segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Confissão sob encomenda


Ela encomendou-me este texto: quer lhe confessar que está apaixonada.
Não sabe como fazer. Não há mais a beleza do viço iluminando-lhe a pele, já passou dos quarenta anos. Mas por estes dias deu-se conta de que só pode ser amor o que está sentindo. E é por você. Sem saber como lidar com este sentimento que desconhece idades pediu-me que rascunhasse algumas coisas, que traduzisse para o código da escrita tudo o que pulsa em seu coração.
Bem, vamos lá. Mudou o perfume. Numa das conversas informais nas horas de descanso do trabalho percebeu que você gosta dos aromas doces. Agora desfila perfumada, tentando acostumar-se com o próprio cheiro. É estranho mudar. E foi tão radicalmente! Sua preferência sempre foi pelos cítricos...
Tem passado com maior frequência diante da porta da sua sala. Mas não sabe se está sendo notada...
Anota cada roupa que veste, diariamente. Porque faz questão de observar suas reações. Sublinha de vermelho aquelas com as quais se vestiu e arrancou de você alguns elogios. Concluiu que você gosta mais quando ela usa vestido. E agora não quer mais saber de comprar calças compridas...
Já gravou no pen drive suas músicas preferidas. E, confessa, não é coincidência, não. Prestou atenção no que você ouve enquanto trabalha e passou a deixar plugado o objeto no seu computador. Até que tem a ver com o gosto dela, felizmente. Sendo assim, ficou fácil puxar conversa – e esticá-la, esticá-la – elogiando a voz de Marisa Monte, o ritmo de Zeca Baleiro, o violão do Vercillo...
Ela está apaixonada por você.
Todos os dias chega ao trabalho bem cedo. Quer estar lá, já, quando da sua chegada. Quer recebê-lo com o melhor sorriso. Tem ensaiado vários sorrisos no espelho, em casa, depois que escova os dentes. Tenta que seja simpático, sem ser banal. Experimenta um ar de sensualidade. Desiste, temendo parecer vulgar. Ela já passou dos quarenta...
O coração a mil por hora reage prontamente ao ouvir seus passos na escada. E quando você entra, nenhum daqueles sorrisos ensaiados acontece. O que há lá é uma desgraça de um sorriso sem jeito. Em resposta ao seu “bom dia!”, um bom dia aprisionado não se sabe se pela timidez ou pelos aparelhos ortodônticos. Sim, ela usa.
Então, a encomenda: pediu-me que viesse até a tela revelar a você que o ama. Ama desde que o viu andar pelos corredores do prédio procurando a sala onde trabalharia. Ama desde que, ao se apresentarem um ao outro, percebeu que você tinha as mãos macias. Ama.
Foi para casa naquele dia em que conheceu você, pensando em você. Passou do ponto do ônibus. Andou quase um quilômetro para chegar em casa. E tudo o que quis foi tomar um banho gelado e dormir cedo para ver chegar logo o dia seguinte e estar com você novamente.
Estreitados os laços com as conversas no café, passaram a almoçar juntos, também. E aí as semelhanças nos gostos foram incomodando aquela que já não acreditava mais na possibilidade de se ver apaixonada. E ela foi sendo cada vez mais feliz. Que é o amor, senão estado de felicidade?
Hoje está aqui, papagaio de pirata no meu ombro, a falar desesperadamente sobre o que lhe aflige o coração. O que lhe aflige? Uma bênção divina, o maior dos sentimentos: o amor.
Está apaixonada. E eu vim escrever para que você leia que aquilo tudo o que sente aí, no seu coração, por ela, é amor, também, e isto se chama reciprocidade. Vim para que você leia que não deve perder mais tempo com medo de saber se vale a pena investir nesse romance. Ela é sua, assim como você, desde que a conheceu, descobriu-se dela.
Quantos anos vocês tem? Pouco importa. Estão fora da faixa etária dos que se apaixonam? Não sei se isto existe. Sei que há meses que, entre uma fala atrapalhada e outra, a vida os convida pra dançar e vocês perdem esta oportunidade...
Fiz minha parte: eis o texto. Do amor, sempre soube. Só cegos não veriam que é amor o brilho dos olhos, o corado das bochechas, o tremor nas mãos... Tenho mais de quarenta anos e, graças a Deus, reconheço o nobre sentimento, porque amo, também.
Espero aproximá-los com minhas palavras. Mas não posso ir além. Desejo a vocês coragem, porque disto é feita a vida. E quando somos corajosos a vitória é mais curtida. A confissão taí. A vida de vocês também, esperando ser vivida.
Ela está apaixonada. Você também. Vamos tratar de viver?

2 comentários:

  1. Nossa lindo! Daqui há um tempo vc poderá escrever um livro "Memórias da Karla", muito bonita a forma que utiliza as palavras!

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    1. Obrigada, Lívia! Passe por aqui sempre que quiser!

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