sábado, 16 de junho de 2012

Dia, noite, dia

(Todo mundo tem um calendário em casa, no trabalho... Calendários marcam os dias que passaram, que estão por vir... Assim nossa vida segue. Observamos mecanicamente os calendários, mas pouco pensamos no real valor dos dias...)


Calendários marcam datas. Geralmente padronizados, ficam expostos nas mesas, paredes e geladeiras, alertando naquele quadrado lógico de numerais que estamos vivendo mais um dia...
Calendários são objetos frios. Fazem sua parte. E, por serem tão extremamente necessários, acabam por tornarem-se imperceptíveis em sua grandeza maior...
O que há de grande naquele seu calendário (você tem um, não?) é o registro da vida. E nem nos damos conta disto!
Uma vez conversei com uma pessoa que me apresentou um novo modo de ver a vida: ela me disse que dias e noites são acionados por um interruptor que Deus tem lá no céu. Sim, esta pessoa não acreditava no movimento de rotação da Terra, mas, sim, num movimento mecânico de Deus, diante de um interruptor: bastava que o tocasse, era dia. Repetir a ação era providenciar a chegada da noite, e assim por diante...
Foi estranho ouvir aquela defesa... Prefiro acreditar no que meus Professores me disseram, naquilo que também eu disse a meus alunos durante muitos anos. Usei muitas laranjas, lanternas e bolinhas de isopor para provar que a Terra gira em torno de si mesma e do Sol...
Mas seria pecado negar que, às vezes, durmo pensando nisto: Um interruptor...
Isto explicaria de forma mais convincente a rapidez como arrancamos as folhas dos nossos calendários... Meu Deus, ainda ontem era o mês de maio! Ainda ontem a janelinha de Antônio apareceu! Ainda ontem carreguei Miguel nos braços, pela primeira vez, quando minha irmã deixou a maternidade! Ainda ontem conheci o amor! Ainda ontem era criança, a calcular a idade que teria quando o ano de dois mil chegasse...
É, estamos vivendo. E independentemente se pensamos na ação mecânica ou física da coisa, o fato é que o tempo se vai com cada dia ou cada noite que chega e pouco nos damos conta disto. Talvez até nos demos conta, mas será que damos a importância devida?
Os minutos que se passaram entre eu ligar o notebook e chegar a este parágrafo não voltam mais. Que outras ações poderia eu ter realizado em vez disto? Perdi um amigo em 1985, assassinado. E até hoje lamento os minutos que precederam ao fim de sua vida. Tudo bem, Deus sabe a hora de cada um estar com Ele, prestar contas do tempo passado aqui na Terra, mas é impossível um ser humano – ainda que temente a Deus – não pensar no que poderia ter acontecido se, minutos antes, algo tivesse sido diferente.
Segundos modificam vidas. Faltar oxigênio no momento de um parto, esforçar-se sobremaneira à beira de um campeonato, dizer sim ou não... Imagine dias, meses, um calendário inteiro?
Viver é uma bênção, não me canso de dizer. E o que fazemos quando, abrindo os olhos pela manhã, recebemos o presente de Deus que é o convite pra viver? Quando acordo Antônio, sempre digo a ele assim: “Bora acordar, e viver o dia de hoje?” Tento fazer com que ele perceba que cada dia tem o seu propósito e, com isto, fazer com que ele valorize seus minutos.
Crianças sabem viver muito melhor que nós, é fato. Dão a importância real aos fatos mais sublimes da natureza, eu já escrevi sobre isto antes. Antônio me acompanha nas façanhas por uma foto da coruja que mora aqui perto de casa. Quando passamos à noite pela rua vem com a cabeça para fora da janela do carro espiando, procurando por ela, e basta observar a expressão de seu rosto para ver-lhe a alegria: olhos iluminados pela lua, cara séria. Quando a vê, fala baixo: “Mãe, olha ela ali!”, e seguimos, parceiros, em busca do ângulo, quietos para não sermos percebidos, tentando a foto, mais uma vez. Ainda não conseguimos a ideal, a coruja é indubitavelmente mais esperta que a dupla aqui.
O que me importa é que Antônio cresça valorizando atitudes como estas. Basta. Estou no caminho, espero. Porque se meu filho passar os dias que o seu calendário lhe apresentar buscando o melhor ângulo pra ver as coisas lindas da natureza, já estarei satisfeita em minha velhice. É, até porque calendários seguem simultâneos, não nos permitem viver o mesmo tempo que os filhos. Segue, Antônio, eu deixo você passar...
Dia, noite, dia... E lá vai a vida e o que nós vamos fazendo com ela... Ações geram consequências, e um dia nos vemos respondendo por tudo aquilo que fizemos. Às vezes, é imediato. Às vezes, demora tanto que chegamos a pensar que Deus deve ter esquecido. Que nada!
Minhas reflexões vão aumentando, agora, à beira de soprar as quarenta e quatro velinhas... É certo que nesta época ficamos mais melancólicos, pensativos, mas não será também esta uma intenção de Deus? Mais um ano nos foi dado, e o que fizemos com ele? Quantos mais teremos pela frente? E, tendo mais alguns – a gente sempre espera que muitos! – a viver, o que pretendemos, verdadeiramente? Afinal, os que ainda vêm nos modificam. Ficamos mais experientes – sábios, até, os que aproveitam a vida! – mas os ânimos já não são os mesmos, a nossa condição física já limita o que nos provoca o viajar dos pensamentos...
Até que um dia (noite, dia, noite, dia) nos daremos conta de que não há muito mais por onde caminhar. Quem tem crianças por perto percebe isto tão logicamente que chega até parecer cruel! Quero escrever sobre o sabor das últimas jabuticabas na tigela – texto lindo do meu lindo Rubem Alves, mas quero deixar para fazê-lo no dia do meu aniversário. Por enquanto, quero deixar como mensagem este meu pensamento de hoje.
Quando eu terminar de escrever este texto, o dia terá findado, também. Deus vai completar a volta da Terra, ou mexer no interruptor, mas verei a noite se anunciando... Esta é uma hora linda de se observar o céu: há sol e lua, nuvens, e umas estrelas atrevidas que já brilham antes das outras...
É lindo ver o céu! Lindo ouvir o canto das andorinhas voltando para as árvores (eu queria poder fotografar o canto das andorinhas nos finais das tardes!), lindo ver a lua surgir do mar, pastilha amarela, imitando o sol, confundindo a gente, que se perde no tempo!
Talvez não haja preferência de Deus pelo dia ou pela noite. Acho que Ele dá preferência pelo que fazemos com as vinte e quatro horas que nos são oferecidas quando riscamos a lápis, no calendário, o dia que se foi. E meu desejo pra hoje é que pensemos na valia de cada minuto, no tanto que ele pode definir o que será do próximo.
Enquanto festejo as páginas que viro no livro da minha vida com Antônio, cedo a ele o monte de páginas em branco que lhe esperam, e conto as poucas que me restam. Não há mais o que agendar para “bem depois” no meu calendário. Preciso tornar algumas coisas mais urgentes, sinalizar com marcador de texto na agenda: “fazer hoje!”, “fazer agora!”... Porque não sei como está a minha situação lá, no calendário de Deus...
Hoje liguei pra casa (pra casa... pra minha verdadeira casa, eterna casa, a casa deles) e convidei meus pais para virem almoçar comigo no dia do meu aniversário. E, diante da possibilidade de tê-los aqui na quarta-feira mesmo (o dia) ou no fim de semana, não hesitei em optar pela quarta. Agora, você já sabe o segredo...
Previsivelmente, a tarde chegou agora. Linda, como eu gosto de assistir. Uma prova de que nem tudo o que escrevo é loucura. Uma prova de que Deus existe. Espero que de lá de cima Ele esteja orgulhoso dos minutos que usei organizando estas palavras.  E que abençoe a cada um que, da mesma forma, optou por gastar os seus lendo isto que acabei de escrever.

4 comentários:

  1. :) Como sou suspeita, não posso falar nada... rsrsrsr

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    1. Então, nada fale. Obrigada pela presença!

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  2. Ah... minha amiga! Eu recebo essa bênção deixada por ti no texto. Recebo cada palavra aqui postada. Nesse período que o nosso calendário corre juntinho, como não me emocionar com essas palavras? Sinto-me nas partilhas no carro - Iguaba/Cabo Frio e vice-versa. Percebo meu calendário correndo veloz e alegro-me com esse texto alerta. E tem mais, obrigada por partilhar o segredo. "Tamu junto""

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    1. Se você o recebeu como bênção, fui abençoada, também... "Tamo junto!"

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