segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Aquilo que agrada a Deus

(Porque eu voltei da Procissão pensando em escrever, sem saber que hoje é o Dia do Combate à Intolerância Religiosa...)


Eram muitos jovens, muitos! Donos daquela alegria peculiar à geração. Pulavam, cantavam, dançavam, brincavam e contagiavam a todos os que os assistiam. Era dia de procissão.

Meus olhos encheram-se de lágrimas logo no primeiro cântico. Eu adoro música, adoro coros, fiquei extasiada ao ouvir aquilo: músicas que, num canto uníssono que saía de tanta gente, louvavam a Deus. Louvavam pela vida, pelo amor, pela paz...

Sim, era uma procissão, eu sou católica. Mas não vim até aqui para escrever como que defendendo minha religião. Não, eu não havia pensado nisto, nem mesmo ontem, quando cheguei em casa empolgada por viver e testemunhar o tanto que um Deus Vivo fez, faz e fará – eu creio – na minha vida! Ontem mesmo, no caminho, vim pensando no Amor que se propaga quando se sai pela rua aplaudindo Jesus Cristo! E confortou meu coração ver tantos jovens, um sinal, para mim, de que o mundo ainda dará infinitas voltas, o sol nascerá infinitas vezes, e infinitas chances serão dadas ao homem de melhorar, para ser feliz.

Antônio foi comigo. Caminhou bastante. Observou os adolescentes, com expressão de felicidade. De vez em quando me olhava e percebia minha emoção, a despeito das lentes grossas dos meus novos óculos. Ele já sabe, eu não preciso explicar. Aos poucos foi aprendendo trechos das canções e participando também do coro. Depois soltou os braços e louvou, cena que registrei em meu coração e que nada, nada tirará de mim.

Aquele tempo da caminhada foi um tempo bendito. Não houve briga, não houve discussão. Carros paravam para que a gente passasse, numa atitude de respeito, uma vez que há loucos por aí que desconsideram sinalização nessas horas. Casas com suas janelas abertas e seus idosos nos peitoris acenando, sorrindo, participando, louvando a Deus.

Quando passamos em frente às igrejas de outra religião as músicas foram compartilhadas e vi muita gente balbuciando trechos como “... no peito eu levo uma cruz, no meu coração o que disse Jesus...”

Aí, uma Karla Pontes louca e sonhadora começou a imaginar um Deus alegre lá no céu, olhando para a Terra – neste caso, especificamente, para Araruama – e orgulhando-se dos filhos que tem. Porque eu vi umas trocas de sorrisos entre toda a gente de toda religião. Ali estava o Amor, ali estava a obediência ao maior dos Mandamentos!

Minha emoção embargou-me a voz por muitas vezes. Eu queria explicar as coisas a Antônio, mal completava uma frase. Aconteceu assim até na hora que vimos as garças voando para as árvores, num balé maravilhoso ensaiado – a louca imagina – para aquela situação: mais um agrado para aquele que está no céu!

Deus nos conhece, a cada um. E lá do alto, de onde observava a procissão passando, sentia-nos o coração. O coração daquele que carregava o andor do santo, o coração daquele que entoava as cantigas, o coração daquele que seguia o trajeto, o coração daquele que via tudo acontecer da varanda de sua casa. Deus via o coração do irmão que segue por outro caminho religioso, via o coração daquele que nem religião professa... Na perspectiva, Deus via, ouvia, sentia... E, se fosse desejo de Deus que o dia do fim fosse aquele, teria sido arrebatado aos céus um pouco de cada um desses todos tão diferentes, e teria ficado na terra um outro bocado de todo tipo também.

Ontem foi um dia de grande alegria! E a juventude estava lá, para garantir o frescor da vida, para garantir que há muito o que se viver ainda, para me tranquilizar por saber Antônio viverá num mundo melhor, nestes dias em que BBB’s da vida vêm tentando me convencer do contrário...

Escrever sem dar conotação religiosa, era o que eu pretendia. Foi este o meu único pensamento, ontem. Difícil tentativa, posto que meu desejo era contar o que vi numa procissão católica! Mas espero ter passado o meu recado.

Cada um acredita num Deus à sua maneira. Há até os que não acreditam que Deus exista. E, no entanto, estamos todos aqui, neste mesmo mundo, dividindo espaços, trabalhando juntos, estudando juntos, nos casando! Temos amigos de religião diferente da nossa, e não nos imaginamos viver sem eles! Conhecemos pessoas de religião diferente da nossa que possuem um coração tão grande que nos é impossível pensar que não mereçam o céu! Maridos e esposas beijam-se antes de dormir para, logo em seguida, cada um agradecer ao “seu Deus” pelo cônjuge que tem. Filhos nascem de casamentos assim, crianças não são bênçãos de Deus?

Se há a religião “certa” Deus se incumbirá de tocar os corações, até os mais endurecidos. Isto fica por conta dele, não precisamos nos desentender por aí.

A romaria de ontem foi feita por todos os que ali estavam. Todos. E isto foi o mais bonito! Cada um de alguma forma teve seu momento de intimidade com Deus, revelou-Lhe seus desejos mais profundos, seus medos, suas dores, suas imperfeições. Cada um teve seu momento de agradecer àquele que chamou momentaneamente de Pai, ou de Jesus, ou de São Sebastião, ou de Deus pelo dom da Vida, que é dado a TODOS, sem distinção de religião. O que se escolhe pelo caminho, depois que se nasce, é menos importante do que o que se passa a fazer, depois que se nasce.

Deus nos quer bons. Quer que amemos ao próximo na mesma intensidade com que amamos a nós mesmos. E esse próximo é todo mundo: seu patrão, o assaltante que levou a sua bolsa, seu ex-marido, sua ex-mulher, o morador de rua, a vizinha antipática, o amigo que torce por outro time...

Façamos nossa parte. A de amar. Deus – o que é, independente daquele no qual acreditamos – se encarrega do resto. Importa que sejamos abençoados no dia de nossa ida. Não ficaremos aqui por muito tempo. Um dia os dinossauros se foram. Acontecerá o mesmo conosco.

Foi com o sentimento de alegria que voltei pra casa ontem. O passado esteve por lá, festejando em suas cadeirinhas de balanço. O presente esteve também, naquela gente de paz que respeitou a crença do irmão. E o futuro, o que espero para Antônio, dançou e cantou, confortando-me o coração: meu filho está seguro. Ainda há esperança. Deus é dez!

2 comentários:

  1. É simples assim! Todos os caminhos que levam a Deus são válidos.
    E quanto à intolerância religiosa serei sempre intolerante!

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