domingo, 1 de abril de 2012

Perdoar é para os fortes

(Qual é o mais nobre dos sentimentos, o amor ou o perdão? Diante do que tenho vivido, tenho tido dúvidas em responder a esta pergunta... Ela perdoou enquanto eu, humanamente fraca, julgava.)

Ela não foi feliz em seu primeiro casamento. Ficou um pouco mais de três anos ao lado de um marido que acreditava amar. Viveu sozinha este tempo. Queria ter filhos, ele achava melhor esperar. O casamento acabou – se é que começou algum dia – quando estavam começando a construção da casa nova, tentativa falha de salvar a união.
O motivo, uma vergonha: ele estava roubando toda a família. Calado, tímido, de poucas expressões, morou com os pais dela enquanto a obra acontecia. E, tentado pelas forças do mal, desejou facilitar as coisas usando o dinheiro da sogra, do sogro e da cunhada.
Saiu de casa numa manhã, depois que a armadilha o pegou: dinheiro no bolso da calça pendurada atrás da porta do banheiro, posto propositadamente, como queijo em ratoeira. Não houve como explicar (que diria o rato?). Tomou seu rumo, deixando para trás uma família destruída.
A família se refaria. E ela? Viu ir embora aquele a quem dedicou seus melhores anos, seu rubor da juventude, a quem prometeu amar sob todas as condições. Sentou-se na varanda, um caco de mulher. Olhou pro alto: lá estava a outra metade da casa, esperando o término da obra.
Ela tinha uns trinta anos nesta época. Trabalhava fora para ajudar nas despesas da casa, para ajudar na compra dos tijolos... Apavorada em ver a casa pela metade e o rastro sujo do adeus do seu agora ex-marido olhou o relógio com os olhos ainda marejados. Percebeu que já estava atrasada para o trabalho. Não havia como dizer ao patrão o que realmente ocorrera. E foi-se. Trabalhou naquele dia com afinco. Recebeu hora-extra por isso. E assim seguiu, trabalhando, trabalhando, trabalhando, enquanto o coração cicatrizava e a obra da casa chegava ao fim.
Foi tudo preparado, naquela casa nova: ela chegou aos acabamentos, forte mulher descoberta de onde já não mais se enxergava nada. Pôs os azulejos, louças, cores, móveis, e deixou a casa dos pais para viver só. Fez tudo isto sozinha, fazendo jus à genética que lhe foi atribuída por Deus ao nascer de pais que do pouco que tiveram produziram o muito. Corajosa! Batalhadora!
Experimentou por pouco tempo viver sozinha naquela casa. Conheceu um novo amor, desta vez bem diferente daquele que mais pareceu ilusão, confusão. Casou-se de novo. E encheu seu coração de esperanças novamente. Quis ter filhos. E, treze anos depois do primeiro desejo de ser mãe, Deus a abençoou com um lindo menino!
Pronto. Sua vida agora se resumia numa única palavra: realização. Com a chegada do menino, a decisão de parar de trabalhar para criar o filho.
Durante cinco anos foi isto o que ela fez: criou aquele menino como ninguém. Em pleno século XXI foi dona de casa e mãe, viu os quarenta anos baterem à sua porta e os recebeu de braços abertos. Mas as coisas foram mudando, e ela sequer percebeu.
A ausência do marido, cada vez maior, e sempre justificada pelo excesso de trabalho, trazia-lhe culpa, em vez de desconfiança. Muitas contas para serem pagas ao final do mês por uma única pessoa da família. Este pensamento lhe bastava para compreender e aceitar a solidão que se tornava mais e mais companheira sem que ela se desse conta de que as coisas poderiam não ser bem assim.
Com o tempo, a presença do marido em casa passou a representar mais discórdia. Impaciência, inclusive, com o filho que o solicitava insistentemente, até para compensar a saudade. Dali para as brigas, um passo. Das brigas para a rua, outro. E ela começou a sofrer uma verdade que lhe aparecia diante dos olhos: o casamento estava condenado.
Um dia, ao abrir, sem querer, uma mensagem no celular dele, o desespero: um texto revelava com escrachada intimidade a existência de outra pessoa na vida daquele homem a quem tanto amava! Ainda desnorteada, antes que pudesse devolver o celular a ele, anotou o número remetente.
Aquela noite ela passou acordada. O incômodo dos pensamentos não a deixou pregar os olhos. Não havia mais o que fazer, senão procurar pela verdade daquilo que acontecera. E foi o que fez logo na manhã seguinte, quando seu marido deixou a casa para trabalhar.
Ela procurou um telefone público e discou, com dedos trêmulos, o número remetente da mensagem. E numa conversa difícil, sofrida e solitária, sentiu o chão faltar-lhe aos pés: do outro lado da linha, a “namorada” do seu marido. Sem querer acreditar foi ouvindo, ainda que não pedisse, os detalhes de um namoro “sério”, de quase dois anos. Soube de tudo, inclusive, do filho que tinham, um menino de quase um ano de idade.
Talvez o sol tenha nascido e se posto enquanto ela falava ao telefone. Esta lhe era a sensação. Quem pôs o fone no gancho foi um arremedo de mulher. Um farrapo, um lixo. Daquilo tudo que se espalhara pelo chão quando da conversa desgraçada nada restara. Juntou os cacos com a pouca força que tinha. E preparou-se para dizer adeus àquele homem.
Foi o que fez, quando o dia passou e ele voltou do trabalho. Surpreendou-no ao fazer suas malas e pôr um fim ao casamento.
No dia seguinte, acordou, porque tinha que acordar. Não porque quisesse. E assim viveu algum tempo, porque tinha que viver. Mas Deus não lhe privou a genética e, com o tempo – precioso remédio! – ela foi redescobrindo a força que tinha. E trabalhou, trabalhou, trabalhou para pagar as contas que venciam no final do mês, a despeito do inferno pelo qual passava. Diante de muitas portas fechadas e da dificuldade de conseguir emprego com mais de quarenta anos e com um filho pequeno, optou por vender roupas. Encheu algumas pesadas sacolas e, carregando-as nos braços, bateu de porta em porta até encontrar clientes. Pagou dívidas, se recompôs. Criou seu filho, ficou sozinha. E, em nenhum momento, deixou de amar aquele homem. Fez das dores seu escudo, sua escora. Afastou-se dele. Mas nunca deixou de amá-lo.
O “namoro” responsável pelo fim do casamento não durou muito tempo.
O amor dela por ele permaneceu intacto. Magoado, arranjou um cantinho aconchegante no seu coração para doer. E o tempo passou.
Hoje recebi a notícia de que eles vão viver juntos, novamente. Ela o perdoou.
Perdoar é para os fortes. Descobri que sou fraca, indigna do amor de Deus. Porque estive todo este tempo julgando, enquanto Deus a abençoava com o poder do perdão. Sim, acredito que quando Deus concede o dom de perdoar a alguém, está lhe abençoando de maneira especial. Porque, para além de esquecer, perdoar é lembrar sem mágoa. Perdoar é amar. E quem ama a ponto de perdoar merece, na mesma medida, o amor de Deus.
Eu desejo vida nova ao casal, nestes tempos de Páscoa! E peço a Deus que não se esqueça de mim, deste pedaço de gente ainda não aprendeu a perdoar. Talvez eu tenha mesmo é que aprender a amar, porque só quem conhece o amor de verdade é capaz de entender o valor de um perdão.

5 comentários:

  1. Lindo texto, abençoado com lágrimas.
    Vida nova e longa ao casal!

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  2. Achei lindo!!!! O perdão é uma dádiva divina.

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  3. Lindo texto...que sejam felizes!!Perdoar não é tão fácil,mas é possível!!É o imenso amor de Deus por nós!

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