domingo, 17 de março de 2013

Uma rotina e tanto!

(Uma história de amor em família. Uma história de amor pela profissão. A história da rotina da Professora Maria...)


Maria acordou sobressaltada. O barulho do despertador a fez pular da cama. Certamente estava no melhor do seu sono...

Ligou o celular, confirmou a hora. Não tinha jeito, era hora de se levantar. Olhou João, que dormia. Sono pesado. A noite foi longa, o menino Pedro estava febril – garganta inflamada! – e João revezou com ela as idas ao quarto da criança.

Saiu do quarto tranquila: hoje João só trabalha à tarde e, como é dia dela dar aulas só pela manhã e à noite, Pedro estará bem, em casa.

Tomou seu banho, passou um café forte e açucarado, sentou por uns minutos à mesa da cozinha e, enquanto cortava o queijo relembrou os passos da aula de hoje.

Maria é professora de Língua Portuguesa. Ama o que faz. Pega sempre turmas que, a princípio, a escola toda chama de problemática: muita distorção idade/série, portanto, muitos alunos repetentes. “São muitas histórias para ouvir e aprender a viver”, diz ela, sempre que fazem careta quando ela explica seu trabalho.

Dá partida no carro e segue para a escola. Chega um pouquinho antes de o sinal tocar. Dá tempo de dizer “bom dia” a todos que estão pelo pátio e descansar da viagem de quarenta minutos e trânsito pesado. Algumas vezes acontece até de pegar no sono, porque debruça-se sobre a mesa da sala dos professores. Hoje é um dia em que Maria corre este risco, dada a noite que passou. Pensa nisto. E evita sentar-se. Olha o relógio, calcula o horário do remédio de Pedro. Lembra dele e de João. Seu corpo está na escola, enquanto o coração... Ah, esse veio pela metade!...

O sinal toca longamente. É sempre assim, as crianças parecem não ouvi-lo. Há sempre um inspetor de alunos que conduz os alunos para a forma: cara zangada, fria. Os meninos riem. Ele já não os convence mais, o Sr. José. Mas todo mundo obedece e as filas vão se formando perfeitas, dá gosto de ver.

Maria segura a mão de Inácio, o menorzinho da turma do sexto ano, o primeiro da fila, e segue para a sala de aula. Ela segura com firmeza e carinho. Descobriu dia desses que Inácio não recebe carinhos em casa. Criado pela avó paterna – que o faz por “desencargo de consciência”, como ela mesma confessou muito rispidamente a Maria – não conheceu a mãe, nem o pai. Soube, pela avó, que os dois se separaram quando ele ainda era um bebê, casaram-se de novo, formaram novas famílias e ninguém quis ficar com ele. Inácio repetiu o ano. Tem a idade de Pedro, seu filho. E Maria ama Inácio.

Findada a manhã, Maria se aproxima da porta para esperar o sinal de saída tocar. Ela se despede de cada um da turma do nono ano, onde ministra as duas últimas aulas do turno. Passa a mão carinhosamente na cabeça dos rapagões e das moças. Naquela sala há uma menina grávida, a Marcela. E Marcela já disse a Maria que se o bebê for homem irá chamá-lo de Pedro. Uma homenagem ao tanto de histórias que já ouviu Maria contar sobre o seu menino, durante as aulas de Português. Quando passa pela porta, Marcela recebe um carinho especial na cabeça, e outro na barriga. Maria ama Marcela, e já ama o novo Pedro, também.

Despede-se de todos, apaga o quadro, percebe que passou dever demais. Sorri sozinha. Ainda lhe restam trinta minutos. Senta-se, corrige algumas atividades. Separa as folhas de quem errou muita coisa. Fará uma revisão na próxima aula. Hoje Maria não esteve inteira na sala, e ela reconhece que pode ter prejudicado, com isto, a aprendizagem dos alunos. Liga para João e avisa que em quarenta minutos estará em casa. Ela sempre chega em quarenta minutos. Ele sempre sabe. Mas ela sempre liga. Fica esperando o “vem com Deus”, dele.

Chega a casa, beija Pedro. João espera sua vez. Pedro agora é o primeiro a receber os carinhos daquela mulher que já foi sua esposa, mas há dez anos é mãe. E reconhece seu lugar “na fila”. Maria o abraça, sente-se menos cansada da viagem dentro dos braços de João. Sentam-se para almoçar, já está tudo preparado. É o que cabe a João quando ele só trabalha à tarde: organizar o almoço.

Percebendo Pedro melhor, é hora da refeição. João conta como passaram a manhã, Pedro conta sobre um livro que leu, Maria conta sobre o dia na escola. Fala sobre Inácio e sobre Marcela, marido e filho já sabem. Todos muito preocupados com o que será do futuro do menino – aquela vida tão sofrida! – e com o que será do bebê da adolescente. Ninguém sabe quem é o pai da criança...

A conversa flui naturalmente. Até que João avisa que está na hora de ir trabalhar. Pede as chaves do carro a Maria, que o alerta sobre um barulho diferente no motor. Ele ri. “O problema está entre o banco e o volante”, faz a piada de todos os dias, beija Pedro e Maria – exatamente nessa ordem, também – e deixa a casa.

João é professor de Matemática e ama o que faz. Trabalha numa escola mais próxima. Particular. E enquanto espera a chamada do concurso público da cidade onde moram, dá aulas particulares de Matemática e Física nos fins de semana. João e Maria querem comprar uma casa. Estão juntando dinheiro.

Maria recolhe a louça e segue para a pia. Pedro hoje não vai à escola, ainda não está bem. Volta para a cama e liga a televisão. Mas acaba adormecendo.

Ela volta da cozinha com a toalha de pratos ainda nas mãos e olha seu menino. Fecha as cortinas do quarto, desliga a TV, ajeita-lhe o travesseiro e o lençol. Encosta a porta. Vai para a sala de estar com seu material preparar a aula da noite. Hoje dará aulas de produção textual para seus alunos da EJA. Prepara a melhor aula que pode.

Quando João chega, Maria e Pedro já estão lanchando. Conversam rapidamente sobre o dia de trabalho dele. Maria pega a bicicleta – agora a escola fica a dois quarteirões da sua rua – e vai ao encontro dos seus senhores, que a recebem no portão, carregam sua bolsa, seus livros, lhe trazem frutas e verduras. Certa vez Maria ganhou de um deles uma galinha da roça! Maria se diverte, é uma noite feliz. A aula acaba e ninguém quer ir embora, mas o ônibus chega, carrega todo mundo e sai, levantando poeira.

O caminho de volta Maria faz em oração. Agradece a Deus pelo seu trabalho, pelos seus alunos, pela família linda que tem. Agradece porque a febre de Pedro cessou, agradece porque ama a sua profissão. E pede a Deus que o seu dia de amanhã seja, da mesma forma, abençoado.

Entra em casa sem fazer barulho. Os dois já estão dormindo. Toma um banho quente e, antes de deitar-se ao lado de João, confere se o despertador está acionado. Amanhã a rotina será a mesma, naquela família. Uma rotina e tanto!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Galo Francisco

("Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu..." Eu queria escrever algo, mas um Francisco (desta vez, Buarque de Hollanda) resolveu aparecer pra sugerir... O texto é em homenagem a Francisco Carlos de Mattos. E em homenagem à minha dor de hoje.)


Hoje, que meu coração encheu-se de tristeza, cansaço e dor; hoje, que percebi que posso ser nada enquanto acho que sou tanto; hoje, que me vi tão pequena diante da grandeza enorme dos meus sonhos, estive pensando nele.

Eu nasci em 1968. Meus pais atravessaram as Guerras Mundiais. Quando eu era pequena havia falta de alimentos. Às vezes não se encontrava feijão preto nos mercados, às vezes era o óleo de cozinha que sumia. O alho custava tão caro, que quando estava com um bom preço minha mãe comprava maior quantidade. Eu cresci sob os resquícios, não da guerra em si, mas do que ela fez com meus pais.

Lá em casa não se falava mal do governo. Lá em casa, Getúlio Vargas era admirado. E os rapazes e as mocinhas que sumiam junto com a Ditadura eram meninos rebeldes, de comportamento duvidoso, que a gente não podia jamais pensar em imitar!

Crescer, pra mim, foi difícil. Estive na escola num período em que pouco se falava da realidade dos fatos – ainda era muito cedo! – e as mentiras verdadeiras eram difundidas nos longos questionários nas aulas de História do Brasil. Já lá me sentia confusa. Mas eu era uma menina de dez anos de idade. Ninguém dava importância a uma menina de dez anos de idade naquela época...

Quando a adolescência chegou em minha vida, entendi um pouco da história do Brasil pela voz de Chico Buarque. Caetano e Gil cantaram os gritos de horror e Chico (olha um Francisco aí!), sobretudo ele, ensinou o que alguns professores recusaram-se a ensinar. E eu aprendi o que poderia querer dizer a palavra pátria.

Gonzaguinha também me ensinou a amar o Brasil. E enquanto eu trabalhava incansavelmente, ele punha a mão no meu ombro e me confortava, dizendo que “sem o seu trabalho um homem não tem honra”...

Aí eu me apaixonei pelo meu trabalho e só o que fiz durante toda a minha vida foi trabalhar. Quando dei por mim estava completamente envolvida no processo de educação das crianças, e já não sabia mais viver fora daquele ambiente.

Uma coisa ficou, ainda que eu tenha me tornado um adulto: a incapacidade de entender por que as pessoas doaram seu sangue, sua liberdade e sua vida por causas políticas. Nunca entendi por que jovens morreram tão cedo por um Brasil democrático!

Mas, sem perceber, eu fazia o mesmo com a minha vida. Sempre defendendo a qualidade na educação oferecida no serviço público, sempre na defesa de melhores salários, sempre nas discussões calorosas nas salas dos professores. Ganhei com isto uns inimigos, uns silêncios e umas pragas rogadas, também.

Sobrevivi aos desejos mais perversos de que eu desaparecesse. E segui. Nas mãos, a vontade de crescer, de ver o futuro chegar logo, de ver a liberdade com suas asas estendidas sobre nós. De passo em passo, por muitas estradas passei. Trinta anos se passaram e hoje, tudo o que resta de mim é um cansaço doído, que me causa confusão de sentimentos. Olhando para trás, para todo o caminho percorrido, já não sei se não foi em vão tudo aquilo.

Então me lembrei de Francisco. Daquele quase Tenório Cavalcanti. Daquele menestrel – no mais amplo sentido da palavra – corajoso, a cantar como galo de João Cabral de Melo Neto. Lembrei-me dele, de sua persistência, de sua ousadia, de sua luta. E lembrei-me de que um dia ele pareceu-me cansado. E lembrei-me do susto que levei quando vi que confessou o sentimento.

Mas ele é rocha, como pôde desmoronar? Mas ele é o nosso escudo, como pôde ruir? E então, por um momento fui Francisco.

Francisco optou por estar à frente de um povo nobre, escolado, consciente. E hoje está quase só, na sua luta. Todo mundo tem muito o que fazer, e Francisco representa o todo mundo que faz o muito que tem que fazer enquanto Francisco empresta seu sangue, sua liberdade, sua vida.

Hoje, que meu coração encheu-se de tristeza, cansaço e dor; hoje, que percebi que posso ser nada enquanto acho que sou tanto; hoje, que me vi tão pequena diante da grandeza enorme dos meus sonhos, cansei-me de ser Francisco. E entendi quando ele também se cansou de ser.

Não chegamos a lugar algum quando caminhamos sós. A água mole bate na pedra dura e a transforma, sim, mas não bate sozinha. São infinitas gotas, com o mesmo objetivo. Fora isto, se observarmos as ondas do mar tocando as rochas, veremos claramente que grande parte toma outro rumo. Desiste de enfrentar a dureza do concreto. Contorna os obstáculos.

Não chegamos a lugar algum quando caminhamos passos diferentes. E onde não há coletividade, nada há.

Francisco hoje grita por um mundo melhor com seus “posts” em cores chamativas, que mais parecem luzes de neon. Os que os lêem, agradecem a representação. E ponto final.

Cansei de gritar lá fora. Eu grito aqui, no blog. E hoje vim gritar que uma confusão habita minha cabeça há alguns dias. E os Franciscos estão lá – o Buarque e o Mattos – a me dizerem que talvez não valha a pena.

Quero agradecer ao meu galo-amigo, porque desde o dia em que soube que seria ele o meu representante nas causas por uma educação de verdade fiquei muito honrada. E quero dizer também que temos o direito de nos sentirmos assim, cansados, também.

Há um abismo diante de mim, agora. Olho para o nada. Não vejo futuro algum. Por um momento sinto-me como perfeitamente dispensável dentro de um serviço que ocupa a parte que me sobra no coração depois de ter reservado o espaço para Antônio. Pela primeira vez não sei de nada.

Consultando o Google à procura de uma imagem para a minha página virtual, encontrei aquela frase que descreve a fé como aquilo que lhe dá a certeza de que, se conseguir sair do abismo em que se encontra e já estiver sem fôlego, haverá algo firme em que permanecer, ou irão ensiná-lo a voar.

Preciso de asas. Ou de chão firme. Talvez de coragem. Ou braços estendidos. Ou novos horizontes. Ou, talvez, tudo isto passe dentro do abraço de um Antônio que por pouco não se chamou Francisco. Vou terminar este texto e experimentar.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O mistério da escola

(Este texto dedico especialmente aos educadores - todos! - que trabalham com a Educação de Jovens e Adultos. Eles têm me ensinado a descobrir o mistério da escola.)


Já faz uns dias venho pensando na frase que dá título a este texto... Qual será o mistério da escola?

Estou trabalhando no turno da noite, agora. Sentada diante do balcão de atendimento da secretaria, percebo cada um que chega. Analiso os rostos com meus pensamentos que não param. Tento adivinhar-lhes as histórias, tento descobrir as razões que fizeram com que aqueles donos dos rostos chegassem até lá. Qual será o mistério da escola?

Os rostos brilham o cansaço da lida do dia. Ultimamente tem feito dias intensamente quentes, as pessoas chegam ao balcão com aparência cansada, triste, dolorida. Mas chegam. Querem se matricular. Qual será o mistério da escola?

Fico recordando o tempo em que estudei à noite. Lecionava nos dois primeiros turnos e ia para a Faculdade no terceiro. Mas eu era jovem, e já estava concluindo meus estudos. A hora era aquela, eu não queria deixar para depois. Tive ânimo, uma juventude saudável permitiu-me formar-me Pedagoga. O cansaço só se deu, mesmo, nos últimos períodos, mas eu consegui ir até o final.

Hoje, quando chego à escola onde trabalho à noite, vejo uma gente bem diferente do que eu era. Aquela gente pegou pesado durante o dia. São pedreiros, comerciantes, faxineiras, ambulantes, mecânicos, carpinteiros, garis, cozinheiras. Chegam com seus cansaços nos ombros. Debruçam-se no balcão. Nada dizem. Muitas vezes a matrícula só se concretiza graças à paciência e delicadeza com que o pessoal da secretaria os atende.

Falam baixo, escondendo a boca com as mãos. Muitos não têm dentes. Alguns nada falam, pelo simples motivo de não saberem se expressar, se comunicar. Dizem palavras soltas, contando suas histórias e, aí, nossa experiência na profissão vai costurando os remendos e tecendo a vida que viveram: não frequentaram escola. Evadiram muito cedo, para trabalhar com os pais. Foram reprovados inúmeras vezes e, então, desistiram. Dormiam demais durante as aulas e a professora sugeriu-lhes deixarem a escola. Precisaram largar a escola para cuidar dos filhos e, depois, dos netos. Não havia lugar para estudarem perto de casa. Não havia transporte para os conduzirem à escola mais distante. Filhos doentes em casa não possibilitavam tempo para dedicarem-se aos estudos...

São muitas as histórias. Gente que veio de longe, de outros estados desse enorme Brasil, e que lá deixou sua documentação perdida em casa ou em escolas que já nem existem mais. Escolas fecharam, foram incendiadas, inundadas, levando vidas embora no esgoto ou na fumaça. Simples, assim, como são levadas as vidas deles, dessa gente que hoje procura, misteriosamente, a escola para estudar. Qual será o mistério da escola?

É uma gente que não nos olha nos olhos. Mantém a cabeça baixa. Tem vergonha do que é. É uma gente que nos chama de “senhor” e de “senhora”. Alguns arriscam até um “doutora”... Ficam nos cantos do balcão. Querem se esconder. Querem que tudo aquilo ali acabe logo, porque querem ir para a sala de aula. Lá estão os seus iguais, a gente da mesma forma analfabeta, cansada, igual. Ali na secretaria as “professoras/senhoras/doutoras” sabem escrever, podem, então, descobrir seus segredos, descobrir que nada sabem. Nada.

Aquela gente cresceu e internalizou que nada sabe, de tanto que ouviu as pessoas “que sabem” lhe dizerem isto: os pais, os companheiros, os professores, os patrões, os filhos...

Há gente lá que encosta-se ao balcão para dizer que não quer passar de ano. Quer ficar com a antiga professora, quer aprender melhor o que julga que não aprendeu. Não quer ir adiante.

Todo mundo tem vergonha daquilo que intimamente conhece de si mesmo e acha que é defeito. Aquela gente toda a se aproximar do balcão às dezenove horas é o próprio defeito ambulante. Não existe autoestima, não existe amor próprio. E é a escola que eles procuram, sem nem saberem por quê.

Nós somos o mistério dessa gente de rosto brilhante. Em nós está a esperança de dias melhores. Aqueles adultos que chegam dispostos a destinarem a hora mais sagrada do seu dia – a hora que poderia ser do descanso! – o fazem por julgarem sermos nós a saída para um pouco mais de conforto em casa, um salário melhor, uma imagem menos dolorosa no espelho.

A escola ergue o queixo dessa gente, que só olha para o chão. A escola os dignifica. Abençoados somos nós, professores, que lidamos com aquilo de que o tempo passado se desfez.

E eu me orgulho muito dos colegas que seguram a mão dessa gente. A tremedeira passa, o medo vai-se embora, a segurança vai conquistando espaço e a aprendizagem começa. Começa pelo afeto. Pelo segurar das mãos, pela presença ao lado, pela palavra que estimula, que convida a ficar.

Essa gente fica. Com o tempo, começa a sorrir, mesmo que lhe faltem dentes. Com o tempo, percebe-se. Passa a ter coragem de se olhar no espelho, reconhece-se no meio da multidão.

Eis o mistério da escola. É o nosso mistério, o mistério do professor responsável, comprometido: a gente consegue fazer com que essas pessoas que se perderam no tanto que viveram encontrem-se novamente. E o mais bacana disto tudo é que eles se tornam nossos amigos, quem já passou por isto sabe. São uns amigos agradecidos, fiéis, uns verdadeiros admiradores de nossa profissão. E é por eles que cultivamos o nosso orgulho de sermos PROFESSORES, ainda que o sistema nos atravesse com a forma quase indecente com que nos trata.

Dedico este texto a todos os Professores que se identificaram com ele. Não sei se lhes digo obrigada ou parabéns. Acho que vocês merecem tudo! São profissionais verdadeiramente abençoados! E fica aqui o meu desejo de que leiam este meu carinho antes que a noite chegue.

Hoje é dia de aula. Deus os recompense pelo mistério do ofício!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Às avessas

(O título do texto fala por si, para quem me conhece. Vou dispensar apresentações.)


Então vai ver que pensei tudo errado, desde sempre. Nada do que aprendi com meus pais foi o certo, nada do que estudei na escola valeu. A vida é isto o que está aí, o mundo é o mundo e ponto, a vida é viver agora, porque ninguém sabe o que acontece depois que a gente morre...

Vai ver que ando contra a via, nado contra a corrente, sou o que não deveria ser, vivo às avessas.

Vai ver a importância do relógio é maior que a da minha vida. Importa que meu trabalho se encaixe dentro dos tic-tacs do ponteiro do relógio. Nem um tic a menos, nem um tac a mais. E jamais haverá julgamento sobre a qualidade do que se faz enquanto o ponteiro canta as voltas. Tendo feito, bem ou mal, o serviço, basta.

O valor está nas coisas, e não nas pessoas. E vai ver que é certo colocar o despertador para trabalhar cada vez mais cedo, sair de casa cada vez mais cedo – para voltar cada vez mais tarde – e respirar o mundo lá fora, porque já não é mais necessário viver o interior do lar. Televisões, celulares, computadores, videogames são ligados nas tomadas da sala, enquanto as famílias se conhecem apenas de perfil, como já previa o sábio, maravilhoso, encantador Quintana! Importa que os aparelhos sejam “top de linha”, um melhor e mais caro do que o outro. Aparelhos têm valor de mercado, pessoas não.

É o fim do mundo. Eu não consigo pensar noutra coisa. Acamada por conta de uns sintomas do que espero seja somente uma gripe, vejo meu corpo padecer pelo cansaço de tudo. Estou muito decepcionada.

Meus pais me ensinaram valores ao longo da minha vida. Estão vivos, graças a Deus e, por isso, ainda hoje aprendo com eles. Vejo no que erraram – sim, pais erram! – e no que acertaram. E muito vejo agora, aos quarenta e quase cinco anos de idade. Isto me traz certo conforto: imaginar que Antônio só se dará conta dos meus erros daqui a mais de três décadas! Mas foi através dos meus pais que aprendi a não mentir, a não tirar as coisas dos outros, a defender minhas verdades, a não ser injusta com ninguém, a dar o exemplo.

Meus pais me ensinaram a pensar no dia de amanhã. E me falavam de céu e inferno, como coisas distintas, como consequências dos nossos atos.

Existe céu e existe inferno. Jamais duvidei disto, porque ouvi isto dos meus pais.
Mas eu acho que tem gente que duvida.

O céu que internalizei no coração desde pequena é azul, tem jardins, anjos e animais (ainda tem). Lá ficam as pessoas boas que passaram pela Terra, que fizeram o bem e, por isto, foram absolvidas por Deus de qualquer condenação. Lá as pessoas são espíritos e não se reconhecem como pai, mãe, irmão, primo, enfim. São anjos de Deus e velam pelos que ainda não chegaram lá.

O inferno é quente, vermelho, e arde em brasa. É triste, escuro, barulhento, e nele estão todas as pessoas que, pelo tanto de mal que fizeram não puderam ser abraçadas por Deus, porque ele é fiel, e nos promete salvação. Mas para os que não querem ser salvos, não há o abraço de Deus. E eu imagino quão triste fica o Nosso Senhor ao ver seus filhos caminhando para o fogo por opção própria. Triste destino!

Cada um escolhe, durante a vida, o destino que tomará na sua morte. E enquanto as coisas do mundo vão sendo adoradas, desejadas a qualquer preço, vou pedindo a Deus que me livre das tentações.

Trabalhei vinte e nove anos da minha vida. Vivi quarenta e quatro. É isto, eu comecei aos quinze. E, diante desta tela, agora, um cansaço físico e emocional me deixa em dúvida se valeu a pena...

Nas horas de café da manhã, almoço, café da tarde e jantar sentamos, sempre, todos da casa à mesa. Não há individualidade na casa dos meus pais. Esperávamos papai chegar da oficina, às vezes a comida esfriava por um atraso qualquer dele, mamãe esquentava novamente, não se importava. Tínhamos que esperá-lo chegar, para fazermos a refeição. Não se conversava muito, mas estávamos juntos. Ali já estava o exemplo. Sem palavras. Só ações. E até hoje é assim: sempre que vou a casa deles, sentamos todos à mesa para as refeições, e as crianças vão aprendendo o comportamento já aos quatro, cinco, seis anos de idade. Hoje Antônio e eu almoçamos juntos, lanchamos juntos, jantamos juntos. Herdamos o exemplo, graças a Deus!

Mas o mundo que fica no portal da minha casa não me quer perto de Antônio. Não quer mães perto dos filhos. Então, o mundo envia as pessoas que perseguem, que maltratam, que tomam o poder para satisfazerem-se prejudicando o outro. Ninguém mais exige que você seja bom no que faz. É preciso que você faça, faça, faça até que não se lembre mais do rosto que tem seu filho, ou seu marido, ou sua esposa, ou seus pais, ou o cãozinho que você pegou para criar... Nada disto tem valor diante do que o mundo quer sugar de você.

Hoje meu corpo me pediu para parar. Ontem era só um desejo de choro, uma tristeza apertada, hoje é dor. É físico. Tudo o que somatizamos ao longo da vida é dor, é doença. E hoje acordei doente de tudo o que tenho vivido em tão pouco tempo.

Por isto, justamente por isto, dobrarei meus joelhos no chão e agradecerei a Deus. O mundo pode acenar lá fora com seus lobos disfarçados de ovelhas (ou fazendo questão de revelarem-se lobos, mesmo) à vontade, porque da porta para dentro da minha casa há um Deus nos guardando, a mim e a Antônio. O Deus que inspirou meus pais na minha criação, o Deus que conduziu-me ao trabalho aos quinze anos...

Da vida não se leva perseguição, covardia, imposição, intolerância, soberba, autoritarismo, maledicências. Da vida se leva o que se faz de bom.

Vou me deitar agora e adormecer o cansaço disto que está tomando o meu corpo. Hoje ao acordar, Antônio me contou de um sonho: ele estava num navio que naufragava, e foi parar numa ilha de dinossauros. Ficou amigo deles e eles os levaram de volta para casa. Eu estava tomando banho enquanto ele me contava o sonho. Eu chorei sob a água gelada do chuveiro. Pedi a Deus que abençoe meu menino para sempre!

Meu navio anda naufragado e não avisto ilha para me salvar. Muito menos pescoços compridos de dinossauros. Mas eu já estou com quarenta e quatro anos de idade. Antônio, na plenitude do céu, aos sete anos, é a minha certeza da presença de Deus aqui em casa.

Ainda sonho com o céu. Mesmo vivendo às avessas.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ir ou ficar

("Vossos filhos não são vossos. São filhos da ânsia da vida por ela mesma". Esta frase não é minha. Mas serviu a este texto que conta a história de uma mãe que vive um dia de cada vez. Amiga querida, é para você!)


Hoje ela mesma preparou o almoço. Escolheu pessoalmente as verduras no mercado, avaliando-as carinhosamente. Depois, seguiu para o açougue: carne fresca, saborosa. Temperos escolhidos, avental amarrado à cintura, respirou fundo e começou a cozinhar.

Seu filho, deitado no sofá da sala que fica próximo à janela, conversa com ela. Da para ver a cozinha de onde está, porque há meia parede separando os cômodos. A conversa é boa, ele nem se dá conta do programa da TV, que ligou mecanicamente...

Falam sobre muitas coisas. Ela, animada com o ânimo dele, agradece a Deus, entre uma pausa e outra da conversa, pela vida que seu filho vive hoje. Só por hoje. Dá graças.

Ele sempre foi um menino maravilhoso, desses que a gente vê na rua, na escola, nas fotografias e pensa: “quero ter um filho assim”. Inteligente, perspicaz, astuto, questionador. O menino cresceu rápido, ainda que diante dos olhos dela, e um dia pediu-lhe para ir embora.

Naquele dia, ela sentiu abrir-se o chão em que pisava. Filhos se vão? Como é isto? Eis uma experiência que se tem que ter, para se saber. Ainda que suas amigas com filhos de mesma idade a houvessem alertado, ela jamais imaginara que chegaria o seu dia de decidir se o deixaria ir, ou se o pediria para ficar.

Mas ele estava diante dela: mochila nas costas, roteiro de viagem amassado nas mãos – de tanto planejar! – e duas passagens compradas... Duas? Sim, ele não ia só. Apaixonara-se por aquela que agora, só agora, ela julgava louca. Pela primeira vez sentiu ciúmes...

O mundo rodou na sua memória rapidamente, e não deu uma volta só, não. Diante dela, de pé no tapete da sala – quase na porta! – esteve, por alguns segundos, o bebê amamentado, a criança dos primeiros passos oscilantes, o garotinho com o seu primeiro uniforme, o menino de janelinhas vestido para a festinha do primeiro livro, o rapazinho que mudou de escola quando terminou o Ensino Fundamental, o adolescente que confessava estar apaixonado... Todos esses numa só pessoa, seu filho, homem feito, que de pé, à sua frente, esperava apenas por um abraço de “boa viagem”.

Seu coração gritou um “fique!” tão alto que ela até se assustou! E até hoje acha que seu filho ouviu, também, porque olhou para ela de um jeito tão diferente que ela nunca mais se esqueceu. Sua boca se abriu, e tudo o que os dois ouviram no silêncio mais profundo da sala de casa foi um “vá, vá com Deus!”

O abraço eternizado no sentimento que ficou com ela e foi com ele durou muito tempo. A porta da sala escancarou-se para passar por ela o homem com mochilas enormes. E ele desceu as escadas para ir.

Um dia um amigo meu me disse uma frase, da qual nunca mais me esquecerei. A frase é de Khalil Gibran, e diz assim: “Vossos filhos não são vossos. São filhos da ânsia da vida por ela mesma.” A vida os espera, não há como proibirmos que vivam.

Ele foi feliz durante muito tempo. Ela o acompanhou pelos meios virtuais de comunicação. Cada foto postada, um lugar diferente. Ele via aventuras, prazer, satisfação, conquista. Ela, só via os perigos: muito alto, muito longe, muito frio, muito quente, muito vazio, muito escuro!...

Quando se comunicavam por telefone ou vídeo, ela percebia as mudanças físicas do sempre-filho-sempre-menino: mais magro, um tanto cabeludo demais, voz diferente. Chorava absurdamente, dormia com o travesseiro molhado de saudade! E, ainda que seu desejo fosse o de reclamar, nas suas orações sempre agradecia a Deus pela vida de seu filho.

De aventura em aventura, descoberta em descoberta, cada dia mais distante, cada lugar menos previsível, um dia sua campainha tocou insistente. E quando virou as chaves ansiosa por saber quem era o inoportuno da meia-noite, percebeu estar diante do seu bebê, ávido pelo seio materno. E era ele, com seus braços estendidos num sorriso triste.

Ele voltou para casa. Está doente.

Enquanto cozinha o almoço e conversa sobre assuntos do cotidiano ela o observa, deitado no sofá. Está fraco. Seu olhar perdido procura a janela da sala – é o lugar onde ele mais gosta de ficar. Dali vê pássaros nos fios e nos postes da rua. Acompanha o ninho, tenta reconhecer, depois, os filhotes que quebraram os ovos. É amante da natureza, hoje a refeição saudável trouxe alegria para dentro de casa.

A mímica dos apresentadores dos telejornais delata a ligação entre mãe e filho. Nada mais há que interesse para aqueles dois, senão jogar conversa fora. Ela prepara o suco, arruma a mesa, põe flores e guardanapos combinando. Ajeita as almofadas para que ele se sinta mais confortável. O conforto lhe diminui as dores. Fazem silêncio, dizem “amém” simultaneamente. A oração, o desejo de cura. Eles se olham, ele elogia a comida. Ela ri.

Eles têm feito isto todos os dias. Vivem o dia, aquele que Deus concede quando lhes apresenta o Sol. Se acordados, vivem. Sem maiores planos para o amanhã.

Às vezes, terminada a refeição, ele adormece. É a hora do plantão dela. Confere-lhe a temperatura, a hora dos remédios, o dia da próxima consulta... E sempre, sempre, ajoelha-se no chão – com seus joelhos abençoados – e pede a Deus que olhe por seu filho. E agradece por cada dia em que ele desperta depois daquele sono que para ela é desespero de um não acordar mais.

Nossos filhos não são nossos. Firme, rocha, mãe, ela cuida dele sem saber por quanto tempo. Espera por sua cura, porque crê. E vive o dia. De nada se arrepende. Sua consciência atrelada ao seu coração lhe guia os passos. Está com seu menino que, apesar de já tão grande, depende de sua vigília, como depois do parto.

Ir ou ficar é uma decisão que independe da gente. Quando se é mãe, já se foi filho. Já quisemos ir, enquanto queriam que ficássemos. Mas se a vida acena com um convite irrecusável, há que se ser MÃE, para permitir que os sonhos se realizem, ainda que isto pressuponha vôos mais altos do que se imagina.

Que Deus olhe por vocês dois, minha amiga. Agora, a decisão de ir ou ficar está nas mãos do Nosso Senhor!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Amor de mãe


(Uma tentativa de descrever meu sentimento por Antônio, como se fosse possível!)


Ele está dormindo, agora. Corpo espalhado na cama, cansaço compensado, vigiado pelos anjinhos que sempre, antes de pegar no sono, pede a Deus que envie para protegê-lo.

Eu o amo.

Indescritível, esse amor de mãe. Ainda que eu registre todas as palavras que o teclado do notebook me permite, jamais conseguiria definir o que é isto que a gente sente por um filho!

Quando abri o resultado do exame, me apaixonei por ele. Aliás, acho que já o amava quando estiquei o braço para a agulhada! Depois, quando a ultrassonografia definiu as treze semanas, sofri por não ter aproveitado melhor o início da gravidez. E pedi perdão a ele pela falta de carinho, por deitar de bruços na praia...

Amo Antônio! Desde que descobri que ele estava em mim. Já sabia ser um menino, já conseguia vê-lo, tal como nasceu: branquinho, de olhos e cabelos escuros. Já previa-lhe o nome, que significa “inestimável”!

Hoje tenho em casa um menino de sete anos. Tenho um amigo, um parceiro. Dessa nossa convivência – nada fácil para uma mulher que vivia sozinha e que foi mãe aos trinta e sete anos! – surgiu um compromisso: somos a nossa família. Ele, extremamente responsável por mim, arriscaria dizer até que mais do que eu por ele...

Sua dor é minha. Graças a Deus, quase nunca adoece. Mas, se o percebo prostrado, quieto, sinto o coração atravessado por uma espada. Meu menino não é de tristezas, a não ser que o “homem das águas não consiga eliminar as forças do mal que atacam os dinossauros aquáticos”, ou qualquer outra coisa parecida. E, se o rosto manifesta seriedade, fico inquieta, angustiada por saber o que tem. Uma “barriguinha” doendo, um corte no joelho, umas bolotinhas espalhadas pelo corpo depois da picada de um inseto e, pronto, eis uma Karla acabada: não sou nada sem Antônio!

Como descrever um sentimento como este? Há sete anos minha vida transcorria daquela forma que eu julgava normal. Tudo em ordem em casa. Rotina decorada, inalterável.  E, repentinamente, Deus me envia um garotinho que põe por terra tudo o que eu julgava dominar.

Filhos desordenam a vida da gente. Nada na minha casa (na minha vida!) ficou no lugar, desde que ele nasceu. Pouquíssimas regras puderam ser mantidas. E percebi que teria que conviver com mais alguém em casa. E tudo o que, a princípio me causou estranheza, dúvida, medo, passou a ser razão de alegria e orgulho. Durante esses sete anos fomos/estamos aprendendo a lidar um com o outro, e é impressionante como o amor só aumenta. Agora mesmo, olhando para ele dormindo na cama, sinto que meu amor é maior do que o de ontem, quando lhe desejei “boa noite”.

Hoje é domingo, temos o dia pela frente. Respeito-lhe o sono. Daqui a pouco ele acordará. Às vezes vem devagar, silenciosamente, e me surpreende com um abraço. Cai na gargalhada quando eu me assusto. Aí a gente se abraça e eu sempre sou a última a me desprender...

Graças a Deus tive Antônio aos trinta e sete anos! Até que ele cresça e resolva trocar os meus braços por outros, já estarei bem mais velha. Sim, bem mais velha, porque mãe eterniza o tempo, não acreditaria se alguém me dissesse agora que “passa rápido demais!” Eu já contei do meu desejo de apertar a tecla pause do tempo, não contei?

Meu coração sabe-lhe as dores, as preocupações, os temores, as alegrias, as tristezas, as emoções. Como ele mesmo diz, eu sei de todas as coisas. Não sei como isto acontece, mas sei. E venho percebendo que ele também sabe das minhas. Pergunta-me se estou bem, exatamente naqueles dias em que não estou. Há uns meses me viu chorar. Eu estava debruçada na janela do banheiro, imaginei-me escondida... Que nada! Lá estava Antônio, com as mãos estendidas secando minhas lágrimas e me perguntando o que estava acontecendo. Até hoje ele se lembra disto. Seu coraçãozinho não se esqueceu. Acho que descobriu que mães sofrem, também.

Eu sou força, para ele. Quase a Mulher Maravilha! Faço o serviço de casa, o levo para a escola, vou buscá-lo, trabalho fora, pago as contas, apago as luzes, controlo o tempo no chuveiro, preparo-lhe o almoço preferido, o suco mais gostoso, o lanche predileto. No final, quando o dia termina, é nos meus braços que ele adormece. Eu lhe digo “durma com Deus” e ele me responde “dorme com Deus você também”. Nada mais é necessário. Muitas vezes choro quietinha, depois que ele me diz isso. Sinto Deus me abençoando, é muita emoção.

Em 1º de fevereiro de 2006 conheci o amor de verdade. Neste dia entendi meus pais. Quando Antônio reage às minhas posturas de “mãe brava”, vejo que estou no caminho certo. Porque mãe sempre duvida, sempre se culpa e, mesmo que erre, eu creio, erra tentando acertar. Então, quando o vejo fazer bico, cara de zangado quando lhe nego algum pedido, lembro-me imediatamente dos meus pais. Agora sei. Agora entendo tudo. E perdoo, na mesma medida em que peço perdão.

Tem um menino dormindo na minha cama, ainda. Espalhado, braços e pernas abertos, toma todo o espaço. E ainda nem cresceu o tanto que seu corpo promete! Meu menino anda às voltas de um dentinho mole, que indica uma nova janelinha. E voltamos àquela conferência diária, para ver quando isto se dará. Fica apreensivo, porque eu estou apreensiva. Coisas de mãe! Estamos esperando a visita da Fada dos Dentes...

De janelinha em janelinha vai vivendo, crescendo, tecendo a vida que é dele. Já toma algumas decisões sozinho. Já está mais independente. Eu, de minha parte, sigo ao lado (à frente, atrás, em cima, embaixo...) aparando arestas, apontando-lhe os perigos que o esperam lá na frente, acreditando que posso evitar que sofra. Na verdade, revelando um segredo agora, eu quero mesmo é que esses tais perigos já não existam mais quando Antônio crescer.

De janelinha em janelinha vou eu vivendo, envelhecendo, dando-lhe passagem para a vida. Conheço os “lá na frente” todos, e tento sinalizar-lhe os cuidados. Minha vida vai passando, vou me despedindo, e nem ligo, porque meu amor de mãe me preenche de tal forma que de nada mais preciso.

Eu queria ter descrito aqui, nestas linhas, o que é, ou como é o amor de mãe. Olhando para os parágrafos acima, vejo que não consegui. Mas o texto está pronto, e é o registro de tudo o que somos um para o outro. Cada um ama de um jeito, cada um retribui o amor que recebe de um jeito. Vivo minha vida assim, com Antônio. E sou infinitamente grata a Deus pelo presente que recebi quando aquela folha de papel do laboratório se abriu em minhas mãos e me assustou com o salto da palavra POSITIVO. Minha vida estava só começando, ali, e eu nem sabia! Obrigada, Senhor!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Referências

(Dos meus 29 anos de Magistério, só tenho motivo de orgulho: 16 deles dediquei à tarefa de lecionar e os outros 13 dignifico na função "ápice" de Inspetor Escolar. O orgulho vem das minhas referências...)

Quando amanhecer o dia de amanhã, sairei de casa para trabalhar, depois de algum tempo – a gente sempre acha que é pouco – de descanso. Na pasta, um caderno novo, e dois papeizinhos velhos...

São os da foto, aí em cima. Não os deixo, não me livro deles. São a minha referência desde 2000, quando iniciei  minha vida profissional de Inspetor Escolar.

O que está embaixo é um controle de correção de um Diário de Classe. A rubrica, no canto inferior da folha, revela uma das minhas “professoras do ofício”, Cláudia Lacerda. Quem trabalha, ou já trabalhou com ela, reconhecerá a minha verdade.

No papel de cima, a condução reta de outra professora inesquecível: Nilza Alberto. Trata-se de um rascunho (ela chamará de rascunho o que chamo de instrumento eterno de trabalho!) onde ela anotou, enquanto me explicava cuidadosa e pacientemente, o que fazer na escola. Note que o registro inicia com os dados de 1999...

Quem me conhece sabe que eu chamo carinhosamente a Inspeção Escolar de “Ápice”. Uma brincadeira gostosa, que acabou pegando entre o grupo de amigos que tenho. Mas, sinceramente, vim aqui para confessar que não digo isto brincando. Eu tenho história pra contar!

Vim de São Gonçalo, e na maioria da Rede Municipal da Região Metropolitana esta função não existe. Vim de lá, portanto, sem saber o que fazer. E tudo o que encontrei foram flores, muitas flores!

Grande parte da história de minha chegada às Secretarias de Educação eu já contei, em textos que estão soltos por aqui pelo blog. Na verdade, sendo este meu espaço um diário onde confesso a vida que levo, é comum encontrar meus registros de agradecimento a toda gente que me compõe.

Mas hoje meu objetivo é encher corações-ápices de alegria e tentar animá-los para o ano letivo que se iniciará quando amanhecer o dia de amanhã.

De posse da minha pasta e dos meus papeizinhos velhos sairei de casa. Não vou só. Vou com Nilza, com Cláudia, com Herminia, com Madalena. Vou com todas as pessoas que encontrei à porta das escolas quando cheguei para me apresentar. Vou com as Diretoras, as Secretárias. Vou com Marinez, com Albertina, com Christian, com Aninha, com Claudinéia. Vou com Clarice, com Rosinha, com Bruno. Todo mundo faz parte de mim quando digo o meu “bom dia!”. Fui evoluindo, aprendendo e, até, ensinando. Caminhando, me compus de Cleide, de Guiomar, de Marli, de Ziza, de Malu, de Vera... Conheci outros sistemas e muitas Tanias, Márcias, Ivanildes, Mercedes, Nicias, Elanes, Renatas, Shirleys, Flávias, Aldas me emendaram todas as vezes em que me rasguei.

Ouvindo experiências me tornei Marlenes, Elianes... Estendendo a mão, recebi as mãos erguidas quando mais precisei. E preenchi-me de Fernandas... Olhei em volta, acolhi, e cerquei-me de Assianys, Giseles, Annas, Tiagos, Lillians, Lucianes, Luanas...

É tudo flor, por aqui. E por tudo isto, por este jardim, agradeço a Deus.

O ano de 2013 bate à porta, abre as janelas. Os dias ensolarados nos revelam que Deus nos abençoa. As secretarias das escolas aguardam ansiosas pelo Inspetor Escolar que atuará nelas. E, construída de minhas referências, ocuparei meu espaço, ajeitando a cadeira, organizando a mesa para trabalhar. E serei a escola, numa atitude abrangente, que transcende a função de “mero vistador de papéis”, como já ouvi de uns pobres por aí...

Eu sou mais, sou muito mais do que isto. Sou Inspetor Escolar. Na amplitude do exercício, respondo pela verdade e assumo a responsabilidade pela fluidez do aluno na escola pública, com o mesmo compromisso com que garanto a segurança do menino que, por opção dos pais, estuda na escola particular. Eu sou o Sistema Municipal de Educação, e estou lá para defender o meu colega, meu parceiro Professor. E, para além disto, para ser feliz no espaço onde passo a maior parte do meu dia.

Meu trabalho me dignifica. Depois que o dia termina, volto para casa cansada – muitas vezes mais mentalmente do que fisicamente – e descanso no abraço de Antônio. Meu filho não tem de mim o tempo que a escola pública hoje tem. E é preciso que eu pense nisto diariamente, para poder fazer valer o tempo que passo ao lado do meu menino, que agora já me apresenta sete anos vividos.

Mas se a gente passa mais tempo dentro da escola do que de nossa própria casa, é obrigação fazer o que tem que ser feito da melhor maneira possível. Portanto, o abraço em Antônio tem que ser o mais gostoso, tanto quanto a minha estada na escola tem que ser cada dia mais proveitosa, mais respeitada, mais convincente.

Graças a Deus, tive minhas referências. Graças a Deus, tornei-me, sei, referência para alguns recém-chegados, também. E graças a Deus tenho humildade em aprender com aquele que recebo, tenha ele experiência na função, ou não. Porque sei que ensinei, também, quando cheguei. Isto, verdadeiramente, é ser o ápice. Que bom que sou Inspetor!