terça-feira, 17 de setembro de 2013

É greve


Escola vazia é espaço sem alegria.

Fiquei pensando nessa frase, tentando inventar um poema. Não consegui. Corri para cá, para o meu diário virtual, para a minha Remmington-22-revestida-de-notebook. Impressionante como é automática essa vontade que me dá de chorar quando abro o note para escrever. Ouço aquele estalo da tampa da minha Remmington. Rapidamente, escuto o murmúrio das letras enfileiradas: “O que será que ela tem para hoje?”

As letras do teclado me sorriem, como me sorriam as da Remmington. Como me sorria o alfabeto inteiro quando o diário era de papel. Letras e teclas gostam de sua funcionalidade. Não estão ali para serem desprezadas. Querem dançar, querem gritar, querem sorrir e chorar junto com a gente, expressar emoções. Ficam aflitas, às vezes, e é por isso que às vezes, também, as palavras nos faltam na hora de escrever... Letras e palavras são emoção pura, em nada diferem de nós.

Nada vale um sofá no canto da sala, sem uso. Como tem pouco valor a roupa que não se usa, a jóia guardada na gaveta, a lingerie que aguarda o momento que nunca chega. Funcionalidade é tudo!

Escola vazia é espaço sem alegria.

Hoje, ter visto o pátio da escola vazio entristeceu meu coração. Eu senti saudade. A escola onde trabalho é enorme, bem parecida com a escola onde estudei, em São Gonçalo. Hoje a escola estava ainda maior, porque vazia. E por uns instantes eu me permiti ter dez anos e estar na escola outra vez...

Daí, lembrei-me de uma porção de coisas!...

Lembrei-me da camisa do uniforme, com sua manga dobrada. Sim, apenas uma das mangas, com duas dobrinhas para cima. Era a “simpatia” infalível para que o professor faltasse.

Lembrei-me das brincadeiras na hora séria (séria?) no hino nacional. Das ousadias em piscar o olho para o amigo ao lado, ou olhar para o amigo de trás, ou fazer careta para a inspetora de alunos, assim que ela me virasse as costas.

Lembrei-me dos dias de prova e da hora da cola. Eu recebia em minha carteira muitas provas de colegas, depois que terminava de fazer a minha. Fazia quatro, cinco provas, temerosa de ser pega em flagrante.

Lembrei-me do único dia em que a professora de Língua Portuguesa me colocou para fora de sala, porque eu estava conversando com uma amiga da carteira ao lado enquanto ela explicava o dever. Aquele foi um dia inesquecível para mim, porque passeei pelo pátio da escola toda praticamente sozinha. Nossa, que escola grande e bonita!

Lembrei-me dos amores que senti pelos meninos, das brincadeiras da hora do recreio, da queimada... Cheguei mesmo a ouvir o sinal tocar! Lembrei-me da quadra – enorme! – onde fazíamos Educação Física. Lembrei-me do quanto eu odiava Educação Física!

Lembrei-me das festinhas de fim de ano, dos longplays, das vitrolinhas, da dança e da tão esperada “música lenta”, oportunidade única de colar o rosto no amado e sentir o coração bater mais forte.

E basta que eu organize o pensamento para alinhá-lo aqui no texto e meu coração já quer apertar novamente: é que naquela sessão nostálgica de olhar o vazio, tudo o que se transformou em saudade no meu peito compôs o currículo oculto da escola por onde passei.

Hoje é dia de greve. Ontem foi dia de conselho de classe. Amanhã será dia de aula e, depois de amanhã, será o dia de se aprovar ou reprovar os alunos. Tudo tem passado tão depressa!

Adultos convivem com crianças neste cotidiano escolar, mas se esquecem de que já foram elas. Tudo o que lembrei em minutos diante de um pátio vazio foi do bom que vivi, e nada me levou a lembranças de sala de aula. Sabe por quê? Porque eu me lembrei da VIDA que vivi dentro daqueles muros, nas quatro horas e meia que passava lá dentro.

Hoje as crianças entram nas salas e encontram seus professores a manusear o celular a cada segundo, para ver se alguns minutos se passaram.

Existe uma VIDA dentro de cada corpo que ocupa uma carteira, um lugar na fila para o hino nacional. Uma VIDA que não está – e faz parte da sua época não estar – lá muito interessada em aprender os conteúdos insignificantes que a escola MORTA insiste em ensinar.

E, no entanto, a escola segue, MORTA, nada funcional, desprezando corpos jovens que gritam: “eu quero VIVER!”

Seguimos MORTOS toda vez que subestimamos nossos alunos, toda vez que os rotulamos, toda vez que declaramos conhecer-lhes os limites. Seguimos MORTOS, arrastados, sempre que desistimos de um aluno, sempre que excluímos, sempre que, com nossas aulas MORTAS, convidamos os alunos a deixarem a sala de aula.

Assim segue a escola, MORTA, paradoxo com os hormônios VIVOS da infância, da juventude e da adolescência.

Meu coração está em greve, esperando a outra greve acabar. Não há música na hora do recreio, não há garfos batendo nos pratos na hora da refeição. Não há o uniforme, o cabelo cheio de creme, as sombras multicoloridas aplicadas nos olhos, os óculos sem armação adornando o rosto e revelando: “eu curto a moda, eu sou jovem, eu sou feliz!”

Tudo o que há é um silêncio horroroso e, no meu caso, no meu coração, uma saudade – que só aumenta! – de tudo o que vivi na escola.

Não existe a escola de ontem e a escola de hoje. Somos todos uma coisa só, porque somos seres humanos, porque estamos vivos, e porque fomos crianças, também. Tivemos aulas boas e ruins, sabíamos a quem respeitar e a quem nos era permitido desrespeitar.

Tudo o que entra VIVO na escola e sai MORTO de lá, carrega consigo a nossa marca. E meu pedido, meu desejo, minha súplica, minha oração, minha utopia é de que um dia sejamos agentes do contrário: de trazer à vida a alma destinada à morte, porque creio ser fundamentalmente esta a função da escola.

Abaixo a greve dos corações!

domingo, 8 de setembro de 2013

Quando o Brasil virou DOI-Codi.


Na terça-feira passada, dia 27 de agosto, eu vi uma cena na televisão. Era a presidente Dilma falando sobre a fuga do senador boliviano Roger Pinto para o Brasil, rejeitando a comparação feita por Eduardo Saboia entre a situação do senador e a de vítimas do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar.

As palavras dela foram exatamente essas: “Não há nenhuma similaridade. E eu estive no DOI-Codi. Eu sei o que é o DOI-Codi. E asseguro a vocês: é tão distante da embaixada brasileira lá em La Paz, como é distante o céu do inferno. Literalmente, isso.”

Daí, depois de ouvir aquilo, e ficar “matutando” por dias, cheguei até aqui. É que por alguns momentos meus “pensamentos visuais” enxergaram Dilma em sessões de tortura e afins, no período da ditadura militar no Brasil. E venho há uns dias tentando entender o que passa na cabeça de uma pessoa que sofre atrocidades por um Brasil melhor, chega à presidência da República e transforma o país num DOI-Codi.

Ela não concordou com a comparação do Eduardo Saboia, e eu não concordo com a dela. Vou escrever, então, o que julgo poder se comparar a céu e inferno:


Céu é mesa farta e família se alimentando.
Inferno é fome. É solidão.
Céu é escola pública de qualidade. É perspectiva de futuro, garantida a escolarização.
Inferno é o estado em que se encontram as escolas públicas. É a infrequência dos alunos, a evasão.
Céu é o cidadão empregado. É trabalho com salário digno.
Inferno é o desemprego. É a escravidão.
Céu é sorrir com todos os dentes na boca.
Inferno é ter a boca desdentada.
Céu é saber ler e escrever.
Inferno é ser analfabeto.
Céu é manifestar- se politicamente.
Inferno é apanhar de policiais.
Céu é ter representantes honestos eleitos.
Inferno é ver descobertos os roubos e desmandos daqueles em quem votamos.
Céu é justiça.
Inferno é impunidade.
Céu é alegria.
Inferno é tristeza.
Céu é viver.
Inferno é sobreviver.


Eu poderia ficar aqui por longo tempo escrevendo as comparações que ando fazendo desde o dia em que, aparentando uma tristeza, uma revolta, uma certa irritação, nossa presidente Dilma abriu a boca para dizer aquelas palavras.

É superficial – e cômodo! – para uma pessoa que viveu o terror da ditadura dizer que tudo o que não é DOI-Codi é o céu.

Hoje eu vejo jovens nas ruas por um país menos corrupto, e tudo o que faço é rezar para que não se transformem em Dilmas e tantos outros que, à década de sessenta, deram o sangue para chegarem hoje onde estão e virarem as costas para o povo brasileiro, o que vive – aí, sim – num inferno verdadeiro.

Todas as vezes em que saímos de casa com o dinheiro contado para a volta, todas as vezes em que saímos à procura de emprego sob sol quente ou chuva pesada, todas as vezes em que ao recebermos nosso salário concluímos ser pouco para o mês inteiro, todas as vezes em que assistimos pela TV as propostas de aumento do salário mínimo e as comparamos com os aprovados aumentos nos salários de senadores, ministros e presidentes, todas as vezes em que a prática politiqueira nos avilta com atitudes irresponsáveis e criminosas, sentimos aquela dor, aquela mesma dor que se sentia ao “pau-de-arara’.

E isto, para mim, é fato.

Barriga vazia dói, verdadeiramente. Todas as doenças causadas por falta de saneamento básico às portas das casas doem, e levam pais e filhos, e morrer dói. Todos os tiros, estiletadas, facadas levados no momento dos assaltos que acontecem por falta de segurança pública nas ruas doem. Como dói sofrer um acidente numa estrada esburacada, como dói na alma ser um desempregado, como dói ouvir um “não” da escola pública que se procura atrás de um tempo que se perdeu por tantas razões!...

Tudo isso dói. E é o inferno.


E era isso o que eu queria desabafar.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Vida de Professor



Vida de Professor

Publicado em 25/07/2013 no site Educadores Online 
(Coluna Fique por Dentro "Miscelânea")

http://www.educadoresonline.com.br/


Cheguei da escola um pouco mais cedo, hoje.É engraçado como estranho minha casa em horas como essas. Uma luz diferente, raios de sol atravessando a janela, uma cor que não conheço... Preciso ficar mais tempo em casa. Preciso calcular o tempo de contribuição, para ver se já posso tentar me aposentar.

Eu sou professora. Completarei meus cinquenta anos de idade em setembro. Com mais de trinta de magistério, acho que meu destino é encerrar minha contribuição. Não sei se consigo, eu amo o que faço. E embora o cansaço me “atente”, me pedindo para parar, falta-me coragem de juntar os documentos e dar entrada no pedido de aposentadoria...

Quando iniciei, aos dezesseis anos, os alunos iam para a escola acompanhados de seus pais. Um ou outro chegava sozinho, ou transportado por vans. Depois de uns dez anos de trabalho, a frequência dos responsáveis pelos alunos foi diminuindo cada vez mais, e mais rapidamente. Hoje, com trinta e tantos anos na profissão, dos quarenta alunos que tenho, conheço os pais de seis.

Nas reuniões pedagógicas na escola, sempre que falamos sobre casos de alunos indisciplinados a polêmica surge: a ausência dos pais, a falta de acompanhamento na vida escolar de seus filhos é, na grande maioria das vezes, a vilã da história. Fico ouvindo o relato dos meus colegas, gosto de prestar maior atenção naquele mais antigo e naquela novata que acabou de chegar para trabalhar. Daí, vou tecendo minhas conclusões. Elas sempre mudam. Tenho vários casos diferentes na minha sala de aula, não poderia definir uma única causa para o comportamento dos meus meninos.

Três professores já foram agredidos por seus alunos. São agora mais comuns os relatos – os desabafos! – de colegas ofendidos por palavrões, de colegas ameaçados, de colegas furtados, e três ocorrências já foram registradas no livro preto da escola revelando agressões físicas a professores, num espaço de seis meses letivos.

Sou professora do primeiro segmento, trabalho com turmas de segundo ano de escolaridade. Nas reuniões em que estão presentes os professores do segundo segmento, a unissonância: os alunos estão vindo para a escola por pura obrigação. Não se interessam pelas aulas, e só frequentam a escola porque seus pais recebem o “Bolsa Família”. Então, fazem bagunça o tempo inteiro, não deixam os alunos mais quietos aprenderem os conteúdos simplesmente porque não deixam o professor trabalhar.

Entre uma fala e outra, entristeço. Eu tenho uma grande dúvida no meu coração, que ninguém consegue tirar: quem é o responsável, quando o aluno caminha para a escola sem o menor interesse? E enquanto eles – os professores – concordam entre si, acenando, balançando afirmativamente a cabeça diante do depoimento acalorado daquele que afirma o desânimo dos seus meninos, eu me preocupo.

Nossas escolas não convidam seus alunos a caminharem para ela com alegria. Tampouco os convidam para que permaneçam nela. Professores fazem o possível e o impossível para darem conta de uma grade curricular muito pouco discutida, porque não há equipe técnica, composta por pedagogos em número suficiente para uma verdadeira orientação àquele professor que leciona determinada disciplina, e não sabe ou não consegue lançar mão de recursos diferenciados para atingir aos alunos que não aprendem. Não há unidade entre o trabalho realizado, cada professor luta sozinho quando quer experimentar uma nova forma de ensinar. Não há integração com as famílias, as escolas não dispõem de calendários que prevejam atividades com os pais dos alunos em dias e horários em que estes possam estar presentes. As aulas são repetitivas e a escola é chata, salvo algumas exceções que ultrapassam seus próprios limites e fazem o que se pode chamar de “milagre”!

Mas, “espera aí!”, penso eu, comigo mesma. Há salas de aula convidativas, ainda. E numa grade de oito disciplinas, às vezes há frequência nas aulas de História quando não há nas de Química. É que professores do tipo “maluquinhos” andam rompendo as barreiras e levando seus alunos aos Museus, enquanto aquele outro obriga a decorar a fórmula enquanto ameaça o teste na semana que vem.

Precisamos ir às ruas e bater panelas para exigir dignidade para trabalhar. Nossa profissão forma quase todas as outras. É cada vez mais imprescindível ter-se passado pela escola para se conseguir sucesso no trabalho. Então, se a escola exclui, há controvérsias nisto.

A tarde está linda e vermelha lá fora. E olhando para este céu multicolorido, penso que está bem mais feliz agora quem tem a oportunidade de sentar-se, ainda que à beira da rua, e acompanhar o pôr do sol. Será que se algum aluno pedisse ao professor para ir lá fora, ver o entardecer...




terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uma maratona chamada Escola


Hoje eu trouxe muitos dos meninos para casa. Vieram no meu pensamento. Viajaram por quase quarenta quilômetros comigo, me pedindo para estudar.

Às vezes me sinto cansada. Os meninos me revigoram. Por incrível que pareça, viver os problemas da escola me deixa feliz. Eles ainda mexem comigo, alteram meu humor, me tiram o apetite. Isto é um bom sinal para quem teme chegar ao ponto de não se abalar mais com as atrocidades que a escola comete. Escola, Educação, Sistema Público, Sistema Privado. Nada pessoal, nada particular. É o todo, é quase a vida!

Acontece que defendo há décadas que a vida escolar das crianças deve fluir sem maiores obstáculos, e que a Escola tem tudo a ver com isto. Jargão decorado, bonito. No entanto, uma frase não move uma vida. E, de jargão em jargão, vamos eliminando do nosso convívio as situações problemáticas que podemos eliminar, no intuito de evitarmos aborrecimentos.

Eu estou triste. Peço desculpas ao leitor se houver troca de letras neste texto, mas quando escrevo triste, costumo escrever assim, com letras trocadas...

A foto escolhida para ilustrar o texto de hoje é proposital. Pesquisando no Google, certifiquei-me de que faz nove anos que o fato aconteceu. Daí, certifiquei-me de que faz nove anos que quero escrever sobre aquilo. Eis minha analogia:

O corredor, Wanderley, o aluno da escola pública (penso que agora já dá para incluir alguns casos de escola privada, também, infelizmente). Concentrado, obstinado, esforçando-se para chegar a um lugar. Feliz por perceber-se já na reta final, orgulhoso por avistar a linha de chegada, satisfeito por ver a torcida a seu favor. Pensando em tantas coisas durante o percurso! Na família, no emprego, nas contas a pagar...

Na transversal do circuito, o “escocês”, a quem eu chamaria Escola. Vestido num uniforme impecável, muito bem penteado. Escondido, capcioso, aguardando, sem que ninguém se desse conta, a oportunidade de “dar o bote”. Não pensa muito, não reflete. Seu objetivo é um só: retirar da competição – excluir! – aquele menino franzino que destoava dos demais corredores. Aquele menino magrelo, aquele menino obstinado demais.

Então, o escocês o faz: com um empurrão, destrói o sonho. E ainda que resistente, insistente, Wanderley pouco tem a fazer, depois que vê passar à sua frente seus concorrentes que há minutos estavam tão longe! As pessoas mais próximas tentam ajudá-lo a se recompor, mas Wanderley não consegue. Seu emocional já está todo tomado pelas perguntas que faz a si mesmo a respeito da origem daquele homem. Nada mais há que se faça. Nosso herói está expulso.

Nossa louca escola – porque aquele “escocês” o era, certamente! – anda praticando esses erros, mesmo depois de nove anos. E aquele choro meu, de desespero, de angústia, de dor ao ver o menino brasileiro fora da maratona chega-me de assalto quando trago para casa, nos meus pensamentos os meninos excluídos, por causa escola, da maratona da vida.

Julgamento? Não nos cabe. Saber se o menino vai adiante, se tem condições de concluir os estudos, se prestará atenção nas aulas, se evadirá, se ocupará a vaga de outro à toa...

Nas quatro paredes que cercam uma escola não se pode ter pensamentos assim. Escolas – sobretudo as públicas! – devem dizer “sim, há vagas!”, devem dizer “vem, eu lhe acolho!”, devem sorrir, segurar a mão, apontar a linha de chegada, oferecer a água na hora em que o corpo sedento tomba e esmorece. Mas eu olho para os prédios, e tudo o que eu leio nos cartazes é “não”.

E tudo o que pensei hoje, no caminho de casa, refazendo minha trajetória que iniciou com o exercício da profissão de Professora em troca da isenção da mensalidade do Curso Normal, tudo o que pensei recordando de que no meu primeiro ano de Magistério, depois de formada, lecionei em troca de vales-transporte, tudo o que pensei depois de chorar a queda de todos os Wanderleys que testemunho quase diariamente, foi que ainda há esperança.

Minha esperança mora no coração de Professores que enobrecem a profissão. Mora naquele Professor que conhece o aluno pelo nome. Naquele Professor que preenche a sala de aula com a sua presença, ainda que em suas mãos carregue apenas giz e apagador. Minha esperança mora naquele Professor que olha seu aluno nos olhos, que reconhece um dia atípico, uma dor, uma tristeza, uma carência...

Ainda tenho esperanças, embora me seja tão difícil ver um aluno deixar o balcão de uma secretaria de escola diante da negativa de vaga. Porque, na verdade, o que me instiga é saber o que o aluno foi buscar lá. Sinto necessidade de saber o que eles ainda esperam daquele uniforme quase escocês!

Estou triste e, confesso, confusa.

Mas queria compartilhar com vocês a minha dor. Esta dor que me alegra, porque, como disse no início, temo um dia não sentir. Há uma gente que não sente mais, nas nossas escolas. Que não se aflige mais, que não se importa mais. São pessoas para quem não fez a menor diferença o susto de Wanderley diante do louco, lá.

Pode parecer estranho, mas eu vim até aqui para curvar-me diante do Bom Professor (ou a melhor expressão seria Verdadeiro Professor?). Esses poucos que teimam em insistir, em ousar, em realizar o milagre da boa aula, do convívio saudável, do servir-se de exemplo para uma juventude atordoada, de quem foram tirados os limites por culpa não se sabe de quem. Bons Professores são a certeza de um mundo melhor. São seres abençoados, em que Deus põe, eu diria, quase a mesma confiança que deposita no ser humano cada vez que o choro de uma criança anuncia a vida nova!

Um homem cabisbaixo voltou para casa hoje sem escola para estudar. Um Professor voltou para casa hoje orgulhoso da aula do dia, do rendimento – retorno! – da turma. Um aluno voltou para casa hoje feliz, porque aprendeu que multiplicação não é um monstro e, sim, uma forma mais rápida de se realizar somas sucessivas. Um pai voltou para casa hoje ansioso por ver as notas no boletim do filho. A vida é uma rotina atrás da outra, e segue – e acaba! – e independe da escola e de seus inúmeros “escoceses” para acontecer.

Eu agradeço a Deus por bons Professores existirem. São os instrumentos dEle para os destinos que se desenham na infância, na juventude. São o último amparo, se procurados na velhice.


Escola é lugar de “sim”, de “vem”. E eu me orgulho daquele Professor que faz da estada do seu aluno na Escola uma maratona onde se avista a linha de chegada, e se consegue chegar lá.

sábado, 27 de julho de 2013

Adeus, solidão.


Eu vivi sozinha por muitos anos. Vivi o que hoje julgo ser o pior tipo de solidão: aquele em que ao seu redor estão pessoas – às vezes muitas pessoas! – e, no entanto, não se tem ninguém ao lado. Não se vê ninguém, não se é visto. Não se ouve ninguém, não se é ouvido.  É uma solidão monstruosa, que se acomodou vagarosamente em minha vida e tomou posse dela. Eu permiti, não nego. Eu a chamava de ave (ave solidão). E a sentia, garras fincadas nos ombros, todas as vezes em que resolvia me fazer a quase inacabável visita. Foi palavra de presença certa nas incontáveis poesias e sonetos que escrevi na minha Remmington 22 aos pés da cama, na adolescência...

Eu rasguei tudo o que escrevi, na adolescência. Na verdade, minha adolescência – como tudo o que se deu comigo – estendeu-se um pouco mais, e eu ainda derramava lágrimas sobre o papel datilografado mesmo aos vinte e tantos anos. Foi tudo embora, numa tarde em que pus fim a uma história que não havia começado. Paradoxo? Só mais um em minha vida.

Naquela tarde muitas folhas de papel deixaram meu quarto com destino ao lixo em quarteirões bem distantes. Um medo sufocante de ser descoberta pelos meus pais na minha mais profunda intimidade – a de amar, amar, amar, e jamais ser correspondida – fez com que eu desse um basta naquela situação de dedos aflitos querendo confessar por que doía o coração. Tudo jogado fora: diários da infância, que se estenderam anos depois, papéis, papéis, papéis. Eu jogara parte preciosa da Karla no lixo. Fiquei lá, rasgada, a uns metros da casa onde morava. Hoje só me restam uma recordação distante e uma saudade que não passa, que chego a temer que seja arrependimento.

Bem, dei guarida à ave por muitos anos, como disse. No quarto da moça, móveis de cerejeira comprados num brechó (eu sempre gostei das coisas que não andavam “na moda”) e colchas, almofadas, cortinas e tapetes costurados num composê de corações em rosa e branco. Uma escrivaninha na medida certa da máquina de escrever e... da estadia da “solidão”.

Meu casamento não desfincou as garras da ave dos meus ombros. Por cinco anos dividimos, eu e ela, a casa nova, a vida nova, com o meu então marido. Não levei comigo a Remmington, ela pertencia a mim e à minha irmã, o presente nos havia sido dado em conjunto, não tínhamos condições financeiras de termos em casa duas máquinas de escrever. E, quando dei por mim, a solidão se fazia presente nas poesias que compunha. Mais velha, no entanto, não as rasguei. Desfiz o casamento, dilacerada, envergonhada, mas decidida e acabar com a presença daquela ave traiçoeira, que mais parecia uma sombra, sempre por perto, inclusive nos dias sem sol.

Moro em Iguaba há treze anos. Quando vim, quando Deus me concedeu a graça de refugiar-me, sofrer e renascer, trouxe a ave na mochila. Sim, ela não hesitou, quando me viu arrumar as coisas para partir. Aquietou-se, e ajeitou-se de tal modo que, sem ser percebida, chegou ao meu novo lar, meu novo mundo. Tomou posse. Fez o reconhecimento do local. Enraizou-se. Gostou de ficar.

Por seis anos fez-me companhia. Mesmo no período em que a inspiração me disse adeus, no período em que as palavras fugiam dos meus pensamentos e embolavam-se num balé ridículo, no período em que chorei a falta da Remmington, no período em que nada compus, ela ficou. Bateu ponto. Machucou-me a pele. Deixou feridas profundas.

Mas passados aqueles seis anos minha casa encheu-se de cor e de alegria: meu príncipe, meu rei, minha vida resolveu vir ao mundo para travar a batalha com a ave solidão, e afastá-la daqui. Chegou Antônio, nove meses depois de habitar no meu corpo!

Minha vida é completa, é feliz, é abençoada, é inteira porque tenho Antônio.

De tudo o que passei nos seus primeiros dias comigo, da incerteza da certeza de querer ficar sozinha com ele desde o início da sua vida, das descobertas que fomos fazendo um do outro, dos ensinamentos que trocamos, dos olhares, dos sorrisos, estabelecemos um código vital tamanho que mandou a ave para muito longe daqui. E por sete anos ela anda por aí, sorrateira e imunda, à espera de uma oportunidade de pousar em meus ombros novamente.

Hoje meu coração partido, ferido, entristecido, despediu-se de Antônio. Ele ficará por uns dias na casa da vovó. Ficamos trocando acenos até que o carro do pai dele sumisse na perspectiva. Eu, sem saber se chorava ou se sorria diante daquilo tudo que é meu, embora meça somente um metro e trinta e cinco centímetros.

Entrei em casa com o coração diminuído. Sentei-me no sofá. Estiquei as pernas. E ao primeiro sinal de chegada da ave, disse-lhe “não”.

Todas as vezes em que tive o corpo marcado por suas garras afiadas, fiéis aos meus ombros foi porque admiti sua presença. Uma fase de minha vida em que tê-la como companhia me causava até certo prazer. Mas foi uma fase em que, afastada do Deus Vivo, não me reconhecia no espelho, não me amava, só o que fazia era sentir pena de mim mesma.

Sinto muito, mas hoje sou feliz. E minha felicidade, embora tenha ido dentro daquele carro com destino a São Gonçalo, é tão grande que se desmembra, dissolve-se, reparte-se, e ainda sobra! Foi lá e, contudo, está aqui. Há brinquedos espalhados por toda a casa, há retratos espalhados em todas as paredes, há o cheiro, a presença de Antônio aqui nos quatro cantos, e onde Antônio esteve – ou está? – não há lugar para solidão.

Meu menino, meu herói, venceu mais uma batalha, e desta vez nem foi pela tela do notebook (a Remmington dele, eu espero!). Desta vez, ele nem sabe! Venceu a luta contra a minha mais forte inimiga, a ave solidão. E agora ela não há mais de voltar a rondar esta casa. Pois aqui mora a mais pura e sincera FELICIDADE.

Pode procurar outro endereço. Pode ir, e não voltar nunca mais. Porque onde moram mãe e filho que se amam na intensidade como acontece aqui em casa, não existe espaço para um sentimento tão cruel chamado solidão.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Saudades de Renato


Não era nenhum dia diferente. Deixei Antônio na casa da moça que toma conta dele, peguei a estrada cruzando o cinto de segurança no peito, e me ajeitando no banco. Troquei os óculos pelos de sol e, fazendo o sinal da cruz, pedi a Deus que me levasse e me trouxesse de volta pra casa.

É engraçado, porque sempre na hora em “me benzo” estou passando, justamente, pelo posto da Polícia Militar. Qualquer dia um policial mais atento vai me fazer parar o carro e me perguntar por que tenho tanto medo de passar em frente ao posto.

Depois que obedeci ao primeiro farol de 50 km acelerei, passei a quinta marcha e apertei o play: Legião Urbana 2, volume 35, batidinhas ritmadas no volante, abri as janelas do carro e Renato Russo me fez companhia até Cabo Frio. “A insegurança não me ataca quando erro”.

Eu segui cantando, voz alta, vento na garganta. Quando chega a sexta-feira já não me importo tanto com a cabeleira despenteada pelo vento na janela do carro. Meu cabelo já é despenteado por natureza, pouca diferença faz se fecho ou abro as janelas. Hoje fez uma manhã linda, impossível não sentir o dia! Sou “barco a motor” e nem sonho “insistir em usar os remos”... Vambora!

A vida é linda, e urge!

Eu fiz a viagem pensando em Renato. Que saudade! Que falta eu sinto dele! Como pôde ter isso embora assim, e ter-nos deixado aqui, órfãos das suas palavras, da sua poesia, da sua ode à juventude?! Quem canta, hoje, a felicidade do amor, de estar-se apaixonado melhor do que ele? Quem não sente o coração vibrando quando ouve, depois das batidas deliciosas das cordas do violão, o trecho “Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente!”? É como se sentíssemos o amor naquela hora, parece que nos apaixonamos de novo (e de novo, e de novo), cada vez que ouvimos a música. Aquela alegria da certeza após a dúvida: é amor! A sabedoria de dizer que “Já não sou mais tão criança a ponto de saber tudo”...  Ah, Renato, por que você fez isto com a gente?

Hoje os jovens estão lá nas ruas, com um movimento bonito, pacífico, pedindo justiça num país onde um símbolo de justiça cega confunde os interessados. Há uma gente lá fora levando tiros de borracha. Uma gente que nem lhe conheceu, Renato! Eu sinto tanto porque você não está ao lado deles, cantando suas canções! E, no entanto, viajo pasma, porque escuto você cantar (e que voz!) e sinto como se você tivesse acabado de compor a sua canção.

Na faixa três, “a” música: Acrilic on Canvas. E um pensamento nostálgico – uma saudade! – me toma o coração de assalto. Eu lembro como se fosse hoje que em 1986 fui testemunha de uma história de amor entre dois jovens que cursavam Belas Artes. Os dois, seus fãs. O menino, aprendendo a tocar violão, carregava para cima e para baixo as revistinhas com cifras das suas músicas. A menina, metida a cantora, combinava os acordes com o namorado. Foi assim, até que o namoro terminou. E a dor do fim foi gritada por você, Renato, no final da música feita para o entendimento de quem sabe de Artes. Acho que nem eu acreditaria na coincidência dos fatos, não tivesse eu mesma acompanhado aquilo tudo!

O céu azul de Cabo Frio, a despeito da cor que tem o céu de qualquer cidade vizinha traz a alegria: eu vivo! Eu respiro, eu sou perfeita, eu sou saudável, eu vejo, eu ouço! Dirijo no ritmo de Eduardo, atropelando os pensamentos, apaixonado por Mônica, sem saber o que fazer com aquele amor por aquela mulher tão poderosa, “nada a ver” com ele. E penso nos meus amores – cada tipo! – e concordo com você, mais uma vez: “Mesmo com tudo diferente, veio mesmo de repente, uma vontade de se ver”.

Aquela sensação de amar, maravilhosa, inexplicável, ganhou um defensor, um representante. E tudo aquilo que era difícil para os jovens dizerem foi dito nos discos, saiu da sua boca, foi cantado e dançado nos bares, clubes, festinhas...

Hoje, viajando, ouvindo você cantar, pensando nas cenas das manifestações no Brasil, alimentei-me de “Tempo Perdido”. E basta que balbuciemos suas palavras, basta que reflitemos um pouco sobre elas, e já nos dá vontade de viver mais, viver melhor, viver com força: “Somos tão jovens!” Ainda dá tempo de tanto! Impossível não lembrar de você dançando ao final da canção, num balé a que se podia chamar VIDA, num clamor para que prestássemos reverência ao dia que amanhece, e que observássemos “o sol da manhã tão cinza”... Por onde anda você, Renato?

A música que segue, a faixa sete, “Metrópole”, foi composta ontem, me parece. Não é possível que o descaso com a saúde pública esteja tão presente depois de tanto tempo.

O tom debochado – seu companheiro – na outra canção pede que se “faça do bom senso a nova ordem”. Eu ouço, contextualizo, rio. “Não deixe a guerra começar”. Será que você cantava para 2013, Renato? “Pense só um pouco, não há nada de novo. Você vive insatisfeito e não confia em ninguém. E não acredita em nada, e agora é só cansaço e falta de vontade, mas faça do bom senso a nova ordem”.

Um filme passa na minha cabeça, enquanto o violão o acompanha em “Música Urbana 2”. Estou já quase chegando à escola. Lá, as crianças também ainda aprendem a repetir a “música” que vomitam os PMs armados, as tropas de choque, os viciados, as antenas de TV, enquanto nascem mais algumas crianças. É 2013, faz mais de vinte anos que você compôs a música. Como pode ter sido assim?

“Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo o que achávamos tão certo teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais, faríamos florestas nos desertos e diamantes de pedaços de vidro... Até chegar o dia em que tentamos ter demais vendendo fácil o que não tinha preço”...

“Nosso dia vai chegar, teremos nossa vez, não é pedir demais, quero justiça... Quero trabalho honesto em vez de escravidão... O céu já foi azul, mas agora é cinza, e o que era verde aqui já não existe mais”...

“Quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convenceu que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha”...

“O que aconteceu ainda está por vir”.  Será que esta frase define sua aparição por aqui, Renato? Será que isto explica essa vida intensa que você levou, a ponto de mandar todos os recados às gerações futuras, às pessoas que não conviveriam mais com você?

Que mistério será este, Renato, de ouvir você cantar para a juventude de hoje?

Que falta sinto de você, Renato! Que pena, que perda foi, para nós, a sua partida daqui.

Cheguei bem à escola, graças a Deus. Renovada de uma esperança que você depositou em mim. Trabalhei bastante e, quando voltei para casa, na estrada, um sol quentinho batia no vidro dianteiro e aquecia o meu coração. Uma sensação que ainda não havia vivido! Você cantava outra vez, e desta vez parecia ainda melhor!

E eu pedi a Deus que o abençoe.


Saudades sempre! 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Senhora Presidenta


Antes mesmo de começar a escrever já vou lhe pedir desculpas pelos erros de Português que a senhora encontrar nesta carta. Acontece que sou um velho mecânico aposentado, e não fiquei por muito tempo na escola. Na minha época, as palavras eram escritas de modo diferente, a gente colocava acento em flor (flôr) e amor (amôr). Hoje já não se usa mais isto. Foi difícil até pra eu conseguir escrever assim, aqui no computador.

Bem, eu sei que a senhora anda muito ocupada. Ora, uma Presidenta da República deve ter, mesmo, muitas coisas para fazer. Coisas bem melhores do que ler a carta de um homem como eu, que mal sei combinar as palavras, mas resolvi arriscar. Resta-me pouco tempo de vida, eu tenho visto umas estranhezas na televisão, gostaria de contar para a senhora um pedacinho da minha vida. Prometo não me alongar.

Meu sonho era ser médico. Mas a escola, com seus acentos circunflexos e tabuadas não me deixou ficar lá. As professoras, severas demais, me repetiram muito de ano (eu demorei a aprender a ler, trocava o “r” pelo “l”)! E meu pai, que tinha uma oficina de bicicletas, precisava de mais gente por lá para ajudá-lo. O Cicle do velho era uma tentação de bom, eu aprendi até a dirigir bem pequenino. Então, depois de me deixar tentar umas duas vezes na escola, papai decidiu que eu seria mesmo era “médico de carros”. Foi o que fui, até me aposentar.

Essa é uma história conhecida. Minha filha mais nova escreveu um texto uma vez, mostrou às amigas dela, depois colocou na internet, o negócio fez sucesso. Imagine, eu, fazendo sucesso, mesmo tendo sido tão reprovado na escola! Vai ver, se me tornasse médico, não seria tão famoso!...

É, minha filha adora escrever. Formei uma filha Professora, Presidenta! Que orgulho! A menina tinha dezesseis anos quando recebeu o Diploma! Isto foi em 1984 e, de lá pra cá, nunca mais largou o ofício. Tem o maior orgulho de dizer da profissão.

Eu vim até aqui, dona Presidenta, para ajudar a senhora a se lembrar da importância da profissão de PROFESSOR, porque eu acho que a senhora se esqueceu.

Eu nunca mais me esqueci de uma cena que assisti pela televisão: Era a posse de Lula, o ex-Presidente do Brasil. A primeira vez que tomou posse. Ele, no seu discurso empolgado e emocionado, falou que não havia precisado de diploma algum para chegar à Presidência. Eu fiquei pensando, caraminholando aqui...

Será que é por isso que ninguém dá valor ao Professor? Será que é porque não precisa ter estudado para sentar nessa cadeira macia de Presidente da República?

Olha, Presidenta, minha filha faz parte de uma legião de pessoas (palavra danada de bonita, esta: legião!) que estudou muito. Eu tenho na minha recordação as noites em que vi a menina ajoelhada aos pés da cama estudando para as provas, preparando aulas... Lembro bem de quando ela conseguiu o seu primeiro emprego, depois o outro e o outro... Lembro que ela resolveu fazer faculdade de Pedagogia e estudou bastante até conseguir passar para uma Universidade Federal. Mas passou, e se empenhou, e foi uma das melhores alunas da turma!

Naquela época, Presidenta, minha filha trabalhava dando aula pela manhã e à tarde, e estudava à noite. Eu a acordava às cinco horas da manhã, ela saía para trabalhar e só chegava em casa à meia-noite! Foi assim durante os quatro anos da faculdade.

Depois que se formou – outra alegria! – ela passou no concurso público e veio trabalhar numa escola municipal daqui da cidade, pertinho de casa. Foi um alívio! Mas o salário nunca dava para custear-lhe a vida, e ela prestou novo concurso, desta vez para o Estado, e passou. Voltou a trabalhar nos dois horários, mas já passava a noite em casa com a gente, graças a Deus.

Isso faz tanto tempo, Presidenta, e, no entanto, não consigo ver melhoras na vida dos Professores de hoje em dia. Contando no calendário, percebo que lá se vão vinte e nove anos que minha menina decidiu optar pela profissão mais nobre e, mesmo assim, continua tendo que trabalhar dobrado, porque senão o dinheiro não dá. E não é só o dinheiro, não. Eu a ouço reclamar das questões de segurança, de salubridade (taí outro nome bonito que aprendi com ela!)... Ela conta que na escola não tem ventilador, que os banheiros são quebrados, que tem quase quarenta alunos numa sala só! Tem dia que nem folha de papel tem, para dar prova para os meninos!

Talvez seus filhos, Presidenta, tenham estudado em escolas boas, caras, até fora do Brasil. Essas escolas pagam bem aos seus Professores, lá eles devem ter conforto, segurança... Mas, Presidenta, quem carrega o Brasil nas costas não são os seus filhos, não!

A senhora me desculpe a franqueza, mas eu sou um bom exemplo disso, um velho exemplo: se os carros importados estão por aí nas ruas, se os ônibus circulam levando toda a gente para o trabalho e para a escola, é porque os mecânicos existem. Se os pãezinhos chegam fresquinhos à sua mesa no café da manhã, é porque o padeiro existe. Se a sua casa está brilhando de limpa, é porque existem as empregadas domésticas. Se seu cachorrinho está alimentado, é porque alguém cuidou dele, e eu duvido de que tenha sido a senhora, com todo o respeito.

Todo mundo precisa de todo mundo, dona Presidenta. A coisa não é do jeito que a senhora está pensando! Já esteve na escola? Teve um PROFESSOR, então. Teve quantos, dona Presidenta? Seus filhos tiveram quantos? Quantos terão os seus netos?

Professor é uma profissão por demais importante, Presidenta! E eles estão lá nas ruas, agora, pedindo respeito! São rapazes, moças, homens e mulheres que batalharam muito para chegar às salas de aula. Gente que estudou de madrugada aos pés da cama, que passou em concurso para ter uma vida digna. Eles não querem mudar de profissão porque estão ganhando pouco, Presidenta, eles querem fazer o que gostam de fazer, que é ensinar, educar, formar os jovens que serão o futuro do nosso Brasil!

Custa tanto assim prestar atenção nisto? Quantos Presidentes e Presidentas sentarão na cadeira macia e fecharão os olhos para a profissão que forma tantos outros profissionais? Eu fui um bom mecânico, é verdade, e me orgulho muito disso. Mas teria sido um mecânico bem melhor, se a escola tivesse tido um pouco mais de paciência comigo. Hoje vejo engenheiros criando peças que quando eu era moleque já imaginava construir. Já pensou? Já pensou quantos meninos e meninas vivem por aí inventando coisas? Imagina essa garotada escolada, dona Presidenta! Imagina uns meninos desses dentro de escolas onde os Professores são valorizados, recebem salários de gente? Que baita investimento, hein? Ah, só de pensar, já me arrepio todo! Vontade de voltar ao passado e me matricular, ser aluno de minha filha, poder sonhar, fazer planos...

Hoje eu sou só um velho mecânico aposentado, senhora Presidenta. Mas não parei de sonhar. E peço a Deus que faça com que essa carta chegue às suas mãos, e que toque o seu coração profundamente. Não precisava nada disto que está acontecendo nas ruas hoje, dona Presidenta, se o povo brasileiro fosse tratado com mais respeito.

É respeito. É só isso o que essa gente quer. Quando falta respeito, Presidenta, falta tudo, vai-se embora tudo.

Muito obrigado pela sua atenção. Apesar do salário baixo (minha filha ganha quase o mesmo que eu!), a Professora aqui de casa ainda se orgulha do que faz. E faz bem feito, Presidenta, ela não mistura as coisas, não.

Na quinta-feira passada ela deu aula pela manhã e à tarde. No final do dia, pintou o rosto de verde e amarelo e foi para o Centro da Cidade. Meu coração ficou na mão, mas, a senhora quer saber? Eu senti o maior orgulho dela! (Hoje ela está com mais de quarenta anos, mas, para mim, ainda tem dezesseis.)


Fique com Deus. E me desculpe o incômodo.