quarta-feira, 16 de abril de 2014

Trinta anos


Trinta anos separados. Até que se reencontram. E cada um tem, de repente, trinta anos a menos, pelo menos por um dia...

Em trinta anos, ficaram adultos. Agora têm em seus rostos, além das marcas das espinhas da adolescência, rugas: viveram! Trazem os olhos cansados – já viram tanta coisa nesta vida! – e auxiliados, agora, por lentes de óculos que jamais pensaram em usar. Muitos cabelos brancos apareceram, embora ela ainda os disfarce numa tinta amarronzada.

Um casal de amigos. Muito amigos. E que só sabem que sempre o foram agora que a maturidade lhes permite saberes que não possuíam há trinta anos...

Um dia, depois de alguns anos dividindo brincadeiras, apelidos e boladas na hora do recreio, o destino os separou: era chegada a hora do “segundo grau”. Fizeram escolhas diferentes, um sem saber do outro. Tomaram rumos diferentes. No fim daquele ano ela recebeu dele, pelos Correios,  uma fita K7 com canções gravadas e um cartãozinho de Natal, com confidências de carinho. Ela riu. Jamais se esqueceu: “Alguém disse que te ama, adivinha quem fui?”

Nunca mais se viram. Nunca mais se falaram. E trinta anos se passaram.

Trinta anos levaram embora uma menina sonhadora e um menino pra lá de tímido. Ele cresceu, conheceu o amor, casou-se. Ela cresceu, conheceu o amor, casou-se. Respeitando a ordem natural das coisas, tiveram filhos. Lindos filhos!

Enquanto deixavam de ser adolescentes e se tornavam adultos, Deus foi realizando Sua obra. Deu-lhes talentos afins: a poesia, a fotografia, a música, o romantismo, a fé. Deus desenhou naqueles dois o rascunho de almas boas, generosas, caridosas, fiéis.

Enquanto deixavam de ser adolescentes e se tornavam adultos, o homem aprimorou a robótica e a cibernética. E um belo dia, trinta anos depois de um histórico escolar separar os dois amigos, a Internet os encontrou – ou eles encontraram a Internet – e eles encontraram-se, um ao outro.

As emoções se sobrepõem ao tempo. No primeiro (re)encontro, os treze anos de volta. E, diante do espelho que revela a verdadeira idade, aquela saudade de tudo o que foi vivido!...

Trinta anos não são nada quando o adeus não é dito.

E hoje, gratos a Deus pela Inteligência do homem, de vez em quando os dois amigos trocam seu “bom dia”. De vez em quando um ajuda o outro, um socorre o outro, e muito mais vezes um se alegra com a alegria do outro.

Talvez um dia o reencontro presencial se dê. E o abraço aconteça. O abraço que nunca existiu, posto que, crianças, nunca deram importância a isto. Crianças e adolescentes não sabem a falta que um abraço faz. Enquanto este dia não chega, conforto-me com sua voz em gravações que tenho, com suas palavras de carinho. Vamos acompanhando, um ao outro, através do “Sr. Google”, este que, se bem utilizado, pode aproximar tantos destinos que se perderam!...

Cada vez que estou com ele, sou uma menina. Do outro lado, sua foto no “chat” me revela o garoto. Que é o tempo, afinal? Este senhor das horas que reduz nosso prazer no banho, nosso sonho na cama, nossa viagem no carro, nossa alegria na vida se, diante de uma emoção que se sente, é capaz de parar por trinta anos?

Bem-vindo à minha vida virtual, querido amigo! Poetas que somos – você infinitamente melhor do que eu – fomos agraciados com o dom de não temer o vibrar do relógio. E não me resta dúvida de que nossa afinidade em perceber essência em coisas que a maioria das pessoas despreza, faz-nos sentir o calor do abraço, ainda que estejamos geograficamente tão distantes!

Hoje meu texto é pra você.


domingo, 6 de abril de 2014

Diferentes lições de três vidas


Ele renasceu. Renasce todos os dias. Bravo, guerreiro, forte. Depois da primeira cura, a rotina de saber se venceu cada batalha, se o inimigo desistiu de pregar-lhe os sustos. Não se rende, embora o medo – sentimento possível de existir em qualquer pessoa normal – às vezes o tente: “homem não chora”, dizem-lhe as tentações. Prende o choro, respira fundo. E segue a vida, ora alegre, ora triste, como a vida é vivida. Ah, Pedro, também não vivemos nós assim?

Pedro é pedra, é rocha. Sua mãe decidiu dar-lhe o nome ideal, instintivamente. Pedro é firme. E Deus está provando isto: todos os que convivem com ele percebem...

Um outro se chama Victor. Ainda não nasceu, mas já é vitorioso. Surgiu como um milagre, ainda que sua mãe não se lembre do momento do sussurro dos anjos. E como milagre “vingou”, e descansa junto com sua mãe, aguardando a hora de conhecer o mundo. Enquanto ficam os dois juntos, dia e noite, noite e dia repousando, Victor vai ensinando à sua mãe coisas sobre a paciência, a resignação, a força de vontade: que fraco pode ser vencedor?

Aqui em casa possuo o inestimável, o que não tem preço: do meu ventre, saiu Antônio! Hoje, aos oito anos de idade é, ainda, meu professor. Um professor de sentimentos. Antônio controla-me os impulsos (“calma, mãe, se concentra!”), diz-me coisas de Deus. Na ingenuidade de criança, é o meu porto seguro, e nem sabe! Inestimável é o significado do nome Antônio.

Nossos filhos nos ensinam sobre a vida. Vêm ao mundo para isto, cada vez creio mais! Pedro, Victor, Antônio, que seríamos de nós, suas mães, sem eles? Nada saberíamos sobre esperar.

Vida de mãe é vida de culpa, de dor, de espera. Foi assim desde Maria: depois do “sim”, que lhe restou, senão obedecer, aceitar, calar, esperar?... Mas Deus, conhecedor de cada coração, deu Pedro à pessoa certa, e assim o fez com Victor e com Antônio. Obrigada, Senhor!

Hoje, na rotina da minha vida, convivo com essas três experiências. Vejo um homem, resultado da presença de sua mãe em sua vida, reagir diante do que se imagina incurável... Onde encontra a fortaleza? E, embora fuja muitas vezes dela – talvez para amenizar-lhe o sofrimento – sabe, perfeitamente, visceralmente, onde encontrá-la: (a)braços de mãe, chão. E sabe que, ainda que um papel lhe diga não, o sorriso nos lábios de um rosto com olhos tristes lhe dirá, para toda a vida “sim”. Que há de melhor e mais sublime do que um “sim” de mãe?

Neste tempo em que passam juntos – nunca tão juntos! – Victor vai descobrindo a mãe que tem, e não o contrário. Não, não somos nós a descobrirmos as façanhas de nossas crias. Muito antes disto, eles nos conhecem perfeitamente. Victor segue, pondo por terra todos os planos de rotina de trabalho, de obras, de idas e vindas de sua mãe. Victor revela que o importante é ele, que a prioridade é ele, e que se sua mãe dedicar a ele as vinte e quatro horas do seu dia, terão todo o tempo do mundo para fazer o resto! Victor ensina sua mãe a amar, incondicionalmente. E aquela impaciência de mulher de outrora cede espaço para a mãe que, aconchegada na cama, espera a vinda do conquistador...

Eu tinha trinta e sete anos e achava que já sabia de quase todas as coisas. Sabia tanto, que nem pensava em ser mãe. Mas uma maravilhosa “rasteira” divina me mostrou num papelzinho escrito POSITIVO quem é que sabe de todas as coisas. E hoje, quando olho para Antônio, saudável, cheio de energia, inteligente, sagaz, humano, bom, generoso, agradeço muito a Deus, porque jamais imaginara ser, aos olhos do Senhor, digna de um filho assim.

Eles são. Pronto. Pedro, Victor e Antônio são. Estão aí, estão no mundo, enviados por Deus a cada lar já predestinado. São filhos dEle, do Amor maior de Deus por nós. Delegadas fomos, por Ele, a cuidar para que se tornem pessoas do bem. Fazemos nossa parte, com toda a culpa, a dor, a espera de sermos mães. Nossos filhos são nossas alegrias! Com eles aprendemos verdadeiramente a viver! Amadurecemos com cada sofrimento, com cada cansaço – e que cansaço! – com cada noite mal dormida. E Deus nos estende a mão em cada tropeço, porque se alegra de nossa perseverança.

Pedro se curou e se cura todas as vezes em que sua mãe, numa intimidade que só as mães têm com Deus, pede por ele. Victor está no ventre de sua mãe, aguardando a hora de sua chegada, só porque sua mãe pediu a Deus por ele. Da mesma forma, Antônio é o que é na minha vida porque, em todos os momentos entrego a Deus o filho que gerei para Ele.

Que Nosso Senhor abençoe nossas crianças – eis o que há em comum nos três – e as crianças de todas as mães que se encontrarem nesta história. Que prossigamos com força, com fé, com coragem, com discernimento, com amor, cuidando de nossos filhos, e que lhes sirvamos de exemplo para a condução de suas vidas.

Eu queria falar de Amor. De Gratidão e de Fé. Espero ter conseguido.


Amém.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um rastro de sonhos


Amanhã será o seu primeiro dia de aula. Ora, por que será que quando ouvimos a expressão “primeiro dia de aula” nos remetemos somente aos alunos? Absolutamente! Se você entende que a aprendizagem acontece em todas as vias de comunicação, amanhã será, sim, o seu primeiro dia de aula.

Antes de ir dormir, escolha sua melhor roupa. Verifique se seus sapatos estão limpos. Acerte o despertador, de modo que ele lhe acorde num horário adequado, não se esqueça de que você tem coisas importantes a fazer: precisa barbear-se, precisa passar a camisa, precisa tomar um bom banho frio – se possível demorado! – para “acordar” seu corpo. Precisa sair cedo de casa, abastecer o carro, verificar os pneus, água e óleo, precisa chegar à escola cedo, conhecer seus novos colegas de trabalho, abraçar os antigos. Você precisa estar lá, porque seu aluno vai chegar!

Na sua sala de aula, depois do sinal vibrante tocar, estarão trinta e cinco alunos. Trinta e cinco ansiedades que, somadas à sua, darão conta de trinta e seis corações batendo descompassados... Quer uma sugestão? Antes de adentrar aquele espaço sagrado – sim, ainda estou falando da sala de aula – faça uma breve e íntima oração. Peça ao Deus que é seu, que lhe atende nos momentos mais particulares, para entrar com você, para ficar ao seu lado, para segurar-lhe a mão.

O primeiro dia de aula não é só seu: aquele professor da sala ao lado, aquele mesmo, o que está prestes a aposentar-se, estará, assim como você, estreando, também.

Será o primeiro dia de aula, também, para aquele menino que, no ano passado, foi suspenso tantas vezes! Aquele que pulou os muros da escola tentando fugir, aquele que agrediu a cozinheira, que arranhou seu carro, embora você nem tenha sido seu professor, à época.

Amanhã será o primeiro dia de aula para todos, na escola.

Bem, o domingo está lindo – prometendo! – e no meu coração, uma preocupação, uma ansiedade (pode contar o descompasso do meu coração, também), um desejo de dizer a você, professor, de um caminho que se faz, quando se ensina. Meu caminho, já o faço há trinta anos. E, no entanto, quase sempre penso que estou diante do primeiro dia de aula...

Um conselho? A cada passo que der, olhe para trás. Porque o que fica dessa nossa profissão abençoada, é um rastro de sonhos, que vão nos dizendo se valeu a pena ou não. De posse da avaliação que fazemos do rastro que deixamos, podemos – devemos! – mudar os passos, tomar novos rumos. Porque, se olharmos atentos para o rastro que deixamos, é-nos possível saber se será seguro continuar a caminhada de onde paramos.

Os sonhos ficam, luzindo, marcando os passos que demos... Sonhos nossos, sonhos dos nossos colegas de profissão, sonhos dos nossos meninos e meninas. Sua responsabilidade, professor, é acender mais e mais, a cada passo, os sonhos do seu rastro.

Seus alunos chegarão à escola sem saber lhe dizer por que lá estão. Mas, se você não perguntar, jamais descobrirá. Pergunte. Você verá que uns estão na escola porque seus pais lhe obrigam. Muitos pais obrigam seus filhos a estarem na escola não pelo valor que dão ao diploma, mas pelas infinitas “bolsas” que recebem por manter a frequência deles por lá. Verá que alguns estão na escola porque não querem estar em casa: fogem do serviço doméstico, ou de um trabalho mais pesado. Verá que uns poucos estão na escola por opção própria, por acreditar que somente através da escola poderão “ser alguém na vida”. E verá também, professor, quantos deles se refugiam na escola do inferno de suas vidas.

Amanhã será o primeiro dia de aula: seu primeiro passo na estrada. Quando o dia acabar, quando o sinal vibrar lhe avisando que já pode retornar a casa, seus passos de volta ao lar deixarão no chão da vida seus primeiros rastros. Posso dizer a você, professor, que essa marca é a mais importante de todas, porque tudo se define nos primeiros passos. Portanto, esteja atento, não aos conteúdos, aos pré-requisitos, ao conhecimento que seu aluno trouxe consigo da série anterior. Esteja atento aos olhares...

Nos olhos de seus alunos estará a “chave” para um bom ano letivo: saiba ver, olhe com intencionalidade. Saiba tocar-lhes o coração, afeto é tudo! Permita-se ser tocado pela magia da emoção, também. Ali não estará o problema, estará a solução. Apresente-se limpo, disposto, com aquela camisa bonita e bem passada, com a barba feita, com os cabelos cortados. Mostre a eles que você se preparou, que se perfumou para eles, que valoriza o momento em que passa ao lado deles. Seja firme nas atitudes, não permita o que você não suportará mais tarde, fale em voz baixa, imponha limites, estabeleça “combinados” com a turma, use um vocabulário correto, evite gírias, preste atenção no uso correto da nossa língua portuguesa, os meninos não sabem falar, não aprenderam a falar, a mídia não ensina, os “funks” e demais músicas ouvidas por eles não colaboram, também. Mas você é a escola, e é lá que se ensina.

Valorize-se. Encante. Não há quem resista ao encanto de um professor!

E impregnado da magia de ser professor (um professor abençoado) faça o seu melhor, ciente a todo tempo de que para além de alunos, diante de você há seres humanos, há gente, há histórias, há vidas! Ciente de que seu rastro você não marca sozinho: todos os meninos e meninas que conviverem com você marcarão sua passagem pela sua estrada. Ciente de que trinta e cinco corações descompassados esperam tudo de você, e eles nem sabem ainda, posto que são tão jovens!

Nós somos os adultos. Sabemos o que há lá na frente. Você sabe exatamente o que, lá na frente, espera um menino que vive “causando problemas” na escola. Sabe o que espera aquela menina com aquele determinado comportamento à frente de sua geração. E sabe que não é nada bom...

Amanhã, professor, sua presença na sala de aula poderá mudar destinos. Pode ser até que o dia de amanhã seja suficiente para que suas palavras mudem destinos. Só depende de você.

Eu não sei qual a oração que você fará no portal da sala. Não sei qual é o seu Deus, tampouco se você acredita em um. Não sei qual é a sua crença, mas desde já tomo a liberdade de pedir, em oração, por você.

Abençoados sejam todos os professores pela escolha da profissão. Que sejam iluminados e conduzidos pelo bem, e que possam deixar, ao longo deste ano letivo de 2014, um rastro de sonhos realizados pelo caminho.


Que Deus abençoe o seu primeiro dia de aula, todos os dias, professor. Amém.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Ser aluno é obrigação. Ser Professor, opção.


Ao aluno está proibido não sê-lo: estar na escola é obrigatório.

Aos professores está permitido não sê-lo: podem deixar o cargo, se isto lhes traz desconforto.

Não, não quero ser inconveniente. Estou apenas tentando salvar almas – as menores, as mais novas, as inocentes – e, com isto, ajudar àquele que não está feliz em sua profissão a repensar a sua vida...

Quem terá sido a primeira pessoa a levantar a defesa de que “as famílias estão muito diferentes, e os pais não educam mais seus filhos”? Quem terá sido o inventor da frase tão exaustivamente circulada nas redes sociais que afirma que “escola ensina, pais educam”?

E daí?

Qual é o argumento do Professor, diante do mau resultado de sua turma? A resposta, eu mesma dou, sem pestanejar. E ela aparece em mais de uma opção:

1) A família não ajuda.
2) É uma turma indisciplinada.
3) A turma não quis nada o ano inteiro.
4) Os alunos não têm educação.
5) Os alunos já chegaram sem saber os conteúdos.

É tudo tão previsível, infelizmente. Aos vinte e nove anos de magistério, nada há que me surpreenda. As frases são repetidas incansavelmente por um e por outro Professor, enquanto os demais balançam a cabeça, afirmativamente.

Nos corpos, o cansaço aparente: Professores chegam às reuniões de Conselho de Classe exaustos, vencidos. Expressão de alegria no rosto só é possível ver-se quando o assunto é férias. Trazem seus cadernos, seus Diários de Classe, suas bolsas, pastas cheias das provas e testes dos alunos. Há os que se submetem a corrigir aquele material durante a própria reunião. Atrasam-se, “cantam” nomes equivocados, trocam sobrenomes, perdem-se. Conversam entre si, ou afastam-se, procurando uma maneira de isolarem-se para fechar as notas finais. Balançam as pernas, batem com as canetas nas mesas, riem-se sozinhos, transpiram. O corpo fala que não quer mais aquilo. Os Professores desobedecem, em nome de um mês que vem pela frente para descansar: janeiro.

Muitas vezes o corpo do menino fala, também. Quer sair dali, parar de ouvir aquilo tudo, sumir. Quer sair da escola, daquela escola chata, daquele sermão, daqueles castigos que não acabam, daquelas cópias de textos de livros na sala da coordenação. Mas ao menino é dada a ordem, e ela é constitucional: “Você TEM que estar na escola”!

Muitas vezes o corpo do Professor fala. Quer sair dali, parar de ouvir aquilo tudo, aquelas vozes, aquele arrastar de cadeiras e mesas, aqueles toques de celular, aqueles funks. Quer sumir. Quer sair da escola, daquela escola chata, daquele sermão da supervisora, ou da diretora. No entanto, não há Constituição que lhe obrigue a ficar. Não há papel que lhe diga: “Você TEM que estar na escola”! Por que estão?

Andam se arrastando pelos corredores da escola. Blasfemam, contam os dias para a aposentadoria, apresentam atestados médicos regularmente. Quando chegam ao extremo agridem seus alunos verbalmente e fisicamente.  Dão aulas monótonas e descontextualizadas. Repetem as aulas quando trabalham com um mesmo ano de escolaridade. Desprezam diferenças individuais. Escrevem mal, falam mal, cometem verdadeiros abusos no uso da Língua Portuguesa. Não sabem se comunicar, perdem-se entre linguagem culta e coloquial. Não convencem, definitivamente, e acho que nem a si mesmos.

Enganam-se. E eu fico aqui pensando na infelicidade de se viver uma vida assim: contando horas para que um sinal toque, para que se recomece a contagem, para que se saia de uma sala de aula para outra, de uma escola para outra, de um turno para outro, de um dia para outro, de uma semana para outra, da vida para a morte, como se não se percebesse que, enquanto o horror acontece, nossos dias se vão, e eles não voltam!

Desculpem-me pelo desabafo, mas o recado vai para quem precisa recebê-lo.

As crianças não andam recebendo a educação que seu tataravô deu ao seu trisavô, e isto é uma verdade. Porque não atravessamos o mesmo rio duas vezes. As crianças estão violentas na escola, estão xingando seus colegas e Professores. As crianças estão crescendo e se tornando adolescentes intoleráveis.  E tudo isso virou modelo pronto de argumento para defesa do Professor, junto aos Conselhos de Classe.

As crianças e os jovens (até seus 17 anos) são alunos por obrigação. Você é Professor por opção.

Sonhar com salários melhores só é possível se se faz um trabalho que o justifique ao final do mês. Não consegui ainda, infelizmente, perceber eficácia no trabalho de certo tipo de Professores depois de aumentos salariais concedidos.

A opção pelo magistério é pessoal. Como todas as outras profissões, deve ser por se perceber um dom, e este dom é o de ensinar. É o dom de fazer o seu melhor trabalho, sobretudo em prol daquele aluno mais difícil, mais carente.

Se não foram envidados todos os esforços para que a aprendizagem acontecesse nas suas aulas, você não é um bom Professor. Se diante do primeiro confronto com seu aluno você o excluiu do grupo, você não é um bom Professor. Se você segue adiante com seus conteúdos, sem se preocupar em avaliar se houve compreensão por parte da turma, você não é um bom Professor. Se você não olha nos olhos de seu aluno quando fala com ele, você não é um bom Professor. Se você não se alegra com as conquistas dos alunos que têm maior dificuldade, se você não se entristece com notas baixas na turma, você não é um bom Professor. Se você acha que o aluno está reprovado porque “a família...”, você não é um bom Professor. Se você não ama o que faz, se você é triste, se conta as horas para a sua própria aula chegar ao fim, você não é um bom Professor. Se você procura motivos para retirar de si a responsabilidade por médias baixíssimas e reprovações de alunos, você não é um bom Professor. Se você não tem cuidados ao escrever, não corrige erros, não tenta minimizá-los, não estuda, não se aperfeiçoa, você não é um bom Professor.

E, se é assim, você está na profissão errada.

Era isto, o que eu queria escrever. Queria lembrar que Professores que são infelizes fazendo o que fazem, têm liberdade para tentar outro emprego. Já os nossos meninos e meninas estão condenados a ficarem na escola por mais de dez anos, por obrigação, sendo – cada vez mais – vítimas daquele que escolheu no dia errado e na hora errada, a profissão errada, também.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A vida que a gente leva


São vinte e quatro as horas que ganhamos para viver o dia. O que fazemos com elas é de nossa total responsabilidade. A cada amanhecer, novas vinte e quatro horas nos esperam. Depois ganhamos outras e outras, e são tantas, sucessivas, que às vezes acreditamos que não tem fim a vida que a gente leva.

Mas tem.

Viver é tomar sustos, sigo eu filosofando, após algumas conclusões...

Meu pai está com setenta e nove anos. Aquele mecânico, que chegara aos setenta e um anos de idade consertando tudo o que havia no meu bilhetinho preso ao ímã da geladeira daqui de casa já recebeu, depois disso, muitas vinte e quatro horas. Hoje já não faz mais tudo o que preciso, então, respeitando seus limites, tento diminuir a lista, propondo-lhe coisas mais fáceis, para que ele se sinta orgulhoso por continuar a resolver os meus problemas.

Hoje o guarda-chuva de Antônio quebrou – foi o primeiro dia que ele usou o guarda-chuva – e, prontamente, meu filho me pediu que guardasse o objeto para que o vovô consertasse. Antônio, certamente, tem lá a lista dele, também, de problemas para o vovô resolver.

Há uns dois anos meu pai reclama de dor nas pernas. Uma sensação de cansaço, que julgávamos ser falta de circulação sanguínea. Fomos a médicos, fizemos exames, mas nada ficou diagnosticado. Fugiu de fisioterapia, negou hidroginástica, recusou-se a caminhar.

Na minha adolescência, meu pai me mandava caminhar pela casa com livros na cabeça. Ele queria corrigir minha postura. Naquele tempo ele era mais alto que eu. Um magrinho de belo porte, com seus ombros esticados. Hoje Sr. Walter é bem mais baixo, e anda muito, muito encolhidinho...

Minha presença por aqui hoje tem um objetivo: chorar a vida que se leva. Porque vivo lá, dentro das escolas, rodeada do que será o futuro, mas bastante temerosa do que teremos lá na frente. Não sei se a vida que se leva hoje nos prepara para a hora em que o corpo resolve se curvar.

Não, não há mais lista alguma na geladeira. Ontem eu retirei a pequena lista de lá, depois que falei com minha irmã ao telefone.

Por aqui pelo blog estou sempre escrevendo sobre papai. Na primeira história, “Meu pai que a escola excluiu” (http://kentrenostodos.blogspot.com.br/2011/12/meu-pai-que-escola-excluiu-texto-de.html) eu revelei o paradoxo entre a sua inteligência e a imperceptibilidade da escola. Na segunda, contada no texto “Lágrimas de diamantes” (http://kentrenostodos.blogspot.com.br/2012/12/lagrimas-de-diamantes.html), eu compartilhei com vocês a emoção que senti ao ver meu pai chorar.

Meu pai andou chorando nesses últimos dias, e não foi pouco. Uma tristeza profunda que, meu coração me diz, advém do fato de ver-se limitado nas condições físicas de realizar “aquilo tudo” de que sempre foi capaz.

Procuramos um médico neurologista que o avaliasse, e ontem minha irmã me falou ao telefone que, pela entrevista e pelo que o médico pôde observar e concluir, muito provavelmente ele já tenha sido vítima de um acidente vascular cerebral.

Nenhum bilhete na geladeira. O mundo deu algumas voltas ao meu redor. O chão me faltou por alguns segundos. Mas estou de volta. E preciso escrever sobre a vida que se leva, porque é esta a minha intenção.

Se aconteceu o AVC, não percebemos. Nenhuma dormência, nenhum desmaio, nenhuma queda de pressão, nenhum esquecimento, nenhuma dificuldade para falar, nada aparente, nada sofrido. Se aconteceu o AVC, foi durante a vida que se leva.

Estou dentro das escolas, teimosa que sou, acreditando poder fazer alguma coisa pelos meninos e meninas que estão na escola pública. Estou falando, escrevendo, gritando, chorando (ainda, graças a Deus!). Estou vivendo a vida. Sou a Karla Pontes nas escolas, nas reuniões de equipe de trabalho. Ultimamente, tenho sido a Karla Pontes administradora da página “K entre nós”. Em casa, sou mãe (porque mãe não tem nome, não é? O nome de mãe é mãe). Mãe do Antônio. Mãe, mãe, mãe, sem lembrar-me muito de mim. Lá em São Gonçalo, sou Karla filha. Eis a vida que levo.

Um AVC mais contundente – seria a melhor palavra? – e já não teria por aqui o velho Walter. E quando, isto? Quando fosse à padaria, comprar pães? Quando fosse ao Banco, receber sua cruel aposentadoria? No banho, sob o chuveiro? Assistindo à TV, nas horas daqueles jogos de campeonatos de décadas passadas? Dormindo? Sentado à mesa para mais uma refeição? Varrendo o quintal? Alimentando os cães e gatos de estimação? Lavando o carro? Eis a vida que meu pai leva.

Meu pai leva essa vida quando os seus olhos enrugados acordam para as vinte e quatro horas que lhe são concedidas. Assim como nós: como eu, como cada um de vocês. Pretendemos as vinte e quatro horas, mas não sabemos se um AVC – ou um assaltante, ou um aborrecimento com o patrão, ou uma queda, ou uma bala perdida – vai interromper essa contagem.

Eu agradeço a Deus, ainda que não saiba o que de fato aconteceu. Agradeço, porque hoje ele esteve do outro lado da linha telefônica me dizendo “alô” quando eu liguei pra casa. E, diante do futuro incerto que a escola oferece aos seus alunos, apesar de estarmos no século XXI, choro. Porque pode ser que daqui a alguns anos Antônio resolva escrever sobre a minha história, e pode ser que não haja boas notícias no final dela. Pode ser que ele chore minha ausência por causa de um AVC ocorrido durante um Conselho de Classe.

Nada muda. E esta é uma triste realidade.

Diante da estaticidade da escola, as doenças avançam, superam-se e levam nossos pais.  Sr. Walter está lá, em São Gonçalo, graças a Deus, mas não mais inteiro. Porque, uma vez limitado, sem condições de trocar o pneu do carro, julga-se metade de homem. Seu velho corpo já não mais lhe obedece. Pensa em caminhar na direção da direita, o cérebro inverte os comandos, caminha para a esquerda. Pedi a minha irmã para deixá-lo vir para Iguaba, para que eu pudesse acompanhá-lo, mas é impossível permitir que venha sozinho. E foi o que sempre fez.

Em algumas lojas, já não se vende “à prestação” para pessoas da idade dele. Meu pai nunca atrasou uma conta, sequer. Sempre prezou pelo “nome limpo na praça”. E essa vida que a gente leva, insiste em levar dentro das escolas, deturpando valores, reprovando por preconceito, priorizando detalhes irrelevantes, deixa do lado de fora muitas outras vidas, também.

Vontade, uma só: ir-me embora daqui. Voltar para junto deles, prolongar o convívio de Antônio com aquela sabedoria toda que está a cento e vinte quilômetros de distância. Mas a vida que eu levo não me permite fazê-lo. Faltou-me pensar nisto anos atrás.


Por isso, por tudo isso, deixo aqui mais uma história de família. Talvez alguém que esteja lendo este meu desabafo vá pensar mais adiante, vá modificar sua vida, vá aproveitar melhor as vinte e quatro horas. Vá olhar pra trás, vá olhar pra frente, vá desfazer, vá refazer. Importa que seja logo. Porque não sabemos, verdadeiramente, quantas vinte e quatro horas teremos para viver ao lado de quem a gente ama.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dolores


Fechou os olhos.

Descansou.

A pilha fraca, relutante, cedeu à vontade do tempo, do Livro de Deus: hoje dissemos adeus à Dolores.

Ficou Giovanna. Semente em crescimento, jóia em formação.

Giovanna ficou. Quietinha, meio sem entender o que acontecia, mas segura: no ventre da mãe, aguarda a hora para conhecer o mundo. Ainda falta um pouco, Giovanna só chegará em fevereiro. Mas, assim como sua avó, cede à vontade do Pai. E enquanto brinca conhecendo seu universo – que agora é aquele misto de si mesma e de sua mãe – ensaia o que será na vida de Anna Paula...

Foi só o abraço. Só pelo abraço estive com Anna Paula, hoje. Nada a dizer. Não há o que se diga nessa hora. Perguntei-lhe apenas se estava cuidando de Giovanna. Anna Paula me respondeu: “Ela está cuidando de mim”.

Pronto! Deus realizou Sua obra. Tão simples para Ele – o dono da Vida! – tão difícil para entendermos!...

Desde que a notícia me chegou via internet, um único pensamento: agradecer e louvar a Deus pelo ciclo planejado e desenhado. Para quem conhece Anna Paula, sabe que Dolores hoje descansa em paz, embora leve consigo uma vontadezinha de ter nos braços a Giovanna. Dolores virou estrela, verá do céu a doce menina nascer e crescer, surpreendendo a todos com a rapidez como as crianças hoje em dia se desenvolvem.

Anna Paula está pronta, embora hoje talvez se julgue ser nada. Nunca mais a mesma, decerto, mas pronta para ser a Dolores para a Anna Paulinha que vem aí.

Tudo muito confuso? Sim, muito confuso! E nesta confusão abençoada de não saber-se mãe ou filha viverão as gerações de sobrenome Franco da Silva.

Senhor, eu agradeço por todos os dias em que Dolores esteve presente na vida de sua filha. Agradeço pelos sustos, pelo medo, pelo cansaço, pela dor. Agradeço e louvo, porque tudo isso construiu a pessoa que Anna Paula é, e construirá Giovanna.

Em dezembro de 2011 trocávamos, em palavras digitadas, a angústia de perdermos Dolores. Lá eu dizia à minha amiga Anna Paula que sempre penso que todos nós nascemos com a tal “bomba-relógio”, sem saber quando é chegada a hora de estarmos nos braços de Deus. E o que parecia estar perto de acontecer há quase dois anos, aconteceu durante esta madrugada. Mas Deus tinha o Seu propósito, e nós nem sabíamos!

A mão de Deus firmou os caminhos de Anna Paula, neste tempo. Apresentou-lhe a possibilidade de ter sua própria família, de acenar uma independência que tranquilizasse sua mãe.

Afrouxado o laço para que dentro dele coubessem mais pessoas, Deus sussurrou nos ouvidos de Dolores: “Está na hora de eu te levar de volta!...”

Hoje, ao despedir-me daquela senhorinha, ousei ver um sorriso em sua face. Dolores está bem. Cumpriu sua missão na Terra. Sabe que a saudade jamais irá passar, mas sabe também que Giovanna preencherá todos os espaços do coração de Anna Paula.

E eu, que acabara de voltar para casa depois de um fim de semana em que comemorei o aniversário de setenta e quatro anos de minha mãe; depois de passar dois dias ao lado dos meus pais; depois de testemunhar, no caminho de volta, na estrada, um acidente horrível envolvendo famílias com bebês, peço a Deus que este texto Lhe chegue como oração: que minhas palavras sejam fonte de conforto à minha amiga querida. E que aprendamos com as perdas, a dar valor à vida, e aos tantos ganhos que temos com ela!


Descanse em paz, Dolores! Hoje o céu ganhou mais uma estrelinha...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

É greve


Escola vazia é espaço sem alegria.

Fiquei pensando nessa frase, tentando inventar um poema. Não consegui. Corri para cá, para o meu diário virtual, para a minha Remmington-22-revestida-de-notebook. Impressionante como é automática essa vontade que me dá de chorar quando abro o note para escrever. Ouço aquele estalo da tampa da minha Remmington. Rapidamente, escuto o murmúrio das letras enfileiradas: “O que será que ela tem para hoje?”

As letras do teclado me sorriem, como me sorriam as da Remmington. Como me sorria o alfabeto inteiro quando o diário era de papel. Letras e teclas gostam de sua funcionalidade. Não estão ali para serem desprezadas. Querem dançar, querem gritar, querem sorrir e chorar junto com a gente, expressar emoções. Ficam aflitas, às vezes, e é por isso que às vezes, também, as palavras nos faltam na hora de escrever... Letras e palavras são emoção pura, em nada diferem de nós.

Nada vale um sofá no canto da sala, sem uso. Como tem pouco valor a roupa que não se usa, a jóia guardada na gaveta, a lingerie que aguarda o momento que nunca chega. Funcionalidade é tudo!

Escola vazia é espaço sem alegria.

Hoje, ter visto o pátio da escola vazio entristeceu meu coração. Eu senti saudade. A escola onde trabalho é enorme, bem parecida com a escola onde estudei, em São Gonçalo. Hoje a escola estava ainda maior, porque vazia. E por uns instantes eu me permiti ter dez anos e estar na escola outra vez...

Daí, lembrei-me de uma porção de coisas!...

Lembrei-me da camisa do uniforme, com sua manga dobrada. Sim, apenas uma das mangas, com duas dobrinhas para cima. Era a “simpatia” infalível para que o professor faltasse.

Lembrei-me das brincadeiras na hora séria (séria?) no hino nacional. Das ousadias em piscar o olho para o amigo ao lado, ou olhar para o amigo de trás, ou fazer careta para a inspetora de alunos, assim que ela me virasse as costas.

Lembrei-me dos dias de prova e da hora da cola. Eu recebia em minha carteira muitas provas de colegas, depois que terminava de fazer a minha. Fazia quatro, cinco provas, temerosa de ser pega em flagrante.

Lembrei-me do único dia em que a professora de Língua Portuguesa me colocou para fora de sala, porque eu estava conversando com uma amiga da carteira ao lado enquanto ela explicava o dever. Aquele foi um dia inesquecível para mim, porque passeei pelo pátio da escola toda praticamente sozinha. Nossa, que escola grande e bonita!

Lembrei-me dos amores que senti pelos meninos, das brincadeiras da hora do recreio, da queimada... Cheguei mesmo a ouvir o sinal tocar! Lembrei-me da quadra – enorme! – onde fazíamos Educação Física. Lembrei-me do quanto eu odiava Educação Física!

Lembrei-me das festinhas de fim de ano, dos longplays, das vitrolinhas, da dança e da tão esperada “música lenta”, oportunidade única de colar o rosto no amado e sentir o coração bater mais forte.

E basta que eu organize o pensamento para alinhá-lo aqui no texto e meu coração já quer apertar novamente: é que naquela sessão nostálgica de olhar o vazio, tudo o que se transformou em saudade no meu peito compôs o currículo oculto da escola por onde passei.

Hoje é dia de greve. Ontem foi dia de conselho de classe. Amanhã será dia de aula e, depois de amanhã, será o dia de se aprovar ou reprovar os alunos. Tudo tem passado tão depressa!

Adultos convivem com crianças neste cotidiano escolar, mas se esquecem de que já foram elas. Tudo o que lembrei em minutos diante de um pátio vazio foi do bom que vivi, e nada me levou a lembranças de sala de aula. Sabe por quê? Porque eu me lembrei da VIDA que vivi dentro daqueles muros, nas quatro horas e meia que passava lá dentro.

Hoje as crianças entram nas salas e encontram seus professores a manusear o celular a cada segundo, para ver se alguns minutos se passaram.

Existe uma VIDA dentro de cada corpo que ocupa uma carteira, um lugar na fila para o hino nacional. Uma VIDA que não está – e faz parte da sua época não estar – lá muito interessada em aprender os conteúdos insignificantes que a escola MORTA insiste em ensinar.

E, no entanto, a escola segue, MORTA, nada funcional, desprezando corpos jovens que gritam: “eu quero VIVER!”

Seguimos MORTOS toda vez que subestimamos nossos alunos, toda vez que os rotulamos, toda vez que declaramos conhecer-lhes os limites. Seguimos MORTOS, arrastados, sempre que desistimos de um aluno, sempre que excluímos, sempre que, com nossas aulas MORTAS, convidamos os alunos a deixarem a sala de aula.

Assim segue a escola, MORTA, paradoxo com os hormônios VIVOS da infância, da juventude e da adolescência.

Meu coração está em greve, esperando a outra greve acabar. Não há música na hora do recreio, não há garfos batendo nos pratos na hora da refeição. Não há o uniforme, o cabelo cheio de creme, as sombras multicoloridas aplicadas nos olhos, os óculos sem armação adornando o rosto e revelando: “eu curto a moda, eu sou jovem, eu sou feliz!”

Tudo o que há é um silêncio horroroso e, no meu caso, no meu coração, uma saudade – que só aumenta! – de tudo o que vivi na escola.

Não existe a escola de ontem e a escola de hoje. Somos todos uma coisa só, porque somos seres humanos, porque estamos vivos, e porque fomos crianças, também. Tivemos aulas boas e ruins, sabíamos a quem respeitar e a quem nos era permitido desrespeitar.

Tudo o que entra VIVO na escola e sai MORTO de lá, carrega consigo a nossa marca. E meu pedido, meu desejo, minha súplica, minha oração, minha utopia é de que um dia sejamos agentes do contrário: de trazer à vida a alma destinada à morte, porque creio ser fundamentalmente esta a função da escola.

Abaixo a greve dos corações!