domingo, 19 de maio de 2013

Essencial

(Essencial é viver. É abrir os braços se tudo o que se quer é um abraço...)


Era uma vez...

“Era uma vez” é uma expressão essencial para se começar a contar uma história para uma criança. Vejo aqui em casa, por Antônio. Ele sempre gosta que eu lhe conte histórias, mas quando elas iniciam com o meu chamativo “era uma vez”, ah!, tudo fica diferente e mais bonito nos olhos de jabuticaba do meu filho.

Dia desses, voltando para casa depois do trabalho, testemunhei uma cena, aos meus olhos de poeta, inesquecível: uma paquera.

Uma moça vinha pedalando sua bicicleta pela ciclovia. Fone nos ouvidos. Óculos escuros. Pele transluzente sob o sol do fim da tarde. Voltava do trabalho, me pareceu. Sem muitos apetrechos, sorria ao som da música que lhe penetrava os ouvidos...

Um rapaz vinha dirigindo seu carro branco, ao meu lado. Rádio do carro ligado. Óculos escuros. Pareceu-me que voltava do trabalho, também.

Foi quando a atenção ao trânsito se desfez: ele a viu. E o movimento do corpo dele ao olhar para ela, chamou-me à atenção, também. Coisa mais linda de se ver! Reduziu a velocidade quando viu que ela esboçou-lhe um sorriso. Reduziu o trânsito. Reduziu a minha velocidade. Reduziu o ritmo da minha vida inteira, depois disso. Do que eu tiver para viver.

Seguiu, depois de ela não ter-lhe dado confiança. Seguiu olhando para trás, depois pelo retrovisor. A velocidade da bicicleta não acompanhava a do automóvel. E foram-se, cada um para o seu lado, com um sorriso no rosto. Vão, certamente, um com o outro na lembrança, até que esta se desfaça.

Eu, poeta, acompanhando tudo, saí da cena entristecida, porque fiquei imaginando um grande amor que se perdera. O amor surgira dali, de um encontro de via e ciclovia, onde diminuir a aceleração do carro é essencial quando se quer alguém que está de bicicleta.

Essencial é viver.

Nossa vida cotidiana não nos permite viver o essencial das coisas.

Ontem compramos, eu e o pai de Antônio, o kimono para as aulas de jiu jitsu que ele começará a fazer. E ter ido à cidade vizinha em companhia de seus pais tornou sua vida mais feliz. Aquilo lhe foi essencial, e bastava observar-lhe a expressão de alegria para confirmar isto que estou escrevendo: covinhas no rosto e um sorriso que não se desmanchou, acho que até agora.

Talvez tenhamos acordado nesta manhã de domingo sem fazer um afago em quem deixamos na cama. Talvez não tenhamos recebido o afago de quem se levantou da cama antes de nós. Um afago essencial para que o domingo – início de uma semana inteira! – seja ainda melhor! Mas será que desejamos o abraço – dar ou receber – com os braços abertos? Abrir os braços é essencial para receber o abraço. Abrir os braços quer dizer “vem!”

Neste mundo de mentiras, dizer a verdade é essencial. No caminho, ontem, ainda no carro, percebemos que o rádio não funcionava direito. Eu e o pai de Antônio nos olhamos, e foi o suficiente para que meu filho me falasse que mexeu no rádio. Mas, antes, nos avisou de que contaria o que aconteceu, porque sabe que eu sempre lhe peço para dizer a verdade. Pra mim, bastou. Orgulho de mãe que vê frutos onde semeou. Antônio confessou o erro. E recebeu a correção seguida de um carinho pela atitude prestada. Entendeu, ficou feliz, e nós também.

Essencial é tudo aquilo que está acontecendo lá fora. É o sol quente, vivo, que preenche hoje seu espaço no céu azul que ontem amanheceu cinza e enfeitado por uma chuva maravilhosa, abençoada! É a certeza do Deus vivo, presente em nossas vidas. Essencial foi acompanhar o nascimento dos passarinhos na caixa de correspondências daqui de casa. Essencial é o abraço que recebo do meu filho logo assim que ele acorda.

Nada do que é essencial existe em busca de recompensa. Aqueles sorrisos que se trocaram entre o rapaz e moça foram espontâneos. Foram sorrisos do coração. Nada queriam em troca. No entanto, a troca veio: os olhos responderam aos apelos do coração. E aquele sentimento indescritível que invade nosso corpo no momento da paquera aconteceu...

Estarmos os três no carro, rumo a qualquer lugar iluminou o rosto de Antônio. Não lhe importava onde iríamos. Nem o que faríamos. Estávamos juntos. Já era a própria recompensa. A atitude – essencial! – recompensou-nos a todos, embora nada tivéssemos feito com este intuito.

A inspeção diária na caixa de correios, e a alegria por ouvir os chiados dos passarinhos no ninho recompensaram a tarefa de permitir que a vida acontecesse. Eu ajudei, Antônio ajudou, o carteiro ajudou, cuidadoso que foi em deixar as cartas em outro local.

Quem não soube ver o sol lindo pela manhã, perdeu a oportunidade. Mas se souber ver o que é essencial, verá o bailar das nuvens seguindo a direção do soprar dos ventos. Traduzirá em monstros, bichos, pessoas as diversas formas que aquelas bolas de algodão tomam enquanto passeiam, desfrutando de um céu que ainda não é nosso. E receberá a chuva – quem sabe até no rosto! – agradecido por viver, por estar bem, por amar, por ser amado...

As coisas mais simples da vida, os gestos mais simples, são aqueles de que mais precisamos. E é tudo o que a vida cotidiana nos rouba. Mas há certa permissão nossa. Como escrevi, muitas vezes não abrimos os braços e depois reclamamos por não sermos abraçados quando mais esperávamos.

Eu desejo a vocês um domingo essencial. Para que, em sendo assim, o domingo preconize uma semana essencial. Com novos olhares, novos ângulos, novas possibilidades. E, acima de tudo, com braços bem abertos para a vida, porque viver é essencial.

5 comentários:

  1. Viver é essencial! Eu não sei viver fingindo ser quem não sou. E nem vou negar os meus sentimentos....Viver é essencial Amiga Karla Pontes!Lindo texto.Parabéns!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Leitura gostosa numa manhã de friozinho...
      Bom início de semana pra vc!
      Douglas Alegre

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  3. Eu só posso dizer agora,que foi essencial para mim,a leitura desse lindo texto...parabéns poeta/poetisa(gosto mais de poeta) querida...beijão

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  4. Adorei Amiga, cada texto você se supera...

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