sábado, 10 de dezembro de 2011

Meu pai que a escola excluiu (Texto de 2005)

(Já faz tempo que escrevo coisas sobre educação, meu "palco" de trabalho... São muitas as aflições... Hoje postei um texto de 2005. Nele falo sobre o meu pai e seus múltiplos saberes que a Escola desprezou. Alguns amigos já o conhecem...)



Na tarde de sábado passado dei um cordãozinho com dois nós na corrente para o meu pai desatar. Quando ele vem me visitar sempre encontra uma lista de coisas para fazer.
Estou aqui me lembrando da figura do meu pai à mesa da cozinha: cabeça baixa, concentrado, com uma agulha nas mãos e o meu cordão. Os dedos grossos mal conseguiam acertar os furinhos da corrente. As mãos trêmulas... Mas meu pai jamais me diria que não conseguiria.
Mãos grossas e unhas pretas. Meu pai foi mecânico. “Médico de carros”, diz ele toda vez que fala sobre o que se tornou quando a Escola lhe negou o sonho de ser médico.
Meu pai repetiu algumas vezes os anos de escola, e ao chegar à quarta série tinha muito o que fazer fora dela. Dono de um Cicle, meu avô precisava também dele para seguir com o trabalho. E a alegria de trabalhar com os irmãos e o pai e de logo aprender o prazer da motocicleta e, depois, do automóvel, não concorreu com a tristeza das notas baixas e dos evidenciados erros de português.
Só que alguma coisa de errado aconteceu nessa história. Foi meu pai quem tudo me ensinou nos meus anos de estudante. Desde aprender a ler e escrever (eu aprendi antes de entrar na escola) até as provas de geografia, física e história. Ah, lembro-me também de que foi ele quem me ensinou os advérbios de tempo, modo, lugar... E se foi por ele que aprendi o malabarismo de não deixar a escola negar os meus sonhos, como pode ele não ter chegado lá?
Eu acredito que, como diz Victor Paro, nós aprendemos apesar da escola, e não por causa dela. Meu pai hoje é um senhor de setenta e um anos. Inteligente, educado, íntegro, justo, honesto. Dono de valores que não aprendeu na escola e vejo muito pouco, hoje, a escola ensinar. Escreveu algumas palavras de forma errada. Desrespeitou alguns sinais de pontuação. Talvez não tenha respondido a tabuada na ponta da língua. E, por isso, recebeu da escola o pior castigo: a exclusão. Até hoje meu pai se lamenta de não ter seguido os estudos. Culpa-se.
Não sabe o meu pai o quanto é superior a tantos de nós, educadores, graduados. O quanto já era superior aos seus próprios professores. Tão menino e profundo conhecedor das traquinagens das bicicletas, motocicletas, automóveis. Meu pai sabe tudo: pinta, desenha, planta, canta, constrói, cozinha, costura, conserta, dirige. E sua escola não se curvou aos seus saberes. Muito pelo contrário: esticou-se tanto, tanto, que ele não conseguiu alcançá-la.
Alguns dirão: “pobre desse homem”. Pois insisto em dizer: pobre da escola de ontem que deixou nossos pais, avós e bisavós sem aquele maldito papel que legitima o saber que ela pensa que detém enquanto renega os muitos, tantos de seus educandos. E infinitas vezes mais pobre da escola de hoje, que ainda o faz.
Voltando à cena do cordão, depois de alguns minutos meu pai o entregou pra mim. Os nós? Desfeitos, revelando mais uma de suas tão desprezadas habilidades.

8 comentários:

  1. Atenção, Pedagogos! Este texto é um prato cheio p Orientação Pedagógica, já usei nas duas escolas q trabalhava na época e foi muito bom, proporcionou uma rica discussão sobre a real função da escola. Karlota, meu favorito este... rs AdOOOOro! rs

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  2. Parece que vejo meu pai nas suas palavras,,esse texto me comoveu muito,,parabéns..

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  3. muito bom mesmo para repensar na educação que damos e adquirimos !

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  4. O seu texto, a história de seu pai levanta a questão importante que ultimamente é muito falada, porém com pouca efetividade, a função social da escola. A escola brasileira precisa se ressignificar, se humanizar, para não excluir tantas pessoas, romper tantas histórias e sonhos...

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    1. Pois é, Ananda. E o pior é que o tempo está passando e percebo que em poucos anos meu filho Antônio estará comparando a escola dele com a minha e concluindo o pouco que mudou. Uma lástima! Obrigada por sua visita!

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  5. Me fez lembrar de meus avós, pouca formação e muita sabedoria. Grande parte do que sou devo a eles.

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