quarta-feira, 16 de abril de 2014

Trinta anos


Trinta anos separados. Até que se reencontram. E cada um tem, de repente, trinta anos a menos, pelo menos por um dia...

Em trinta anos, ficaram adultos. Agora têm em seus rostos, além das marcas das espinhas da adolescência, rugas: viveram! Trazem os olhos cansados – já viram tanta coisa nesta vida! – e auxiliados, agora, por lentes de óculos que jamais pensaram em usar. Muitos cabelos brancos apareceram, embora ela ainda os disfarce numa tinta amarronzada.

Um casal de amigos. Muito amigos. E que só sabem que sempre o foram agora que a maturidade lhes permite saberes que não possuíam há trinta anos...

Um dia, depois de alguns anos dividindo brincadeiras, apelidos e boladas na hora do recreio, o destino os separou: era chegada a hora do “segundo grau”. Fizeram escolhas diferentes, um sem saber do outro. Tomaram rumos diferentes. No fim daquele ano ela recebeu dele, pelos Correios,  uma fita K7 com canções gravadas e um cartãozinho de Natal, com confidências de carinho. Ela riu. Jamais se esqueceu: “Alguém disse que te ama, adivinha quem fui?

Nunca mais se viram. Nunca mais se falaram. E trinta anos se passaram.

Trinta anos levaram embora uma menina sonhadora e um menino pra lá de tímido. Ele cresceu, conheceu o amor, casou-se. Ela cresceu, conheceu o amor, casou-se. Respeitando a ordem natural das coisas, tiveram filhos. Lindos filhos!

Enquanto deixavam de ser adolescentes e se tornavam adultos, Deus foi realizando Sua obra. Deu-lhes talentos afins: a poesia, a fotografia, a música, o romantismo, a fé. Deus desenhou naqueles dois o rascunho de almas boas, generosas, caridosas, fiéis.

Enquanto deixavam de ser adolescentes e se tornavam adultos, o homem aprimorou a robótica e a cibernética. E um belo dia, trinta anos depois de um histórico escolar separar os dois amigos, a Internet os encontrou – ou eles encontraram a Internet – e eles encontraram-se, um ao outro.

As emoções se sobrepõem ao tempo. No primeiro (re)encontro, os treze anos de volta. E, diante do espelho que revela a verdadeira idade, aquela saudade de tudo o que foi vivido!...

Trinta anos não são nada quando o adeus não é dito.

E hoje, gratos a Deus pela Inteligência do homem, de vez em quando os dois amigos trocam seu “bom dia”. De vez em quando um ajuda o outro, um socorre o outro, e muito mais vezes um se alegra com a alegria do outro.

Talvez um dia o reencontro presencial se dê. E o abraço aconteça. O abraço que nunca existiu, posto que, crianças, nunca deram importância a isto. Crianças e adolescentes não sabem a falta que um abraço faz. Enquanto este dia não chega, conforto-me com sua voz em gravações que tenho, com suas palavras de carinho. Vamos acompanhando, um ao outro, através do “Sr. Google”, este que, se bem utilizado, pode aproximar tantos destinos que se perderam!...

Cada vez que estou com ele, sou uma menina. Do outro lado, sua foto no “chat” me revela o garoto. Que é o tempo, afinal? Este senhor das horas que reduz nosso prazer no banho, nosso sonho na cama, nossa viagem no carro, nossa alegria na vida se, diante de uma emoção que se sente, é capaz de parar por trinta anos?

Bem-vindo à minha vida virtual, querido amigo! Poetas que somos – você infinitamente melhor do que eu – fomos agraciados com o dom de não temer o vibrar do relógio. E não me resta dúvida de que nossa afinidade em perceber essência em coisas que a maioria das pessoas despreza, faz-nos sentir o calor do abraço, ainda que estejamos geograficamente tão distantes!

Hoje meu texto é pra você.


4 comentários:

  1. "Trinta anos não são nada quando o adeus não é dito." Precisa falar mais alguma coisa, menina Karla? Sempre lindos seus textos.
    san

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    1. Honrada pela visita, San! Obrigada!
      Às vezes acho que o tempo se mede pelas palavras que professamos...

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  2. Só consegui ler esse último texto do blog, mas depois vou dar uma olhada melhor. Adorei o texto e mais ainda a música. Vou seguir ^^

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    1. Muito obrigada, Samanta! Que bom que gostou!!! :)

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