros, estiletadas, facadas levados no momento dos assaltos que acontecem por falta de segurança pública nas ruas doem. Como dói sofrer um acidente numa estrada esburacada, como dói na alma ser um desempregado, como dói ouvir um “não” da escola pública que se procura atrás de um tempo que se perdeu por tantas razões!...

Tudo isso dói. E é o inferno.


E era isso o que eu queria desabafar.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Vida de Professor



Vida de Professor

Publicado em 25/07/2013 no site Educadores Online 
(Coluna Fique por Dentro "Miscelânea")

http://www.educadoresonline.com.br/


Cheguei da escola um pouco mais cedo, hoje.É engraçado como estranho minha casa em horas como essas. Uma luz diferente, raios de sol atravessando a janela, uma cor que não conheço... Preciso ficar mais tempo em casa. Preciso calcular o tempo de contribuição, para ver se já posso tentar me aposentar.

Eu sou professora. Completarei meus cinquenta anos de idade em setembro. Com mais de trinta de magistério, acho que meu destino é encerrar minha contribuição. Não sei se consigo, eu amo o que faço. E embora o cansaço me “atente”, me pedindo para parar, falta-me coragem de juntar os documentos e dar entrada no pedido de aposentadoria...

Quando iniciei, aos dezesseis anos, os alunos iam para a escola acompanhados de seus pais. Um ou outro chegava sozinho, ou transportado por vans. Depois de uns dez anos de trabalho, a frequência dos responsáveis pelos alunos foi diminuindo cada vez mais, e mais rapidamente. Hoje, com trinta e tantos anos na profissão, dos quarenta alunos que tenho, conheço os pais de seis.

Nas reuniões pedagógicas na escola, sempre que falamos sobre casos de alunos indisciplinados a polêmica surge: a ausência dos pais, a falta de acompanhamento na vida escolar de seus filhos é, na grande maioria das vezes, a vilã da história. Fico ouvindo o relato dos meus colegas, gosto de prestar maior atenção naquele mais antigo e naquela novata que acabou de chegar para trabalhar. Daí, vou tecendo minhas conclusões. Elas sempre mudam. Tenho vários casos diferentes na minha sala de aula, não poderia definir uma única causa para o comportamento dos meus meninos.

Três professores já foram agredidos por seus alunos. São agora mais comuns os relatos – os desabafos! – de colegas ofendidos por palavrões, de colegas ameaçados, de colegas furtados, e três ocorrências já foram registradas no livro preto da escola revelando agressões físicas a professores, num espaço de seis meses letivos.

Sou professora do primeiro segmento, trabalho com turmas de segundo ano de escolaridade. Nas reuniões em que estão presentes os professores do segundo segmento, a unissonância: os alunos estão vindo para a escola por pura obrigação. Não se interessam pelas aulas, e só frequentam a escola porque seus pais recebem o “Bolsa Família”. Então, fazem bagunça o tempo inteiro, não deixam os alunos mais quietos aprenderem os conteúdos simplesmente porque não deixam o professor trabalhar.

Entre uma fala e outra, entristeço. Eu tenho uma grande dúvida no meu coração, que ninguém consegue tirar: quem é o responsável, quando o aluno caminha para a escola sem o menor interesse? E enquanto eles – os professores – concordam entre si, acenando, balançando afirmativamente a cabeça diante do depoimento acalorado daquele que afirma o desânimo dos seus meninos, eu me preocupo.

Nossas escolas não convidam seus alunos a caminharem para ela com alegria. Tampouco os convidam para que permaneçam nela. Professores fazem o possível e o impossível para darem conta de uma grade curricular muito pouco discutida, porque não há equipe técnica, composta por pedagogos em número suficiente para uma verdadeira orientação àquele professor que leciona determinada disciplina, e não sabe ou não consegue lançar mão de recursos diferenciados para atingir aos alunos que não aprendem. Não há unidade entre o trabalho realizado, cada professor luta sozinho quando quer experimentar uma nova forma de ensinar. Não há integração com as famílias, as escolas não dispõem de calendários que prevejam atividades com os pais dos alunos em dias e horários em que estes possam estar presentes. As aulas são repetitivas e a escola é chata, salvo algumas exceções que ultrapassam seus próprios limites e fazem o que se pode chamar de “milagre”!

Mas, “espera aí!”, penso eu, comigo mesma. Há salas de aula convidativas, ainda. E numa grade de oito disciplinas, às vezes há frequência nas aulas de História quando não há nas de Química. É que professores do tipo “maluquinhos” andam rompendo as barreiras e levando seus alunos aos Museus, enquanto aquele outro obriga a decorar a fórmula enquanto ameaça o teste na semana que vem.

Precisamos ir às ruas e bater panelas para exigir dignidade para trabalhar. Nossa profissão forma quase todas as outras. É cada vez mais imprescindível ter-se passado pela escola para se conseguir sucesso no trabalho. Então, se a escola exclui, há controvérsias nisto.

A tarde está linda e vermelha lá fora. E olhando para este céu multicolorido, penso que está bem mais feliz agora quem tem a oportunidade de sentar-se, ainda que à beira da rua, e acompanhar o pôr do sol. Será que se algum aluno pedisse ao professor para ir lá fora, ver o entardecer...