sábado, 26 de maio de 2012

Léo

(É uma história que todo mundo conhece. Uma história triste, que envergonha o lado bom da nossa classe. Mas ele existe. E quando vocês lerem, lembrarão dele, com este nome, ou com outro nome qualquer.)


Nunca foi bom aluno. Sempre insistiu em sentar-se no final da sala de aula, naquele local que chamam de cozinha. Cadernos mal cuidados – muitas folhas arrancadas! – tarefas copiadas pela metade, mochila bagunçada, suja por ser atirada em qualquer canto.
Teve algumas suspensões na escola: debochado, chegou até a xingar uns professores que achava “chatos”.
Mas Léo era bom em Geografia. Nada de estudar e, no entanto, sempre tirava notas boas nas provas. Colecionou algumas repetências ao longo do Fundamental, nunca nesta matéria. Pelo contrário! Suas notas eram as melhores da turma. Foi sempre assim, e Léo nem sabe por quê.
Quando terminou o Ensino Médio, já atrasado, aos vinte anos de idade, Léo não sabia o que fazer da vida. Nunca trabalhara, mas agora era preciso decidir entre trabalhar ou ingressar na Faculdade. Tinha sido assim a conversa com seus pais no fim do ano. Uns dias de descanso no quarto, pouca reflexão e a decisão tomada e informada aos pais: optou por cursar a Faculdade.
Léo passou alguns dias jogado pelos sofás da sala, pensando que carreira seguir, a que se dedicar... Nenhuma das profissões lhe apetecia...  Até que uma ideia lhe veio à cabeça: “Acho que vou fazer Faculdade de Geografia... Sou bom nisto... Tirava notas boas na escola... Já é!”
Quatro anos de Faculdade de Geografia. Léo matou as aulas que pôde, copiou trabalhos no “Google”, trocou alguns favores como caronas pros amigos por ter o nome acrescentado em trabalhos de grupo. E, com 75% de frequência – contados nas pontas dos dedos – conseguiu receber seu diploma, depois de pagar para alguém escrever sua monografia. Ele a defendeu, Léo não tinha problemas com a disciplina.
Formado, teve que trabalhar, não havia mais jeito. E, por coincidência, naquele ano foram abertas as inscrições para o concurso público de sua cidade. Orientado pelos pais, fez sua inscrição, para que se tornasse um servidor público, para que tivesse estabilidade no emprego...
A prova foi num domingo, e Léo havia saído no sábado com seus amigos. Balada. Chegou ao local da prova de óculos escuros. Marcou o que enxergou. E uma hora depois saiu. Foi dormir, estava exausto.
Léo foi aprovado no concurso: 74º lugar. “Melhor que não passar”, disseram-lhe os pais.
Desempregado durante todo este tempo, dois anos depois Léo recebeu a informação, via facebook, de que estava sendo chamado para apresentar-se na Prefeitura Municipal: chegara sua vez de assumir a matrícula de Professor de Geografia, devido a muitas desistências...
Com a roupa um pouco mais ajeitada e documentos nas mãos, Léo tomou posse do cargo, escolheu a escola de lotação, e iniciou sua vida profissional.
No primeiro dia de aula percebeu que aquilo ali não tinha absolutamente nada a ver com ele: um bocado de garotos e garotas enjoados (eram turmas de 6º ano de escolaridade), insuportáveis, chamando ele de “tio” toda hora, pegajosos... Outra parte rebelde, debochada, delinquente... Léo não teve dúvida: pôs uns seis alunos para fora de sala (lembrou de sua época de escola), tirou pontos de mais uns quatro e começou a “dar aulas” de Geografia, depois que garantiu o silêncio absoluto.
Todas as vezes – as muitas! – em que Léo pensava em largar a profissão lembrava-se do seu salário. E desistia, depois de concluir que seria impossível ganhar R$ 1.300,00 tentando outro emprego. Onde? Fazendo o quê? Então, resolveu contar as semanas para o dia do pagamento. Aturou os alunos, fez o básico do que podia e, de quatro em quatro aulas viu a semana passar e, de quatro em quatro semanas o dinheiro entrar na conta do banco. Simples assim!
Dois meses depois de ter começado a trabalhar na escola um colega foi chamado num concurso de outra cidade e precisou exonerar-se. Surgiu, então, a possibilidade de Léo “dobrar”. Ele não titubeou, e passou a ter um salário mais confortável. Agora era só contar de oito em oito, ao invés de quatro.
Um ano antes de terminar seu estágio probatório Léo cursou Pós-Graduação em Gestão Escolar. Garantido o enquadramento (o estágio foi avaliado pela diretora, que então era sua namorada), comprou seu primeiro carro zero. O aumento no piso salarial pagava as prestações. Léo nunca mais deixou de dobrar como professor. E, fazendo amigos na sala dos professores, conseguiu também um contrato na cidade vizinha. Começou a trabalhar à noite. Coisa mais fácil: Léo assinava uma frequência de 18h às 22h, mas nunca deixou a escola depois das 20h.
Ele agora tem carro zero, uma poupança legal e, com o terceiro vínculo começava a avistar a possibilidade de tentar um empréstimo na Caixa Econômica para comprar um apê...
Daqui a alguns anos Léo terá mais de quarenta anos e estará esperando a aposentadoria chegar. Até lá, pensa até na possibilidade de ser Diretor, já que sua Pós lhe permite: uma gratificaçãozinha qualquer, além do “presente” de sair de sala de aula...
Eu conheço muitos Léos. E eles me dão vergonha... Seguem na linha contrária a dos meus pensamentos de educadora. Fazem o que não gostam. E abusam da paciência dos seus alunos, que são os que mais sofrem com a decisão errada que eles tomaram há alguns anos atrás.
Mas para onde iriam esses tantos Léos, se tivessem a coragem, a honradez de deixar o ofício de professor? Onde trabalhariam para receber mais de três mil reais por mês, com direito a fins de semana na praia, feriados, recessos, pausas no mês de julho, festas de fim de ano e um janeiro inteirinho para descansarem? Onde trabalhariam mal sem serem punidos? Onde poderiam ser péssimos ao realizarem suas funções, sem perderem a estabilidade profissional?
Não há lugar para Léos e afins no mercado de trabalho privado. O único lugar que acolhe este tipo de gente é o serviço público. E pessoas deste calibre me causam nojo, porque imprimem suas marcas desmerecendo o pobre coitado do educador que hoje ainda quer trabalhar, fazer o seu melhor.
Somos ainda maioria, eu creio. Apesar dos Léos da vida. Difícil é sair da sombra onde eles teimam em nos esconder com suas atitudes anti-cidadãs. Que Deus nos envie luz, para possamos ser notados. Que os valores que defendemos não sejam subestimados diante dos valores que os Léos da vida e seus BBB’s pregam. Que sejamos lembrados como bons professores que fomos, pelo respeito ao dinheiro público e por fazermos o certo. E que quando chegar a hora de nos recolhermos para dar a vez à juventude que nos substitui, haja um povo novo – inteligente e competente! – esperando ser chamado na lista dos aprovados nos concursos públicos.

9 comentários:

  1. Super repúdio aos "Léos"do cotidiano...que infelizmente são em número expressivamente alto e nogento...eis-me aqui Aretha,filha da Professora Edna,neta da Professora Diva, e que posso afirmar que meus alunos sempre tiveram o meu melhor,sempre,sou professora por dom e escolha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Somos maioria ainda, eu creio! Obrigada, Aretha!

      Excluir
  2. Parabéns pela ousadia na denúncia! Sejam Leós ou Marias, há pessoas que realmente não deveriam jogar no time da educação. Só fazem gol contra! E digo mais, a semente do mal cultivada por profissionais assim desestimula até os colegas que conhecem em assumem seu papel político com honradez. Triste, quando Léos e Marias não honram suas tarefas e deixam todo o peso para os colegas da próxima aula. Colegas que levam "vinte minutos" para convencerem que eles querem realmente alguma coisa, que o professor da sala agora é outro e que estão aí para fazer seu papel de educador e não meros contadores de minutos para o início do recreio. Será que "todos" os alunos não querem nada? Há alunos e professores que querem e isso precisa ser resgatado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quero morrer acreditando que os que querem alguma coisa -alunos e professores - são maioria! Resta-me denunciar, desabafar, alertar, compartilhar...

      Excluir
  3. Parabéns pelo texto e pela reflexão!!! Infelizmente, é uma triste realidade!!! Como vc disse, os "Léos" não representam a maioria!!! Que bom saber que ainda temos profissionais sérios e comprometidos com a Educação!!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Temos sim, graças a Deus! Obrigada pelos elogios... Estou encontrando pérolas no meio desse lixo onde os Léos estão. Procura minuciosa, mas feliz!

      Excluir
  4. Karla, minha amiga,
    tantos 'Léos' a nos envergonhar e para cada um mil outros diferentes surgirão.
    Com esses "Léos" temos que buscar respaldos até no senso comum. E dos mais simplórios que existam, tipo "água mole em pedra dura...".
    Parabéns mais uma vez. A propósito, permita-me um 'puxão de orelhas' em você, dizendo-lhe o seguinte: você é uma escritora extremamente 'venenosa', visto que adora brincar de palavra puxa palavra ou de texto puxa texto. Melhor afirmar (cabe mais para a bela mulher que você é), que você é igual a uma sereia, pois tem um 'canto' mavioso que nos leva para o fundo da leitura. Que bom que seja assim e que você não pare nunca, para o nosso deleite!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  5. O pior é quem paga por tudo isso somos nós mesmos que vamos ter alunos revoltados batendo em nossas portas, muitas vezes como delinquentes que a sociedade não soube acolher. Lamento e, apesar da esperança que ainda insiste em me fazer seguir à frente, venho me sentindo cansado de acreditar em um sistema sócio econômico que insiste em destruir seus próprios cidadãos. Basta!
    João Carvalho Neto

    ResponderExcluir